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A direita continua tentando um golpe
Organização criminosa que operava na sombra da Abin não só monitorou ministros do Supremo e adversários, mas mantém até hoje uma engrenagem de denuncismo contra o PT, vazamentos seletivos de setores da PF e da burocracia de Estado, enquanto articula no Congresso projetos de blindagem para escapar da Lei da Ficha Limpa e ganham tempo com cortinas de fumaça na imprensa
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 22/02/2026

A cada nova revelação da Polícia Federal, escancara-se que a tentativa de golpe não foi um ato isolado de 8 de janeiro, mas sim um projeto de poder contínuo, gestado dentro das próprias entranhas do Estado. O relatório final da PF sobre a chamada "Abin Paralela" não deixa margem para dúvidas: tratava-se de uma organização criminosa de "alta potencialidade ofensiva" que, durante o governo Jair Bolsonaro, empregou recursos humanos, financeiros e tecnológicos da Agência Brasileira de Inteligência para fins ilícitos e para a "manutenção no poder, inclusive pelo rompimento do Estado Democrático". As ações clandestinas tinham como destinatários principais o próprio ex-presidente Jair Bolsonaro e seu filho, o vereador Carlos Bolsonaro, que integravam o núcleo político responsável por definir as diretrizes estratégicas dos ataques.

O Modus Operandi: Espionagem, Fake News e Ataques Institucionais

A estrutura paralela montada por Alexandre Ramagem, então diretor da Abin, utilizou de tudo: desde o software de monitoramento FirstMile, que realizou centenas de pesquisas ilegais contra desafetos do clã Bolsonaro, até drones e câmeras da Esplanada dos Ministérios para produzir conteúdo político. O objetivo era claro: "produzir e disseminar sistematicamente narrativas falsas e ataques contra instituições (como o Sistema Eleitoral Brasileiro e o Poder Judiciário), opositores políticos e quaisquer indivíduos ou grupos que contrariassem os interesses do grupo político no poder".

A Procuradoria-Geral da República, na denúncia que tornou Bolsonaro e aliados réus por tentativa de golpe, detalhou a "consonância" entre os discursos públicos do ex-presidente e os alvos escolhidos pela Abin paralela. Os ataques às urnas eletrônicas e a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foram "parte do plano maior de ruptura com a ordem democrática", com a estrutura de inteligência sendo usada para "potencializar a animosidade social contra as instituições, enfraquecendo-as e restringindo-lhes o exercício".

O Denuncismo como Tática: Da Receita Federal à Escola de Samba

Paralelamente à estrutura de espionagem, uma ala de servidores engajados e setores da própria PF atuaram (e ainda atuam) em uma guerra de vazamentos seletivos e denuncismo contra o PT e os magistrados. Um exemplo recente e paradigmático é a ação ajuizada pelo Partido Liberal (PL), legenda de Flávio Bolsonaro, no TSE contra o presidente Lula. O partido, através de seus pares, apoiadores e coligações, tentou impugnar a todo custo o desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que homenageou Lula no Carnaval de 2026, sob a acusação de propaganda eleitoral antecipada e, posteriormente, em ações diversas em contextos de defesa da imagem do ex-Presidente Jair Bolsonaro — condenado por tentativa de golpe de Estado sob tutela da Justiça e "vitimizado" por chacotas durante o desfile da escola de samba — em (por enquanto) 14 ações distintas.

O documento do PL, na prática, busca "preservar e reunir elementos probatórios para embasar futura ação" e pede a quebra de sigilo de investimentos públicos no setor cultural. Apesar de a ministra Cármen Lúcia ter rejeitado a censura prévia ao desfile, o episódio revela a estratégia de judicializar a cultura e a arte como forma de desgastar a imagem do atual mandatário, criando factoides em ano eleitoral. Curiosamente, a mesma ministra foi cobrada por setores bolsonaristas por uma suposta diferença de tratamento entre o desfile e a produtora Brasil Paralelo, que em 2022 teve um documentário suspenso pela Justiça Eleitoral a poucos dias do segundo turno. O objetivo aqui é nítido: ganhar tempo com cortinas de fumaça na imprensa, alimentando um falso debate sobre "dois pesos e duas medidas" enquanto o cerco da justiça se fecha.

A Blindagem Sistêmica e a Estratégia do Tempo

Enquanto tentam impugnar adversários, a direita no Congresso articula um pacote de medidas para se blindar. A chamada "PEC da Blindagem" e as tentativas de sucateamento da Lei da Ficha Limpa são a face mais explícita dessa estratégia. Como denunciou o Instituto Não Aceito Corrupção, a PEC propõe a "inadmissível exigência de autorização do Congresso para que integrantes das duas Casas sejam investigados por crimes, como se estivessem acima do bem e do mal".

Há uma fundada suspeita de que essas votações sejam empurradas para momentos de grande comoção midiática, como os julgamentos no STF, justamente para passar despercebidas pela sociedade. É a tática do "boiada": aprovar projetos que criam um "sistema de impunidade para companhias infratoras" e que "relativizam normas voltadas à garantia de integridade do processo eleitoral", como alerta o advogado Modesto Carvalhosa. A alteração da Lei da Ficha Limpa, uma conquista popular com 1,6 milhão de assinaturas, visa justamente abreviar prazos de inelegibilidade, um claro movimento para tentar salvar políticos condenados.

Os Financiadores e a Rede de Apoio

Por trás de toda essa engrenagem, há um ecossistema de financiadores e think tanks. A investigação da PF apontou que a estrutura criminosa na Abin, que contava com policiais federais e oficiais de inteligência, era sustentada para proteger interesses do clã Bolsonaro, como no caso das investigações das "rachadinhas" de Flávio Bolsonaro. No campo paralelo, institutos e empresários alinhados à extrema-direita financiam campanhas de desinformação que miram o STF. Esses mesmos grupos pressionam por projetos de lei, como o PL 2.925/2020, que tenta isentar companhias de responsabilidade por balanços fraudulentos — uma pauta que beneficia grandes corporações e seus acionistas, muitos dos quais são doadores de campanhas bolsonaristas.

Vazamentos Seletivos e o Papel de Setores da PF

A estratégia de desgaste também conta com a colaboração de uma "ala" de servidores públicos e agentes da PF que vazam informações de maneira seletiva para a imprensa, além é claro dos seus colaboradores dentro da própria imprensa. O objetivo: criar factoides que atinjam a credibilidade do governo Lula e do STF, ao mesmo tempo em que blindam investigações que correm em segredo de justiça contra aliados da velha política. É a tática do "denuncismo" como arma de guerra híbrida: desestabilizar as instituições por dentro, usando os próprios instrumentos do Estado e a imprensa.

O que queremos reforçar aqui é que tal tática coloca automaticamente em cheque o papel da imprensa de informar, na medida em que a mesma passe, na realidade, a "propagandear" de forma insistente uma determinada informação — mesmo que tenha sido fruto de "vazamentos ilegais" CRIME contra a Lei de Proteção a Dados — transformando o que deveria ser Jornalismo em Publicidade e com intuito claro e direto de manipulação da opinião pública, dentro de uma ótica do meio de comunicação de massa como "quarto poder" e de seletividade sobre o que é — ou seria — de "real" interesse público (como se o "realismo", "surrealismo" ou mesmo o factual de determinada informação necessitasse de critérios ou de curadoria dentro das redações — papel muitas das vezes desempenhado por editores-chefes).

A Contagem Regressiva

Ao fim, a estratégia da extrema-direita se revela em múltiplas frentes:

  • Espanar a poeira (cortinas de fumaça): Usar ações contra escolas de samba e pautas identitárias para desviar o foco das denúncias criminais contra seus líderes.
  • Ganhar tempo: Protelar no STF com recursos e, no Congresso, aprovar leis que anistiem crimes ou reduzam prazos de inelegibilidade antes que as condenações batam à porta.
  • Atacar o sistema: Continuar a narrativa de que o Judiciário age com perseguição, mirando especialmente ministros como Alexandre de Moraes, que são a linha de frente contra o golpismo.

A pergunta que fica é se as instituições terão fôlego e celeridade para desmontar essa engrenagem antes que o "tempo" comprado pela blindagem legislativa lhes permita retornar ao poder, desta vez pelas urnas ou, novamente, pela força.

(Espero que não se espantem com os próximos capítulos que, de uma certa forma, terão a mesma força do embrião de toda manipulação. Desconfie, portanto, a cada Vem pra rua ecoado daqui pra frente.)

Com informações de Diário de Cuiabá, O Estado de S. Paulo, VEJA, Estadão, Rádio Metrópole, Jornal do Brasil, Tribuna Popular, Instituto Não Aceito Corrupção, G1, CGN ■

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