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A estreia cinematográfica pode ser um ato de vaidade, um negócio ou uma ferramenta de influência. Os casos do filme Nada a Perder, sobre o bispo Edir Macedo, e do documentário Melania, sobre a ex-primeira-dama dos EUA, demonstram como projetos audiovisuais de alto custo, orbitando figuras poderosas e polêmicas, frequentemente transcendem o entretenimento. Eles se tornam extensões de batalhas políticas, instrumentos de revisionismo histórico ou operações financeiras complexas, onde o sucesso na bilheteria é apenas uma das variáveis – e não necessariamente a mais importante.
O lançamento de Nada a Perder em 2018 foi apresentado como um fenômeno popular espetacular. Com 4 milhões de ingressos vendidos apenas na pré-venda, rapidamente se anunciou como a maior bilheteria nacional do ano. No entanto, esse sucesso foi imediatamente envolvido em suspeitas que ecoavam acusações feitas ao filme anterior do mesmo universo, Os Dez Mandamentos: a de que a bilheteria era artificialmente inflada pela compra e distribuição maciça de ingressos pela própria Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) a seus fiéis.
Reportagens de veículos como O Globo e UOL constataram um cenário contraditório: sessões com ingressos esgotados, mas com poltronas vazias. Em 2019, na estreia de Nada a Perder 2, o UOL flagrou obreiros da Universal distribuindo ingressos gratuitamente na porta de um cinema em São Paulo. A estratégia garante a ocupação do circuito exibidor, cria a impressão de sucesso estrondoso e serve como uma poderosa ferramenta de marketing interno e proselitismo. A igreja, por sua vez, nega veementemente a compra centralizada de ingressos, atribuindo as vendas à organização espontânea de grupos de fiéis.
Por trás dessa operação, está um império econômico de magnitude colossal. Investigação do The Intercept revelou que, apenas em doações bancárias entre 2011 e 2015, a IURD movimentou R$ 33 bilhões. Esse rio de dinheiro, majoritariamente originado de fiéis de baixa renda, é a base financeira que sustenta não apenas a obra religiosa, mas um conglomerado que inclui a Rede Record, um banco (Digimais), e uma extensa rede de empresas. Edir Macedo, cujo patrimônio é estimado em bilhões de dólares, já foi alvo de denúncias do Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, acusado de desviar doações para paraísos fiscais e reinvesti-las em negócios pessoais, como a compra de meios de comunicação. Uma dessas ações prescreveu em 2019 após oito anos de tramitação.
O investimento no cinema, portanto, não é mero capricho. É parte de um ecossistema que retroalimenta poder:
Do outro lado do hemisfério, o "documentário" Melania segue uma cartilha diferente, mas com objetivos convergentes: controle da narrativa e lucro. A produção foi adquirida pela Amazon em uma acirrada guerra de lances por US$ 40 milhões, dos quais US$ 28 milhões foram direto para Melania Trump. A plataforma ainda investiu mais US$ 35 milhões em marketing agressivo, com outdoors e anúncios durante eventos esportivos de grande audiência.
Ao contrário do filme brasileiro, que busca um tom épico e popular, a produção sobre Melania é descrita por ela mesma não como um documentário, mas como um "ato deliberado de autoria" – uma obra cuidadosamente curada e controlada. O filme, que acompanha seus últimos 20 dias como primeira-dama, é focado em oferecer uma perspectiva glamorosa e controlada, sem abordar questões políticas controversas.
As críticas ao projeto são fortemente políticas. Jen Psaki, ex-porta-voz de Joe Biden, declarou que o filme seria um fracasso devido à impopularidade do governo Trump. Jornalistas questionaram o conflito de interesse evidente: a Amazon, uma gigante com múltiplos contratos governamentais, fazer um pagamento multimilionário à família do então presidente em exercício. Donald Trump usou suas redes sociais, com mais de 100 milhões de seguidores, para promover o filme, borrando as linhas entre interesse pessoal e uso de plataformas oficiais.
Indicadores iniciais no Reino Unido, como a ampla disponibilidade de ingressos em cinemas de Londres, sugerem que o retorno comercial pode ficar muito aquém do investimento. No entanto, assim como para Macedo, o sucesso de bilheteria pode ser secundário. Para Melania Trump, os objetivos parecem ser:
Ao colocar os dois casos lado a lado, surgem semelhanças estruturais profundas, mas também diferenças marcantes que refletem os contextos políticos e sociais de cada país.
Semelhanças Principais:
Diferenças Fundamentais:
Nada a Perder e Melania são dois episódios emblemáticos de uma mesma era, onde a linha entre produção cultural, operação de negócios e projeto de poder se dissolve. Eles demonstram que, para as elites políticas, religiosas e econômicas, o cinema pode ser uma ferramenta tão eficiente quanto um comício, um sermão ou um contrato bilionário.
A diferença crucial talvez esteja no desfecho: enquanto a bilheteria potencialmente fracassada de Melania Trump representa um mau investimento corporativo e um revés de imagem, o "sucesso" arquitetado de Edir Macedo consolida um modelo de negócios e influência que se alimenta de seu próprio ecossistema, com questionáveis ramificações sobre o uso de recursos de fiéis, a interferência na política e a concentração de mídia. Em ambos os casos, porém, a mensagem final é clara: a história é um produto caro, e quem controla sua produção controla uma das mais valiosas formas de capital – a narrativa sobre si mesmo.
Com informações de: O Globo, Agência Pública, VEJA, Sky News, The Intercept, UOL, Consultor Jurídico, Wikipédia ■