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Como Cammaroti e Andreia Sadi pautaram risco de ilícito como esperança da oposição
Colunistas políticos transformaram a especulação sobre o desfile da Acadêmicos de Niterói em combustível para o Judiciário, alimentando a narrativa de que uma homenagem cultural pode se tornar o passaporte para a impugnação de Lula
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 15/02/2026

Nas vésperas do desfile da Acadêmicos de Niterói, que levará à Sapucaí o enredo "Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", um fenômeno tipicamente brasileiro tomou conta dos bastidores do poder: a pauta política sendo moldada não pelos fatos consumados, mas pelas especulações da imprensa. Desta vez, os holofotes se voltam para dois nomes que, nos últimos dias, transformaram o que era uma preocupação interna do Judiciário em manchete nacional e, consequentemente, em combustível para a estratégia oposicionista de buscar a impugnação da candidatura do atual presidente. O "risco de ilícito", que passou a ser tratado como esperança concreta por adversários de Lula, ganhou contornos de profecia autorrealizável a partir de informações veiculadas por Andreia Sadi, no G1, e pelas colunas de Cammaroti, no Blog do Magno.

Foi Andreia Sadi quem, em primeira mão, revelou o nervosismo que tomou conta do Palácio do Planalto e de setores do próprio Judiciário. Em sua coluna publicada na quarta-feira (11), a jornalista expôs o que antes era dito apenas em reservado: ministros e assessores do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já enxergam no desfile uma potencial "frente de questionamento" na Justiça Eleitoral, comparando o episódio ao precedente que tornou Jair Bolsonaro inelegível. A informação, ao ser publicizada, deixou de ser uma análise interna para se tornar um roteiro para a oposição. Se integrantes da Corte, como revelou Sadi, temem que o evento seja enquadrado como "uso de estrutura e espaço públicos com finalidade política", a conclusão lógica para partidos como o Novo e Republicanos é que a judicialização não é apenas possível, mas desejável .

O tom de alerta foi amplificado pelas colunas de Cammaroti no Blog do Magno, que repercutiram com estardalhaço a expressão cunhada pela ministra Cármen Lúcia durante o julgamento no TSE. Ao afirmar que a situação poderia se transformar em "areia movediça" para quem se arriscar, a presidente da Corte eleitoral forneceu aos colunistas a metáfora perfeita para alimentar a especulação. Cammaroti, ao detalhar a interpretação do Planalto sobre a decisão do TSE, destacou que, embora o tribunal tenha rejeitado as liminares contra o enredo por impossibilidade de censura prévia, a ministra deixou claro que o mérito da questão não está julgado e que, no futuro, os ministros poderão analisar a conduta dos citados. Essa nuance, amplificada pela imprensa, transformou o que era uma vitória processual do governo em uma espada de Dâmocles .

A cobertura dos colunistas não se limitou a relatar os fatos; ela criou um enredo jurídico paralelo. Ao destacar que "setores do Judiciário" monitoram o tema e que o governo Lula teme um "desgaste eleitoral" em um momento sensível, Andreia Sadi deu à oposição a certeza de que o caminho dos tribunais é viável. A informação de que o TSE será comandado por Kassio Nunes Marques no próximo ciclo eleitoral — ministro indicado por Bolsonaro — adicionou uma camada extra de esperança para aqueles que buscam reverter a inelegibilidade do ex-presidente ou, no mínimo, empatar o jogo contra Lula. A especulação deixou de ser "se" o desfile será judicializado, mas "quando" e com qual profundidade .

A imprensa, nesse contexto, assumiu o papel de fiadora da tese oposicionista. O partido Novo, ao entrar com representação no TSE pedindo multa de R$ 9,65 milhões contra Lula, o PT e a escola de samba, viu seus argumentos ganharem legitimidade a cada nova coluna que mencionava o "risco concreto". A senadora Damares Alves, que acionou o Ministério Público Eleitoral citando trechos do samba como "sem mitos falsos, sem anistia" — uma clara referência à campanha bolsonarista pela anistia dos condenados pelos atos golpistas —, também encontrou nas páginas dos colunistas a repercussão necessária para manter o tema vivo no debate público .

O que a cobertura de Sadi e Cammaroti escancara é a transformação do jornalismo político em um ator do processo eleitoral. Ao dar voz aos "reservados" do Judiciário e ao transformar preocupações pontuais em manchetes de peso, a imprensa não apenas informa, mas também constrói a realidade sobre a qual a Justiça será provocada a decidir. O samba-enredo, que para a ministra Gleisi Hoffmann é uma "festa para brincar e se divertir" , para os colunistas se tornou um intricado quebra-cabeça jurídico cuja peça final — a inelegibilidade — depende apenas de um deslize na avenida.

Ao fim, o que se vê é a consagração da máxima de que, no Brasil, as eleições são decididas nos tribunais tanto quanto nas urnas. E, desta vez, os tribunais estão sendo pautados, dia após dia, pelas especulações de colunistas que transformaram a esperança da oposição em um fato político incontornável. Resta saber se, no domingo de carnaval, a "areia movediça" de Cármen Lúcia engolirá apenas a festa ou se levará junto a candidatura de Lula, em um enredo que a imprensa já escreveu antes mesmo de a escola pisar na Sapucaí.

Com informações de: G1 (Andréia Sadi), Blog do Magno (Cammaroti), CNN Brasil, UOL, InfoMoney ■

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