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À medida que os acordos de cessar-fogo avançam de forma frágil na Faixa de Gaza, uma nova dinâmica política começa a ganhar forma entre os palestinos. Dados de pesquisas recentes indicam um apoio crescente a uma alternativa de governo que não passe nem pelo Hamas nem pela Autoridade Nacional Palestina (ANP) tradicional, ao mesmo tempo que cresce o ceticismo em relação ao papel dos Estados Unidos como mediador imparcial, especialmente sob a liderança de Donald Trump.
De acordo com um levantamento do Palestinian Center for Policy and Survey Research, realizado entre março de 2023 e outubro de 2025, a opinião pública passou por uma transformação significativa. Se após os ataques de 7 de outubro de 2023 o apoio ao Hamas superou a marca de 50%, o custo humano da guerra — com mais de 67 mil mortos e a destruição de 90% das residências — fez com que esse número caísse para 41% no outono de 2025. A pesquisa aponta que os palestinos estão mais inclinados a aceitar uma solução negociada para o conflito do que no início da guerra.
Este cenário de cansaço e devastação abriu caminho para um entendimento político inédito. No final de outubro de 2025, facções palestinas, incluindo o Hamas e o Fatah, chegaram a um consenso no Cairo para estabelecer uma comissão independente formada por tecnocratas para administrar a Faixa de Gaza. A medida, que está alinhada ao plano de paz de 20 pontos apresentado pela Casa Branca, prevê que a comissão seja "apolítica" e supervisionada por um órgão internacional, focando na reconstrução e na administração básica do território. Uma pesquisa do Tony Blair Institute for Global Change corrobora essa tendência, mostrando que apenas 4% dos gazenses desejam que o Hamas continue sendo o único poder no enclave.
Paralelamente ao rearranjo político interno, a desconfiança em relação aos mediadores externos se aprofunda. Para muitos palestinos, a postura do presidente Donald Trump é vista como tendenciosa em favor de Israel. Apesar de Trump ter pressionado o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu a aceitar o cessar-fogo e ter alertado que Israel está "perdendo a guerra de relações públicas", suas ações passadas — como o reconhecimento de Jerusalém como capital e a legalização dos assentamentos — pesam contra ele.
Em declarações recentes, Trump chegou a afirmar que o lobby israelense já não tem mais "controle total" sobre o Congresso americano como tinha há 15 anos, sugerindo uma mudança no cenário político dos EUA. Analistas apontam que, embora Trump tenha usado seu capital político com Israel para forçar uma trégua, seu plano é visto no mundo árabe como uma "engenharia de estabilidade" pragmática, mas que carece de lirismo e ignora questões fundamentais de justiça histórica, como a criação de um Estado palestino de fato. O secretário de Estado Marco Rubio reforçou que "não existe Plano B" a não ser o acordo atual, o que aumenta a apreensão palestina de que estão sendo forçados a aceitar uma solução imposta.
A divergência de percepções entre a Cisjordânia e Gaza também é um fator crítico. Enquanto os gazenses, sob o peso da destruição, mostram-se mais abertos a arranjos transitórios que tragam reconstrução, na Cisjordânia a população continua mais endurecida e preocupada com a violência dos colonos e as incursões militares diárias. Apenas uma solução que atenda às necessidades de ambas as populações poderá consolidar o apoio popular a um novo governo.
Diante dos fatos, a frase que ecoa nos círculos diplomáticos é que a paz no Médio Oriente raramente nasce da virtude, mas da fadiga. Resta saber se a exaustão será suficiente para sustentar o frágil acordo e dar lugar a um governo que atenda às aspirações palestinas por dignidade e autodeterminação.
Com informações de Instituto Humanitas Unisinos - IHU, Diário de Notícias, Foreign Affairs, Sada News Agency, Israel Hayom, O Globo, BBC News Brasil, The Times of Israel, The Jerusalem Post ■