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O governo do presidente ultraliberal Javier Milei adotou uma postura inédita e controversa ao determinar "medidas de segurança" específicas para a imprensa que cobrirá os protestos contra a reforma trabalhista nesta semana em Buenos Aires. Em um comunicado divulgado nesta terça-feira (17), o Ministério da Segurança não apenas delimitou uma área restrita para os profissionais de comunicação, como também os advertiu explicitamente sobre os perigos de circular próximo a manifestações, gerando imediata reação da Associação de Corresponsais Estrangeiros na República Argentina (ACERA).
A decisão do governo ocorre em um ambiente de extrema tensão social, às vésperas do debate e votação da reforma trabalhista na Câmara dos Deputados, marcado para esta quinta-feira (19). A medida é vista como um agravamento da estratégia de segurança dura adotada pela gestão Milei, que já implementou o "protocolo antipiquetes" e, recentemente, denunciou por "terrorismo" manifestantes envolvidos em confrontos anteriores.
A determinação do governo e a zona exclusiva
De acordo com o comunicado oficial do Ministério da Segurança, chefiado por Alejandra Monteoliva, foram estabelecidas regras rígidas para o trabalho jornalístico nos arredores do Congresso Nacional durante os dias de protesto. Os principais pontos da determinação são:
Esta é a primeira vez, desde os protestos massivos contra as reformas de Milei, que o governo emite uma orientação tão direcionada e restritiva à atividade da imprensa.
Reação da imprensa e acusações de intimidação
A Associação de Corresponsais Estrangeiros (ACERA), que reúne mais de 90 profissionais de veículos internacionais na Argentina, emitiu um comunicado expressando "profunda preocupação" com as novas regras. A entidade, com mais de 40 anos de história, argumenta que o governo está tentando "deslindar ao Estado de seu rol constitucional como garante da segurança dos jornalistas".
Para a ACERA, a medida ultrapassa o caráter de recomendação e configura um obstáculo direto ao trabalho da imprensa. A assinação destaca que:
A ACERA instou o Ministério da Segurança a reconsiderar as disposições e alinhá-las aos padrões constitucionais e internacionais de liberdade de expressão.
Contexto de alta tensão e denúncias de terrorismo
O anúncio das medidas para a imprensa acontece exatamente uma semana após os violentos confrontos registrados durante a votação da reforma no Senado, em 11 de fevereiro. Na ocasião, um grupo de manifestantes entrou em conflito com a polícia, que respondeu com gás lacrimogêneo, balas de borracha e jatos d'água, resultando em dezenas de feridos e pelo menos 71 detidos.
Na sequência, o governo de Milei endureceu ainda mais o discurso e apresentou à Justiça Federal uma denúncia por terrorismo contra os envolvidos nos distúrbios. A acusação enquadra os atos na Lei Antiterrorista, que prevê penas mais severas e sem possibilidade de fiança, sob a alegação de que os manifestantes tinham a "finalidade de gerar um cenário de terror na cidadania". O chefe de Gabinete, Manuel Adorni, justificou a medida nas redes sociais: "Atacar o Congresso da Nação e agredir as forças de segurança é um delito grave contra a ordem constitucional".
Paralelamente, a ministra Monteoliva anunciou que o governo estuda endurecer o "protocolo antipiquetes", com medidas como a revista de bolsas e até a proibição do uso de bandeiras, que poderiam ser usadas como "flechas" para atacar a polícia.
A reforma e a resistência sindical
A raiz do conflito é o projeto de "modernização laboral" de Milei, que propõe mudanças radicais na legislação trabalhista argentina. Os principais pontos do projeto, rejeitados pelos sindicatos da CGT (Confederação Geral do Trabalho) e ATE (Associação de Trabalhadores do Estado), incluem:
Para esta quinta-feira, a CGT convocou uma greve geral de 24 horas sem mobilização centralizada, mas a ATE e outras agrupações de esquerda já confirmaram que irão às ruas. O secretário-geral da ATE, Rodolfo Aguiar, repudiou as medidas do governo e responsabilizou Milei por qualquer ato de violência que venha a ocorrer: "Esta gente é perigosa e está decidida a tudo com tal de aprovar a lei que lhe pediram as grandes empresas e o FMI".
Com informações de EFE, AFP, UOL, Buenos Aires Times, Yahoo! Noticias, El País Uruguai, Estadão ■