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Radicalização no prato que comeu: quando a intolerância política rasga o contrato familiar
Brasil registra rupturas domésticas e feminicídio político, mas ainda não contabiliza homicídios intrafamiliares motivados por divergência partidária; especialistas alertam que o cenário é de alerta máximo
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Foto: https://media.gazetadopovo.com.br/sites/2/2022/03/24105522/desgaste-familia-960x540.jpg
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■   Bernardo Cahue, 11/02/2026

O assassinato de Sarah Jenkins pelo próprio pai, no Texas, horas após uma discussão sobre Donald Trump, escancara uma ferida que também atravessa o tecido social brasileiro. No entanto, diferentemente dos Estados Unidos, o Brasil ainda não contabiliza, na esfera pública, um caso consumado de homicídio dentro de casa cuja causa única e direta tenha sido a divergência político-partidária. A ausência desse dado, contudo, não é sinônimo de saúde democrática. Pelo contrário: os resultados das buscas indicam que o extremismo já instalou o cárcere privado de afetos, expulsões e silêncios punitivos nos lares brasileiros, ao passo que, na esfera pública, o país assiste ao avanço de um fenômeno correlato e igualmente letal — o feminicídio político.

Uma investigação conduzida pelos pesquisadores Malu A. C. Gatto, João Gabriel R. P. Leal e Débora Thomé, publicada em 2025, revelou que apenas 3,5% dos conflitos familiares por motivos eleitorais no Brasil produziram rupturas efetivas — como afastamento total ou rompimento de vínculos . O dado, à primeira vista, parece acalentador, mas os pesquisadores alertam para a heterogeneidade do dano: pessoas lésbicas, gays e bissexuais tiveram probabilidade significativamente maior de sofrer o rompimento, representando cerca de um terço dos casos relatados. A divergência política, nesses núcleos, funciona como catalisadora de rejeições que já estavam latentes.


Conflitos silenciosos e expulsões sumárias

A Folha de S.Paulo documentou, no pós-segundo turno de 2022, relatos que vão muito além do desacordo respeitoso . Uma internauta narrou que a mãe enviou áudio afirmando que a filha "não tem caráter por ter votado em Lula". Outro caso menciona um sogro que parou de falar com o próprio filho porque o rapaz votou em Bolsonaro. A administradora pública Paola Belchior, 38, viu a mãe — outrora participativa no grupo de família — desaparecer em um "silêncio adoecido" após a vitória do candidato petista.

O psicanalista Fábio Roberto Rodrigues Belo, da UFMG, relatou à reportagem um aumento exponencial na procura por terapia especificamente para lidar com "lutos antecipados": pessoas que perderam pais, irmãos ou filhos não para a morte, mas para a radicalidade ideológica . "As pessoas estão perdendo muito mais do que uma companhia de esquerda. Elas estão perdendo filhos e filhas", sentencia. Não há, até o momento, notificação de que tais rupturas tenham evoluído para feminicídio ou homicídio consumado — mas o cenário reúne todos os fatores de risco previstos na literatura de prevenção à violência doméstica.


O feminicídio político: quando o ódio ideológico encontra a bala

Se dentro de casa o Brasil ainda não atingiu o extremo do Texas, na esfera pública o país coleciona corpos de mulheres abatidas exatamente pela sua atuação política. A deputada estadual Renata Souza (PSOL-RJ), em sua pesquisa de pós-doutorado, conceituou o termo "feminicídio político" para classificar a execução de mulheres cujo crime foi ocupar espaços de poder e desafiar estruturas .

Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018, é o epítome dessa categoria. Mulher, negra, favelada, bissexual, a vereadora ousou denunciar milícias e a violência policial. Sua morte, conforme a análise de Renata Souza, "demonstra o quanto somos malquistas nesses espaços, espaços que, historicamente, foram negados para nós" . Ao lado de Marielle, a missionária Dorothy Stang e a juíza Patrícia Acioly integram o martirológio de mulheres abatidas por pistoleiros — mas também por um sistema que as enxerga como corpos matáveis .

A violência política no Brasil não é residual. O Observatório da Violência Política e Eleitoral da Unirio documentou 212 episódios apenas entre julho e setembro de 2022, um crescimento de 110% em relação ao trimestre anterior . Desses, 18 foram homicídios. O levantamento da Terra de Direitos e Justiça Global, por sua vez, apontou que 2024 foi o ano mais violento da série histórica, com 558 casos — 75% deles concentrados no período eleitoral .


Estudos de caso brasileiros: a violência doméstica encontra a política?

A pergunta que o caso do Texas impõe ao Brasil é direta: existe, na base de dados da segurança pública ou na cobertura jornalística, alguma ocorrência de um pai ou mãe que tenha assassinado o próprio filho, ou vice-versa, tendo como móvel exclusivo a briga político-partidária? A resposta, com base nos resultados disponíveis, é negativa. Não há registro público, até fevereiro de 2026, de um homicídio intrafamiliar brasileiro motivado unicamente por eleição, candidato ou ideologia partidária. O que há, e em profusão, são rupturas, agressões verbais e expulsões de casa .

No entanto, pesquisadores e operadores do Direito ouvidos nas reportagens evitam qualquer tom de alívio. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, em entrevista de janeiro de 2026, conectou explicitamente o retrocesso conservador e a naturalização da violência ao aumento de feminicídios no país, que ultrapassaram a marca de 1.350 casos em 2025 — quatro por dia . Embora esses assassinatos não sejam, em sua maioria, motivados por discussão eleitoral, muitos ocorrem em lares onde o agressor consome e reproduz discursos de ódio, armamentismo e desqualificação da mulher. Há uma linha tênue, ainda não mapeada estatisticamente, entre o radicalismo de boteco e a agressão física.

O estudo acadêmico sobre violência doméstica na pandemia já havia demonstrado que o maior tempo de convivência forçada amplia a letalidade . Quando essa convivência é temperada por polarização política, o caldo entorna. Não em bala, no Brasil, mas em expulsões, xingamentos e, sobretudo, em silenciamento.


Por que o Brasil ainda não teve o seu "caso Texas"?

Especialistas evitam respostas categóricas. Algumas hipóteses emergem dos próprios artigos analisados:

  • Câmaras de eco familiares: o estudo de Gatto et al. sugere que mais de dois terços dos brasileiros vivem em núcleos com homogeneidade partidária, o que reduz a oportunidade do conflito ;
  • Subnotificação e classificação: delegacias e institutos médico-legais podem não registrar a motivação política como causa associada em boletins de ocorrência de lesão corporal ou homicídio, submergindo o fenômeno;
  • Cultura de resolução privada: enquanto nos EUA o acesso a armas é facilitado e o conflito pode escalar rapidamente para o homicídio, no Brasil a briga familiar ainda tende a se encerrar no "bloqueio do WhatsApp", embora a ministra Márcia Lopes alerte que o armamentismo estimulado no governo anterior já produza efeitos .

Nenhuma dessas hipóteses, porém, imuniza o país. Ao contrário: todos os ingredientes estão na mesa.


Radicalização é violência; violência anuncia a morte

A lição que o Texas oferece ao Brasil não é a do espanto, mas a do espelho. A jovem Sarah Jenkins não foi morta por um estranho — foi morta por quem a apresentou ao mundo. O monstro não invadiu a casa; ele já estava à mesa. No Brasil, as mesas ainda rangem apenas com o peso do silêncio, mas rangem alto.

Enquanto o Congresso Nacional endurece penas para feminicídio — a Lei 14.994/2024 elevou a pena máxima para 40 anos — e o governo federal lança o Pacto Nacional Brasil de Enfrentamento ao Feminicídio , a dimensão subjetiva do ódio segue sem política pública. Projetos que contenham a palavra "gênero", relatou a ministra, são rejeitados antes mesmo da leitura .

A sociedade brasileira ainda pode evitar que uma discussão sobre urna termine em necrotério. Mas, para isso, precisará nomear o que já está em curso: a radicalização política no núcleo familiar expõe feridas abertas pela desigualdade de gênero e pela intolerância histórica. O feminicídio político de Marielle e de tantas outras — ainda que executado fora de casa — é o aviso de que a mesma violência simbólica que interdita mandatos pode, sim, interditar lares.


Síntese dos casos e contextos abordados

  1. Rupturas familiares por eleições (2022): relatos de expulsão de casa, agressões verbais e silêncio punitivo entre pais, filhos e sogros, documentados pela Folha de S.Paulo .
  2. Feminicídio político (2018-2026): assassinato de Marielle Franco, Dorothy Stang e Patrícia Acioly, conceituado como crime misógino para silenciar a atuação política de mulheres, especialmente negras e periféricas .
  3. Violência política generalizada: 212 casos em três meses de 2022 (Unirio); 714 casos entre 2022 e 2024 (Terra de Direitos), com 182 assassinatos e atentados .
  4. Ausência documentada de homicídio intrafamiliar por polarização: não há, até o fechamento desta edição, caso brasileiro equivalente ao do Texas nos registros midiáticos ou acadêmicos analisados.

Com informações de Agência Brasil, Folha de S.Paulo, Agência Pública, WikiFavelas/Fiocruz, Agência Senado, CNN Brasil, Terra de Direitos, Justiça Global, Revista TRASHs (Universidade de Limoges), PublicaBCP/UCL ■

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