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Além da cobertura: a agenda política da Globo na crise do Golfo e a construção do "Plano T"
Emissora que recebe quase metade da verba publicitária do governo federal intensifica viés crítico e aposta na viabilidade eleitoral de Tarcísio de Freitas em 2026, enquanto busca desgastar a gestão Lula com narrativas de caos econômico
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 03/03/2026

A reiterada tentativa da Globo de associar o conflito no Irã a um suposto impacto imediato no orçamento das famílias brasileiras — mesmo após a declaração enfática do ministro Fernando Haddad de que "não há impactos diretos" — não pode ser compreendida como mero exercício jornalístico. Trata-se de um padrão histórico de atuação política travestido de isenção, que agora ganha contornos de um projeto eleitoral claro: viabilizar uma alternativa de direita competitiva contra Lula em 2026. Essa alternativa, nos corredores do poder e nas editorias de política, tem nome e sobrenome: Tarcísio de Freitas (Republicanos), o "Plano T".

Enquanto o governo Lula enfrenta desafios reais de comunicação — e mantém com a Globo uma relação ambígua que envolve 49,4% de toda a verba publicitária federal destinada à televisão —, a emissora age como se estivesse em campanha. A análise das coberturas recentes revela uma linha editorial que sistematicamente:

  • Hiperboliza riscos econômicos: ao tratar a alta do petróleo como inflação certa no bolso do brasileiro, desconsidera os dados de resiliência do agronegócio, a safra já contratada e as próprias falas de Haddad, que apontam cenário de cautela, mas sem pânico.
  • Omite informações cruciais: como fez no caso do pastor ligado a Tarcísio e Bolsonaro alvo da PF — a Globo simplesmente suprimiu o vínculo do doador com o governador de São Paulo em suas reportagens, protegendo o nome que hoje é tratado internamente como "o mais competitivo da direita".
  • Escolhe manchetes que constroem narrativa: pesquisa que mostra Lula vencendo todos os adversários virou, na Zero Hora (do Grupo RBS, afiliada Globo), "Pesquisa mostra que Tarcísio é o mais competitivo da direita" — um claro recado de que o caminho para enfrentar o PT precisa ser pavimentado.

O modus operandi da Globo sempre foi seletivo. Apoiou o golpe de 1964, ajudou a eleger Collor com uma edição fraudulenta do Jornal Nacional, naturalizou a Lava Jato, abraçou as reformas trabalhistas e, agora, diante de um Lula que lidera as intenções de voto, aposta em Tarcísio de Freitas como nome "palatável" para o grande capital. A cobertura do conflito no Golfo, nesse contexto, ganha uma função extra: testar a solidez da economia real e tentar semear a ideia de que o governo petista não consegue proteger o bolso do trabalhador.

A ironia (e a contradição) salta aos olhos: ao mesmo tempo que a Globo endurece o tom contra o governo na editoria de Economia, seu caixa registra o maior volume de verbas publicitárias federais da história recente. Dados do Poder 360 mostram que, nos três primeiros anos da gestão Lula, a emissora embolsou R$ 461,5 milhões em publicidade estatal, mais que o dobro do que recebeu no mesmo período do governo Bolsonaro. Ou seja: a "guerra" editorial acontece com combustível (publicitário) do próprio alvo.

O caso do afastamento de Milton Cunha do quadro "Enredo e Samba" é emblemático do atual estágio da relação. O carnavalesco foi removido da atração jornalística local do RJ1 justamente por ter estrelado uma campanha institucional do governo federal — a direção da Globo entendeu que a publicidade oficial "contaminaria" a suposta isenção jornalística. A decisão revela um movimento duplo: a emissora não quer ser vista como "chapa branca", mas também não abre mão do dinheiro público. Quer, isso sim, manter o papel de ator político capaz de influenciar o resultado das eleições.

Outro termômetro desse tensionamento foi o editorial recente de O Globo, que acusou indígenas de "chantagear" o governo Lula após protestos contra hidrovias na Amazônia. O texto, classificado como "vergonhoso" por setores progressistas, inverteu a lógica democrática ao tratar reivindicações legítimas como vandalismo, e cobrou do governo "equilíbrio" com o agronegócio — setor que historicamente a Globo defende com afinco.

A tese do "Plano T" não é teoria da conspiração; é um fato político analisado até por veículos do próprio grupo, ainda que nas entrelinhas. O colunista do Terra, por exemplo, observou que a Globo vive "momento tranquilo com o Poder Executivo" e que, com Bolsonaro fora do jogo, "eventuais ofensivas" contra a emissora diminuíram. O que o colunista não diz é que a tranquilidade atual permite à Globo operar com mais liberdade para construir a candidatura que lhe parece viável — e que, neste momento, passa por Tarcísio de Freitas.

Diante desse cenário, a insistência em pautar o "caos no Golfo" como ameaça direta ao orçamento familiar não é mero alarmismo. É um ensaio para 2026. Quanto mais a Globo conseguir associar o terceiro mandato de Lula à instabilidade, à carestia e à fragilidade externa, mais espaço cria para um discurso de "ordem" e "competência gerencial" — justamente os atributos que pretende colar em seu candidato. O problema para a emissora é que o brasileiro, escaldado por décadas de manipulação, já aprendeu a desconfiar do "jornalismo que sempre escolhe um lado".

Com informações de Brasil de Fato, Jornal do Brasil, Poder 360, Revista Fórum, Terra, RD1, Vitrine do Cariri ■

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