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O cenário internacional desta semana foi de reconfiguração profunda. Enquanto multidões tomavam as ruas no Brasil e nações influentes reconheciam o Estado Palestino, os discursos na Assembleia Geral da ONU desenharam um mundo em disputa. De um lado, a defesa intransigente da democracia e das instituições multilaterais; de outro, a política do "America First" levada a um novo patamar por Donald Trump, que agora mira familiares de autoridades estrangeiras com sanções. É um momento de claros recados e fronteiras que se redesenham.
O recado mais contundente partiu das ruas brasileiras. No último domingo, 1,3 milhões de pessoas foram às ruas em 33 cidades, incluindo todas as 27 capitais, para protestar contra a anistia a condenados por tentativa de golpe de Estado e a chamada PEC da Blindagem. Sob o mote "Congresso Inimigo do Povo", os manifestantes exigiram a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e enviaram uma mensagem cristalina: a democracia brasileira não tolera negociatas com o autoritarismo. A magnitude dos atos, com shows de artistas como Chico Buarque e Daniela Mercury, demonstrou a vitalidade da sociedade civil e o seu compromisso com a responsabilização.
Esse compromisso interno ecoou no mais alto fórum global. Ao abrir os discursos da Assembleia Geral da ONU – tradição reservada ao Brasil –, o presidente Lula defendeu que a condenação de Bolsonaro por tentativa de golpe foi um processo "muito meticuloso" que enviou uma mensagem clara: "nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis". A fala foi uma resposta direta às pressões de Donald Trump, que impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e qualificou o julgamento como "caça às bruxas". Lula posicionou o Brasil como um bastião contra as "forças antidemocráticas que tentam subjugar as instituições", definindo a soberania nacional como inegociável.
Nesse panorama, uma movimentação diplomática de peso alterou a equação no conflito israelense-palestino. O reconhecimento do Estado da Palestino por potências como França, Reino Unido, Canadá, Austrália e Portugal representa uma guinada histórica e um contraponto claro ao unilateralismo. Esta ação coordenada isola ainda mais os Estados Unidos, que agora são o único membro permanente do Conselho de Segurança da ONU a não reconhecer a Palestina. Lula, em seu discurso, foi enfático ao chamar a situação em Gaza de "genocídio", afirmando que "absolutamente nada" a justifica e que a fome está sendo usada como "arma de guerra".
Enquanto essa coalizão se forma, a resposta de Trump atinge níveis inéditos de confronto. A imposição de sanções pela Lei Magnitsky à esposa do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, marca uma escalada perigosa. A medida, que inclui o congelamento de bens e a proibição de transações com norte-americanos, foi justificada como retaliação pela condução do processo contra Bolsonaro. A imprensa internacional rapidamente apontou o caráter incomum de tal ação contra um aliado democrático, com o Washington Post destacando que "sanções do governo dos EUA geralmente têm como alvo altos funcionários de Estados inimigos, como Coreia do Norte ou Irã".
O discurso de Trump na ONU confirmou seu isolamento crescente. Errático e repleto de autoelogios, o presidente estadunidense atacou o multilateralismo, negou o aquecimento global e fez alertas contra a imigração na Europa. Paradoxalmente, após esse discurso de confronto, descreveu um breve encontro com Lula como tendo "química excelente", afirmando que ambos concordaram em se reunir na próxima semana. Essa contradição entre a retórica agressiva e a súbita busca por proximidade é a síntese de uma política externa volátil que confunde aliados e adversários.
É forçosa, no entanto, a tentativa de setores da mídia brasileira em transformar esse breve cumprimento num "possível embate" que dominaria a Assembleia Geral. A cobertura que aparta outros temas de peso – como o reconhecimento da Palestina, a defesa intransigente da democracia e as sanções sem precedentes – para focar num suposto drama pessoal entre Lula e Trump é um desserviço à compreensão deste momento crucial. As questões em jogo são muito maiores do que uma suposta rivalidade. Trata-se da definição de qual ordem internacional prevalecerá: uma baseada no diálogo e no respeito à soberania dos povos, ou uma ditada pela lei do mais forte e pela coerção econômica. O Brasil, com suas ruas cheias e sua diplomacia firme, já escolheu seu lado.
Com informações de: Agência Brasil, BBC, Brasil de Fato, CNN, G1, La Jornada, The Conversation, U.S. Department of State. ■