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Duas produções, dois continentes, um mesmo roteiro: o uso do cinema como ferramenta de poder
Uma análise crítica revela os mecanismos por trás desses fenômenos e expõe as diferentes estratégias de consolidação de poder, uma através de uma rede religiosa, midiática e política bilionária, e outra através da máquina política e corporativa de uma superpotência
Editorial
Foto: https://media.gazetadopovo.com.br/2019/08/19162055/edirmacedo-660x372.jpg
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■   Bernardo Cahue, 31/01/2026

A estreia cinematográfica pode ser um ato de vaidade, um negócio ou uma ferramenta de influência. Os casos do filme Nada a Perder, sobre o bispo Edir Macedo, e do documentário Melania, sobre a ex-primeira-dama dos EUA, demonstram como projetos audiovisuais de alto custo, orbitando figuras poderosas e polêmicas, frequentemente transcendem o entretenimento. Eles se tornam extensões de batalhas políticas, instrumentos de revisionismo histórico ou operações financeiras complexas, onde o sucesso na bilheteria é apenas uma das variáveis – e não necessariamente a mais importante.

O Caso Brasileiro: Fé, Finanças e a Máquina de Fazer Bilheteria

O lançamento de Nada a Perder em 2018 foi apresentado como um fenômeno popular espetacular. Com 4 milhões de ingressos vendidos apenas na pré-venda, rapidamente se anunciou como a maior bilheteria nacional do ano. No entanto, esse sucesso foi imediatamente envolvido em suspeitas que ecoavam acusações feitas ao filme anterior do mesmo universo, Os Dez Mandamentos: a de que a bilheteria era artificialmente inflada pela compra e distribuição maciça de ingressos pela própria Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) a seus fiéis.

Reportagens de veículos como O Globo e UOL constataram um cenário contraditório: sessões com ingressos esgotados, mas com poltronas vazias. Em 2019, na estreia de Nada a Perder 2, o UOL flagrou obreiros da Universal distribuindo ingressos gratuitamente na porta de um cinema em São Paulo. A estratégia garante a ocupação do circuito exibidor, cria a impressão de sucesso estrondoso e serve como uma poderosa ferramenta de marketing interno e proselitismo. A igreja, por sua vez, nega veementemente a compra centralizada de ingressos, atribuindo as vendas à organização espontânea de grupos de fiéis.

Por trás dessa operação, está um império econômico de magnitude colossal. Investigação do The Intercept revelou que, apenas em doações bancárias entre 2011 e 2015, a IURD movimentou R$ 33 bilhões. Esse rio de dinheiro, majoritariamente originado de fiéis de baixa renda, é a base financeira que sustenta não apenas a obra religiosa, mas um conglomerado que inclui a Rede Record, um banco (Digimais), e uma extensa rede de empresas. Edir Macedo, cujo patrimônio é estimado em bilhões de dólares, já foi alvo de denúncias do Ministério Público Federal por lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, acusado de desviar doações para paraísos fiscais e reinvesti-las em negócios pessoais, como a compra de meios de comunicação. Uma dessas ações prescreveu em 2019 após oito anos de tramitação.

O investimento no cinema, portanto, não é mero capricho. É parte de um ecossistema que retroalimenta poder:

  • Narrativa e Legado: O filme reconta a vida de Macedo, desde a infância humilde até a fundação da igreja, passando por sua prisão em 1992 por charlatanismo (caso arquivado), moldando sua imagem pública como herói perseverante.
  • Expansão Territorial e Influência: A Universal promoveu o projeto "Cinema Solidário", levando o filme gratuitamente a presídios, comunidades carentes e indígenas, atuando como braço de evangelização e marketing social.
  • Conexões Políticas: O apoio da RioFilmes, empresa pública de cinema, na gestão do ex-prefeito (e sobrinho de Macedo) Marcelo Crivella, levanta questões sobre o uso de recursos públicos para financiar a cinebiografia de um líder religioso com vastos recursos privados.

O Caso Norte-Americano: Glamour, Política e o Preço da Imagem

Do outro lado do hemisfério, o "documentário" Melania segue uma cartilha diferente, mas com objetivos convergentes: controle da narrativa e lucro. A produção foi adquirida pela Amazon em uma acirrada guerra de lances por US$ 40 milhões, dos quais US$ 28 milhões foram direto para Melania Trump. A plataforma ainda investiu mais US$ 35 milhões em marketing agressivo, com outdoors e anúncios durante eventos esportivos de grande audiência.

Ao contrário do filme brasileiro, que busca um tom épico e popular, a produção sobre Melania é descrita por ela mesma não como um documentário, mas como um "ato deliberado de autoria" – uma obra cuidadosamente curada e controlada. O filme, que acompanha seus últimos 20 dias como primeira-dama, é focado em oferecer uma perspectiva glamorosa e controlada, sem abordar questões políticas controversas.

As críticas ao projeto são fortemente políticas. Jen Psaki, ex-porta-voz de Joe Biden, declarou que o filme seria um fracasso devido à impopularidade do governo Trump. Jornalistas questionaram o conflito de interesse evidente: a Amazon, uma gigante com múltiplos contratos governamentais, fazer um pagamento multimilionário à família do então presidente em exercício. Donald Trump usou suas redes sociais, com mais de 100 milhões de seguidores, para promover o filme, borrando as linhas entre interesse pessoal e uso de plataformas oficiais.

Indicadores iniciais no Reino Unido, como a ampla disponibilidade de ingressos em cinemas de Londres, sugerem que o retorno comercial pode ficar muito aquém do investimento. No entanto, assim como para Macedo, o sucesso de bilheteria pode ser secundário. Para Melania Trump, os objetivos parecem ser:

  1. Lucro Financeiro Imediato: Garantir um pagamento monumental (US$ 28 milhões) independente do desempenho nas salas.
  2. Reconstrução da Imagem Pública: Oferecer uma versão elegante e reservada de sua persona, distanciando-se do turbilhão político.
  3. Ativação da Base Política: O filme serve como um símbolo e um conteúdo para engajar simpatizantes no ecossistema midiático trumpista.

Análise Comparativa: Os Paralelos e os Abismos

Ao colocar os dois casos lado a lado, surgem semelhanças estruturais profundas, mas também diferenças marcantes que refletem os contextos políticos e sociais de cada país.

Semelhanças Principais:

  • Narrativa como Autodefesa: Ambos os filmes são obras autorizadas, que buscam controlar rigidamente a história pessoal de seus protagonistas, apresentando versões heroicizadas ou glamourizadas, blindadas contra críticas externas.
  • Confluência de Interesses: Os projetos servem a múltiplas agendas: pessoais (legado, vaidade), políticas (influência, engajamento) e econômicas (lucro direto ou consolidação de impérios midiáticos).
  • Estratégias de Marketing Atípicas: Seja pela distribuição de ingressos via rede religiosa, seja pelo uso de contas oficiais de redes sociais de um presidente em exercício, ambos bypassam os canais tradicionais de promoção cinematográfica.
  • Questões Éticas Centrais: Os dois casos levantam bandeiras vermelhas sobre conflito de interesse, uso de recursos de origem questionável (doações de fiéis) ou de posição pública para benefício privado, e a ética de transformar a trajetória de figuras em poder em produto comercial.

Diferenças Fundamentais:

  • Fonte do Capital e Natureza do Poder: O filme de Macedo é financiado por um império religioso-financeiro construído sobre doações e suspeito de operações ilegais. O de Melania Trump é bancado por uma corporação tecnológica global (Amazon), em uma transação comercial de alto nível, mas com sabor de lobby político.
  • Público-Alvo e Discurso: Nada a Perder adota um tom populista e de superação, visando as massas e utilizando uma rede capillarizada de fiéis. Melania adota uma estética de alto luxo e exclusividade, mirando um nicho de mercado e a consolidação de uma marca pessoal de elite.
  • Transparência e Crítica: Enquanto a imprensa brasileira investigou ativamente as bilheterias do filme de Macedo e seu contexto financeiro, a cobertura internacional sobre o filme de Melania foca mais no escândalo político e no valor da transação, com menos acesso aos detalhes operacionais internos.

O Filme Acabou, o Poder Permanece

Nada a Perder e Melania são dois episódios emblemáticos de uma mesma era, onde a linha entre produção cultural, operação de negócios e projeto de poder se dissolve. Eles demonstram que, para as elites políticas, religiosas e econômicas, o cinema pode ser uma ferramenta tão eficiente quanto um comício, um sermão ou um contrato bilionário.

A diferença crucial talvez esteja no desfecho: enquanto a bilheteria potencialmente fracassada de Melania Trump representa um mau investimento corporativo e um revés de imagem, o "sucesso" arquitetado de Edir Macedo consolida um modelo de negócios e influência que se alimenta de seu próprio ecossistema, com questionáveis ramificações sobre o uso de recursos de fiéis, a interferência na política e a concentração de mídia. Em ambos os casos, porém, a mensagem final é clara: a história é um produto caro, e quem controla sua produção controla uma das mais valiosas formas de capital – a narrativa sobre si mesmo.

Com informações de: O Globo, Agência Pública, VEJA, Sky News, The Intercept, UOL, Consultor Jurídico, Wikipédia ■

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