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Tarifaço disseca financiadores da direita e da Ditadura Militar
O sangue histórico do café e do gado e o fantasma das fábricas influenciam na revanche contra setores que financiaram a ditadura militar, e agora sangram com as tarifas de Trump; a história expõe o paradoxo de quem apoiou a intervenção e hoje clama por soberania
Editorial
Foto: https://i.imgur.com/WvA220b.jpg
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■   Bernardo Cahue, 11/07/2025
Os frigoríficos, as siderúrgicas, as gigantes do café e do suco de laranja – hoje em pânico com os 50% de tarifa de Trump – são herdeiros de uma elite que, seis décadas atrás, bancou tanques, fuzis e porões. Quando o presidente americano ataca o Brasil em nome de "defender Bolsonaro da perseguição política", atira no coração de setores que, nos anos 1960, pagaram para que a democracia brasileira fosse estrangulada. A ironia é cruel: quem financiou a intervenção armada agora chora interferência estrangeira.

O financiamento do passado sangra no presente
A Fiesp, hoje crítica da guerra comercial, foi uma das entidades que, em março de 1964, assinou o "Manifesto da Indústria Paulista" pedindo explicitamente a derrubada de João Goulart. Seus caminhões transportaram operários para as "Marchas da Família com Deus pela Liberdade". Empresas como Volkswagen, Ford e Mercedes-Benz – hoje com cadeias produtivas ameaçadas pelas tarifas – mantinham departamentos de inteligência que delatavam sindicalistas à polícia política. Dossiês com nomes, endereços e fotos de "subversivos" saíam das fábricas do ABC paulista direto para os quartéis. Ao menos 35 trabalhadores da Volkswagen foram presos com base nessas delações; alguns nunca voltaram.

O agronegócio, hoje temendo inviabilizar US$ 1,4 bilhão em exportações de carne bovina aos EUA, foi um pilar da aliança golpista que hoje teima em patrocinar um disfarce via imprensa para "esconder o nome de seus bois". A Ubá, maior exportadora de café do Brasil (hoje exposta à tarifa de 50%), surgiu em plena ditadura com capital de empresários mineiros ligados ao IPES – o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais que funcionou como caixa preta do golpe. O IPES recebeu US$ 7 milhões anuais de corporações norte-americanas para financiar propaganda anticomunista e campanhas de desestabilização. Seus membros ocuparam ministérios após 1964, implantando políticas que beneficiaram exportadores de commodities.

A conta chega para quem armou o jogo
Aço, alumínio e turbinas de aviação – setores já sob tarifas de 50% desde abril – têm DNA ditatorial. A Embraer, cujas ações despencaram 8,4% após o anúncio de Trump, nasceu como estatal em 1969 sob o Ministério da Aeronáutica. Seus primeiros contratos vieram do regime militar. A Gerdau e a CSN, hoje expostas à asfixia comercial, foram favorecidas por obras faraônicas como a Ponte Rio-Niterói (35 operários mortos) e a Hidrelétrica de Tucuruí (197 mortos), onde a "eficiência" da ditadura ignorou direitos básicos. O salário mínimo perdeu 41% do poder de compra entre 1964 e 1974, enquanto essas empresas lucravam com incentivos fiscais.

Quando Trump justifica as tarifas como resposta ao "tratamento injusto a Bolsonaro", ecoa a mesma lógica dos empresários que, em 1964, acusaram Jango de "quebrar a hierarquia militar". O apoio ao golpe não foi por ideologia, mas por projeto econômico: abrir o país ao capital estrangeiro, quebrar sindicatos e congelar salários. Agora, esses mesmos setores descobrem que a "abertura econômica" tem um preço: quando os EUA decidem punir, o castigo é assimétrico. O Brasil é o 2º maior parceiro comercial dos EUA, mas os americanos são apenas o 15º do Brasil – e a balança sempre pendeu a favor de Washington.

O passado não perdoa, o presente não absolve
A CitrusBR, que prevê o colapso das exportações de suco de laranja, representa empresas cujos donos financiaram a UDN – partido que articulou o impeachment de Jango no Congresso. O setor cafeeiro, desesperado com a possível perda de 33% do mercado americano, é liderado por famílias que apoiaram o AI-5. Hoje, esses grupos assinam notas pedindo "diálogo e moderação" a Trump, esquecendo que, nos anos 1960, patrocinaram a radicalização que levou ao fechamento do Congresso.

A história cobra seu tributo. Os frigoríficos que temem perder competitividade nos EUA são os mesmos que lucraram com a repressão aos sindicatos rurais durante a ditadura. O café que pode encarecer 72% no mercado americano foi plantado em terras griladas sob o amparo do Estatuto da Terra – lei de 1964 usada para expulsar camponeses. O veneno da intervenção política, uma vez injetado no corpo da democracia, contamina gerações.

Quando as cargas de carne e café forem barradas em agosto, o grito de "soberania" virá de quem a vendeu por tanques em 1964. A arma de Trump, afinal, foi forjada na mesma oficina que as delações da Volkswagen: o interesse disfarçado de princípio.

Com informações de O Globo, Folha, El País, Deutsche Welle, EBC e UFMG.■

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