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A investigação que já resultou em medidas cautelares contra servidores da Receita Federal por acesso indevido a dados sigilosos de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ganhou um novo e explosivo capítulo. O auditor fiscal Ricardo Manzano de Moraes, que teve o passaporte apreendido e passou a usar tornozeleira eletrônica, apresentou uma justificativa à Corregedoria que reacendeu as suspeitas sobre uma estrutura de espionagem política dentro do órgão durante o governo anterior, conectando o caso à chamada "Abin Paralela".
De acordo com fontes da investigação, Manzano afirmou que acessou os dados de Maria Carolina Feitosa, nora do ministro Gilmar Mendes, porque estava em busca do contato telefônico de um amigo, Ricardo Pereira Feitosa, imaginando que houvesse um parentesco entre eles. A justificativa, no entanto, foi recebida com ceticismo pelos investigadores, uma vez que não existe qualquer relação familiar entre as duas pessoas e o objetivo poderia ser alcançado por meios mais simples, como uma busca na internet ou redes sociais.
A menção ao nome, porém, é o que acendeu o alerta na Polícia Federal. Ricardo Pereira Feitosa não é um desconhecido das autoridades. Ele foi coordenador-geral de Pesquisa e Investigação da Receita Federal — o setor de inteligência do Fisco — durante parte do governo Jair Bolsonaro. Sua trajetória no cargo é alvo de graves acusações que o ligam diretamente ao esquema investigado.
Investigações da PF detalhadas em relatório encaminhado ao STF apontam que Feitosa utilizou sua posição estratégica para acessar, sem motivação oficial, informações fiscais de ao menos quatro pessoas consideradas desafetos da família Bolsonaro. Entre os alvos estava o procurador José Eduardo Gussem, responsável por denúncias que levaram à investigação do esquema de "rachadinha" no gabinete de Flávio Bolsonaro (PL). O caso de Feitosa foi tão grave que resultou em sua demissão do serviço público em outubro de 2023, por meio de uma portaria assinada pelo ministro da Fazenda, Fernando Haddad, que citou o uso do cargo "para lograr proveito pessoal ou de outrem, em detrimento da dignidade da função pública".
A Conexão com a Abin Paralela e o First Mile
O nome de Ricardo Feitosa não apenas figura no relatório final da investigação sobre a Receita, mas também está presente no inquérito que apura a existência de uma "Abin Paralela". O documento da PF, que trata da compra e uso da ferramenta de espionagem First Mile pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin), dedica uma seção inteira à interferência política do governo Bolsonaro na Receita Federal. O processo administrativo que culminou na demissão de Feitosa é mencionado como motivo de preocupação para os agentes envolvidos no esquema ilegal de monitoramento, evidenciando a tentativa de blindagem de aliados políticos por meio do uso da máquina pública.
O relatório da PF também destaca a atuação do ex-diretor da Abin, Alexandre Ramagem, atualmente foragido nos Estados Unidos, como peça-chave na articulação para proteger o entorno de Flávio Bolsonaro. Essa estrutura teria atuado para influenciar nomeações estratégicas, como a da Corregedoria da Receita, visando colocar pessoas de confiança que pudessem frear investigações internas.
Outro nome no centro da trama
As conexões, no entanto, não param em Feitosa. A investigação também mira Kleber Cabral, atual presidente da Unafisco (Associação Nacional dos Fiscais da Receita Federal).
Os investigadores agora buscam esclarecer se a relação profissional entre Manzano e Feitosa, que trabalharam juntos em Cuiabá, foi além da amizade e se configurou uma atuação coordenada para acessar e vazar dados sigilosos de autoridades. A defesa de Ricardo Feitosa nega qualquer envolvimento de seu cliente com os fatos investigados.
Com informações de ICL Notícias, Revista Fórum, Folha de S.Paulo, Jornal GGN, Cubo Jornalismo ■