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Quando Renato Bolsonaro protocolou, na última semana, mais uma ação contra o desfile da Acadêmicos de Niterói, ele não estava apenas defendendo a honra do irmão ou tentando coibir uma suposta propaganda eleitoral antecipada. O irmão do ex-presidente dava voz a um sentimento que parece unir a família Bolsonaro e seus apoiadores mais fiéis: a absoluta incapacidade de serem ridicularizados. O carnaval carioca de 2026, portanto, não será lembrado apenas pela estreia da escola niteroiense no Grupo Especial ou pela homenagem ao presidente Lula, mas por ter se tornado o palco onde o establishment bolsonarista tentou, sem sucesso, processar a alegria popular.
O número de ações judiciais já ultrapassou a casa da dezena — Renato Bolsonaro, sozinho, moveu duas. Somam-se a elas representações do Partido Novo, do senador Flávio Bolsonaro e da senadora Damares Alves no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), no Ministério Público e no Tribunal de Contas da União (TCU). O alvo principal: a alegoria que retratava Jair Bolsonaro como o palhaço Bozo atrás das grades, com uma tornozeleira eletrônica rompida. O estrago simbólico para a imagem do ex-presidente, aos olhos de seus familiares, foi profundo demais para ser ignorado. A resposta, previsível, foi tentar enquadrar a irreverência nos limites da lei.
Há uma ironia fina e cruel nesse movimento. Durante anos, Jair Bolsonaro e seus filhos construíram suas carreiras políticas às custas do escárnio público dirigido a adversários. A figura do "Mito" foi forjada na antipolítica, no deboche contra a esquerda e na ridicularização constante de figuras como Lula, Dilma Rousseff e demais opositores. Agora, ao se verem no lado oposto do picadeiro, a reação não é rir junto ou ignorar, mas correr para o judiciário como se a liberdade artística fosse um atentado pessoal contra a família. O que as ações revelam, na prática, é a face mais visceral de um ego ferido: o que vale para mim não vale para ti.
O enredo da Acadêmicos de Niterói, intitulado "Um conto de esperança: a saga de Lula, o retorno do filho pródigo à terra prometida", foi construído com elementos bíblicos e uma crítica social afiada. A ala que causou maior furor entre os evangélicos, a "Neoconservadores em Conserva", é um exemplo primoroso de como o carnaval exerce seu papel de espelho crítico da sociedade. A fantasia que simulava uma lata de alimentos, rotulando famílias conservadoras como produtos enlatados e homogêneos, atingiu em cheio um dos pilares da campanha bolsonarista: a defesa intransigente da "família tradicional". A reação de Michelle Bolsonaro, que classificou a alegoria como "escárnio à fé cristã", é sintomática: confunde-se a crença religiosa com um projeto político específico, e qualquer crítica a este último é elevada à categoria de perseguição religiosa.
É importante destacar os elementos que, somados, provocaram a ira bolsonarista:
A tentativa de censura prévia, inclusive, já havia sido rechaçada pelo TSE na última quinta-feira (12), quando a ministra Cármen Lúcia alertou para os riscos de excessos, mas negou a liminar do Partido Novo. A mensagem da Corte foi clara: no carnaval, a fantasia e a sátira têm endereço certo e não podem ser silenciadas por liminares. A decisão da primeira-dama Janja da Silva de não desfilar, para evitar mais perseguições à escola, foi um gesto político que, paradoxalmente, escancarou o clima de tensão que rondava a Sapucaí.
Ao todo, as ações judiciais miram o financiamento público das escolas de samba. O argumento é que o repasse de R$ 1 milhão da Embratur para cada agremiação configuraria uso de dinheiro público para beneficiar o governo Lula. Ocorre que o modelo de fomento ao carnaval é anterior a este governo e sempre contou com incentivos fiscais e patrocínios de estatais, inclusive durante a gestão Bolsonaro — quando, diga-se de passagem, nenhum familiar do então presidente moveu ações contra enredos que exaltavam feitos do governo ou silenciavam sobre críticas.
O que se vê, portanto, é uma clara assimetria de comportamento. A família Bolsonaro, que sempre se notabilizou pelo uso politico das redes sociais para atacar adversários, agora recorre ao judiciário para tentar silenciar a crítica que a atinge. A "décima-primeira ação" não é sobre legalidade, mas sobre vaidade. É a tentativa de enquadrar a arte nos limites estreitos da tolerância de um clã que não admite ser alvo da mesma irreverência que sempre praticou.
A nota oficial da Acadêmicos de Niterói, ao afirmar que sofreu "perseguições vindas de gestores do próprio Carnaval Carioca" e que "não conseguiram" silenciá-la, é um atestado de resistência cultural. A escola compreendeu que, no Brasil, o carnaval sempre foi o espaço do contraditório, da inversão de papéis e da crítica social. Foi assim com as Marchinhas da ditadura, com os enredos da Mangueira sobre heróis da marginalidade e com as críticas à corrupção em diversos sambas. Agora, a tradição se repete, e os novos alvos reagem com processos.
Enquanto isso, o país assiste a um espetáculo à parte: o bolsonarismo tenta, a cada liminar, colocar uma tornozeleira eletrônica na liberdade de expressão. O resultado, por enquanto, é que a fantasia de palhaço preso continua a ecoar na memória do público, mais forte do que qualquer decisão judicial. Porque, como bem sabe quem faz carnaval, a sentença que realmente importa é a do povo na avenida. E esta, a família Bolsonaro ainda não aprendeu a contestar.
Com informações de G1, BBC News Brasil, UOL, Folha de S.Paulo, CartaCapital, Veja, O Globo, Agência Brasil e publicação oficial da Acadêmicos de Niterói no Facebook ■