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Globo inicia realinhamento editorial com cortes seletivos e viés crítico ao governo Lula
Demissões de jornalistas críticos à direita e manutenção de vozes alinhadas ao bolsonarismo revelam estratégia para influenciar cenário eleitoral
Editorial
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■   Bernardo Cahue, 13/08/2025

Em consonância com o chamado timing eleitoral a 14 meses das eleições presidenciais, as Organizações Globo iniciaram um processo de reestruturação em seu braço jornalístico, especialmente na GloboNews, que vai além de uma simples renovação de quadros. As demissões das jornalistas Daniela Lima e Eliane Cantanhêde, anunciadas em agosto de 2025, ocorrem em um contexto de preparação para o pleito de 2026 e refletem uma guinada conservadora no conglomerado midiático.

Internamente, a direção da Globo justificou as mudanças como parte de um "movimento permanente de renovação" e busca de maior "equilíbrio editorial". Entretanto, documentos e pesquisas encomendadas pela própria emissora revelam motivações mais profundas: uma pesquisa do instituto Quaest encomendada pela cúpula da GloboNews mostrou que o canal era percebido pelo público como um "canal de esquerda", alinhado à narrativa de partidos como PT e PSOL.

  • Correção de rumos ou viés seletivo? A pesquisa apontou críticas específicas: espectadores rejeitavam o tom de "gracinhas" e as "brigas ao vivo", interpretados como sintomas de parcialidade progressista. A solução foi demitir apresentadoras que personificavam essa leitura – especialmente Daniela Lima, identificada como figura progressista com posicionamentos críticos a ministros conservadores do STF em redes sociais.
  • Dupla narrativa sobre as demissões: Enquanto Daniela Lima foi explicitamente demitida, o caso de Eliane Cantanhêde foi tratado como pedido de demissão. A veterana jornalista alegou cansaço e excesso de trabalho, mas sua saída coincide com o novo projeto editorial. Cantanhêde mantinha acesso privilegiado à cúpula militar, um canal que a GloboNews perdeu com sua saída.

A estratégia de realinhamento inclui novas diretrizes operacionais:

  1. Proibição de que jornalistas usem opiniões de autoridades para "transmitir recados indiretos", prática que causava "desconforto na alta cúpula"
  2. Reforço no rigor da apuração prévia para evitar "práticas que comprometam a credibilidade"
  3. Criação do GloboNews Debate com Julia Duailibi para "ampliar a pluralidade de vozes" – na prática, incluindo mais perspectivas conservadoras

Padrão duplo nas críticas ao governo: Enquanto demite jornalistas percebidas como oposicionistas à direita, a Globo mantém em seu quadro profissionais com alinhamento explícito ao bolsonarismo. Andreia Sadi, por exemplo, segue como repórter especial mesmo após apurações que revelavam suas conexões com integrantes do bolsonarismo. Em uma reportagem, citou fontes bolsonaristas esperando "medidas envolvendo integrantes do governo Lula" como "sinalização de que o governo não está imune" a sanções internacionais.

Este viés seletivo ecoa posturas recentes do Jornal Nacional. Durante a crise do IOF em julho de 2025, o telejornal defendeu o Congresso contra o que chamou de "ataques", posicionando-se contra a campanha do PT que viralizou nas redes com a hashtag #CongressoInimigodoPovo. A edição foi considerada "cínica e patética" por comentaristas, que apontaram sua defesa "sutil porém inequívoca" do Centrão.

O movimento ocorre paralelamente a mudanças no cenário político brasileiro. As eleições municipais de 2024 consolidaram um Congresso mais fragmentado e conservador, com o menor número de partidos eleitos em 16 anos (apenas 25). Neste contexto, o realinhamento da Globo busca:

  • Preparar o terreno para 2026 enfraquecendo narrativas favoráveis ao governo Lula
  • Recuperar audiência em setores conservadores descontentes com a cobertura anterior
  • Posicionar-se como "mediadora" em um cenário polarizado, ainda que com clara inclinação oposicionista

Carlos Henrique Schroder, ex-diretor geral da TV Globo e atual membro do Conselho de Administração do Grupo, aparece como principal articulador desta reestruturação. Sua experiência em grandes coberturas e criação da própria GloboNews credencia-o para liderar o ajuste rumo ao que definem como "imparcialidade" – conceito que, na prática, tem significado suprimir vozes progressistas e amplificar críticas ao governo.

Ao adotar este modelo, as Organizações Globo reeditam um histórico de alinhamento com projetos de poder conservadores. Se nos anos 1980 apoiaram Collor e em 2014 promoveram Aécio Neves, agora preparam o terreno para 2026 enfraquecendo o governo atual sem apresentar explicitamente (ainda) um candidato próprio – estratégia arriscada num cenário onde o bolsonarismo ainda ameaça seus interesses, porém já tangenciada em favor de Tarcísio de Freitas.

Com informações de: CartaCapital, Folha UOL, G1, Terra, UOL, Veja

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