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O Congresso do Peru elegeu na madrugada desta quinta-feira (19) o novo presidente interino da República. Após a destituição de José Jerí, que ocupou o cargo por apenas quatro meses, os parlamentares escolheram José María Balcázar Zelada, do partido de esquerda Peru Libre, para comandar o Executivo em um mandato-tampão. A eleição ocorreu em meio a uma grave crise institucional que faz do país andino um campeão de rotatividade no poder: este é o oitavo presidente em oito anos.
Ao todo, quatro candidatos disputaram a eleição no plenário do Congresso. Na primeira rodada, nenhum deles alcançou a maioria absoluta necessária, forçando uma segunda votação entre os dois mais votados. No segundo turno, Balcázar venceu a candidata Maricarmen Alva Prieto, do partido Ação Popular, com uma votação de 64 a 46 ou 60 a 46, conforme diferentes apurações da imprensa local.
Constitucionalmente, o então presidente do Congresso, Fernando Rospigliosi, era o imediato na linha sucessória após a queda de Jerí. No entanto, Rospigliosi recusou-se a assumir a Presidência da República. Com isso, os congressistas precisaram eleger um novo chefe do Legislativo, que, por sucessão automática, acumula o comando interino do país. "Quero garantir ao povo do Peru uma transição democrática eleitoral pacífica e transparente", declarou Balcázar em seu primeiro discurso após receber a faixa presidencial.
O novo mandatário terá a missão de conduzir o país até as eleições gerais marcadas para 12 de abril, quando os peruanos escolherão novo presidente e novo Congresso. A posse do vencedor está prevista para 28 de julho. A lei peruana impede que Balcázar, por ser presidente interino, seja candidato no pleito.
Com 83 anos, Balcázar é a pessoa de maior idade a assumir a Presidência na história do Peru. Natural de Nanchoc, na região de Cajamarca, é formado em Direito pela Universidade Nacional de Trujillo e possui doutorado em Direito e Ciências Políticas. Antes de ingressar na política, construiu carreira como magistrado: foi juiz da Corte Superior de Lambayeque e atuou como vocal supremo (ministro) da Corte Suprema, embora não tenha sido ratificado no cargo pelo Conselho Nacional de Magistratura.
Foi eleito congressista em 2021 pelo partido Peru Libre, a mesma legenda do ex-presidente Pedro Castillo, atualmente preso. Durante o governo Castillo, Balcázar destacou-se como um de seus defensores mais veementes no Parlamento. Sua trajetória, no entanto, é marcada por controvérsias:
Apesar das críticas, Balcázar defendeu sua trajetória, atribuindo os questionamentos a "invejas e questões gremiais". Em seu discurso de posse, pregou unidade: "Não é tempo de brigar, não há direitas nem esquerdas. Precisamos construir uma ponte para solucionar o país".
A eleição de Balcázar foi precipitada pela destituição de José Jerí na terça-feira (17). O Congresso aprovou uma moção de censura contra Jerí por 75 votos a favor, 24 contra e 3 abstenções. Diferentemente do impeachment, que exige 87 votos, a censura ao presidente do Congresso (cargo que Jerí ocupava) é aprovada por maioria simples e acarreta a perda automática da Presidência da República.
O estopim da crise foi o escândalo apelidado de "Chifagate" — referência ao termo local para restaurantes chineses. Em janeiro, Jerí foi flagrado por câmeras chegando encapuzado a um restaurante em Lima para um encontro noturno com o empresário chinês Zhihua Yang, dono de lojas e concessionário de um projeto de energia. A reunião não constava da agenda oficial do presidente. Somaram-se às denúncias acusações de tráfico de influência e de que mulheres que visitaram Jerí no Palácio foram posteriormente contratadas pelo Estado.
Jerí era o terceiro presidente consecutivo a ser removido do cargo. Antes dele, Dina Boluarte foi destituída em outubro de 2025 em meio a escândalos de corrupção e à insatisfação popular com a segurança, e Pedro Castillo sofreu impeachment em dezembro de 2022 após tentar dissolver o Congresso.
Desde 2016, nenhum presidente peruano conseguiu completar o mandato de cinco anos. A seguir, a lista dos oito chefes de Estado que o país teve neste período:
O novo presidente assume com o desafio de garantir a estabilidade mínima para a realização do pleito. As pesquisas mais recentes indicam alto índice de rejeição à classe política e fragmentação do eleitorado: o candidato líder nas intenções de voto, o conservador Rafael López Aliaga, aparece com apenas 12% das preferências. A primeira volta está marcada para 12 de abril e, diante dos antecedentes, analistas não descartam novas reviravoltas antes da posse do próximo governo.
Com informações de G1, BBC News Mundo, CNN Español, CNN Brasil, GaúchaZH, La Jornada, UOL, Infobae, Bahia Notícias ■