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Em um episódio recente que reacendeu um antigo debate, a apresentadora da TV Globo, Maria Beltrão, gerou intensa repercussão negativa ao rir e fazer uma piada ao vivo sobre os ataques estadunidenses e o suposto sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro. A reação, vista como frívola diante de uma crise internacional grave, não é um deslize isolado, mas sim um sintoma de uma postura editorial histórica da emissora. Este comportamento ecoa, de maneira perturbadora, o papel ativo que a Globo e parte da mídia comercial desempenharam na tentativa de golpe contra o então presidente Hugo Chávez em 2002, quando celebrou sua queda e silenciou sobre seu retorno legítimo ao poder.
Durante o programa "É de Casa", ao introduzir uma reportagem sobre os ataques, Maria Beltrão disse, rindo: "Sábado superquente. Alan, eu posso dizer que teve chefe de Estado que não dormiu nessa madrugada, né?". A fala foi interpretada como uma banalização de um evento marcado por violência e incerteza, gerando uma onda de críticas nas redes sociais. Para muitos, a postura da jornalista ganhou contornos ainda mais simbólicos ao se considerar sua origem familiar: ela é filha de Hélio Beltrão, ministro do Planejamento durante a ditadura militar e um dos signatários do Ato Institucional Nº 5 (AI-5), instrumento que aprofundou a repressão no Brasil. A associação entre a leveza inadequada ao noticiar uma agressão a um país soberano e uma herança ligada ao autoritarismo não passou despercebida pelo público.
O caso atual com a Venezuela traz à tona um roteiro já conhecido. Em abril de 2002, uma coalizão de mídias comerciais venezuelanas (como RCTV, Venevisión e Globovisión) e a cobertura de veículos internacionais foram peças-chave em uma tentativa de derrubar Hugo Chávez. A estratégia envolvia:
No Brasil, a Rede Globo reproduziu e endossou esse viés. No auge do golpe de 2002, com Chávez já sequestrado e um governo interino de fato instalado, a emissora não escondeu sua simpatia. No Jornal Nacional, o então analista Arnaldo Jabor proferiu um comentário que se tornou símbolo do positivismo golpista da grande mídia.
Jabor declarou: "Eu ia dizer que a América Latina estava se 'rebananizando', com o Hugo Chávez (...) Por isso, acho boa a notícia da queda de Chávez. Acordamos mais fortes hoje e eu já posso 'desbananizar' a América Latina". Sua fala, carregada de um preconceito continental e desprezo pelo processo democrático, celebrava a queda de um presidente eleito como um avanço civilizatório. O Jornal Nacional ainda deu voz ao cientista político Fernando Abrúcio, que na ocasião fez um paralelo entre a queda de Chávez e a situação brasileira, num claro alerta contra a candidatura de Lula à presidência.
O que esses pronunciamentos deixam claro é que, para setores dominantes da mídia, a democracia é um valor relativo, válido apenas quando confirma os interesses políticos e econômicos que representam. A derrubada de um governo por meio de uma manipulação midiática escancarada e de um sequestro foi tratada não como uma ruptura institucional, mas como uma "boa notícia".
Se a queda de Chávez foi noticiada com entusiasmo, o desfecho do episódio foi apagado. Após 47 horas, graças a uma enorme mobilização popular e à lealdade de parte das Forças Armadas, Hugo Chávez foi liberto e restituído à presidência. Este momento fundamental, que representava o fracasso de um golpe e a reconquista da legalidade democrática, não mereceu o mesmo destaque na cobertura da Globo e de suas congêneres venezuelanas. A "única voz" agora era o silêncio. Essa omissão deliberada completava o ciclo do golpismo midiático: criar a crise, fomentar o caos e depois ignorar a solução que não convenha.
A risada de Maria Beltrão sobre a desestabilização da Venezuela e o comentário positivista de Arnaldo Jabor sobre a queda de Chávez são faces da mesma moeda. Ambos revelam um distanciamento ético e uma parcialidade que, no caso de 2002, materializou-se em apoio a um golpe de Estado. O episódio atual mostra que, mesmo que os métodos se adaptem, a antipatia seletiva com governos soberanos e a tendência a tratar crises geopolíticas complexas com superficialidade ou ironia permanecem como marcas registradas de certos setores do jornalismo hegemônico. A história se repete, primeiro como tragédia, depois como farsa – e, às vezes, como uma piada de mau gosto ao vivo.
Com informações de Observatório da Imprensa, Diário do Centro do Mundo, CUT, Facebook (Metrópoles), Threads.
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