Operação Southern Spear realiza novo ataque letal no Pacífico Oriental, elevando para pelo menos 130 o número de mortos na campanha militar contra o narcotráfico; ação de 9 de fevereiro resulta em duas mortes e deixa um sobrevivente, que teve busca coordenada pelo Equador; campanha que começou em setembro enfrenta crescentes questionamentos sobre sua legalidade e provas
O Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos (SOUTHCOM) anunciou a realização de um novo ataque cinético letal contra uma embarcação no Oceano Pacífico Oriental na última segunda-feira (9 de fevereiro). Segundo o comunicado, o ataque, ordenado pelo novo comandante do SOUTHCOM, general Francis L. Donovan, teve como alvo um barco operado por "Organizações Terroristas Designadas" e envolvido em operações de narcotráfico. O saldo foi de duas pessoas mortas e um sobrevivente.
A Guarda Costeira dos EUA foi acionada para uma missão de busca e resgate do sobrevivente. No entanto, a coordenação das operações de resgate foi assumida pelo Centro de Coordenação de Resgate Marítimo do Equador, com os EUA fornecendo apenas suporte técnico. Este é o terceiro ataque publicamente relatado desde o início de 2026 e o segundo neste ano a deixar um sobrevivente.
Contexto e Escala da Operação Southern Spear
Este ataque faz parte da Operação Southern Spear, uma campanha militar iniciada em setembro de 2025 sob o governo do presidente Donald Trump, com o objetivo declarado de combater o narcotráfico nas rotas marítimas do Caribe e do Pacífico Oriental. Os números totais da operação, conforme compilados por diferentes fontes da imprensa, são altos e mostram uma campanha extensa:
- Total de Mortos: Pelo menos 121 a 130 pessoas.
- Total de Embarcações Atacadas: Entre 37 e 38 ataques.
- Classificação dos Alvos: A administração Trump classifica os mortos como "combatentes ilegais" ou "narcoterroristas", afirmando ter base legal em um parecer confidencial do Departamento de Justiça para realizar os ataques sem revisão judicial.
Críticas e Controvérsias Legais
A campanha enfrenta intenso escrutínio e críticas de especialistas em direito internacional, políticos e organizações internacionais. As principais objeções são:
- Falta de Evidências Públicas: A administração Trump não apresentou publicamente provas concretas de que cada embarcação atingida estava envolvida com tráfico de drogas ou de que os indivíduos mortos eram afiliados a cartéis. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, fez alegações públicas de sucesso sem fornecer detalhes ou comprovações.
- Questionamentos sobre Legalidade: Especialistas em direito militar e das Nações Unidas argumentam que os ataques constituem execuções extrajudiciais e uma violação das leis dos conflitos armados. Um ponto particularmente sensível foi o primeiro ataque em 2 de setembro, que incluiu um segundo ataque contra sobreviventes na água.
- Ação Judicial em Andamento: As famílias de dois cidadãos de Trinidad e Tobago mortos em um ataque em outubro de 2025 processaram o governo dos EUA por homicídio culposo, classificando a ação como um crime de guerra. Este é o primeiro processo judicial conhecido decorrente da operação e pode testar sua justificação legal.
Cenário Político e Geopolítico Ampliado
A Operação Southern Spear não ocorre isoladamente. Ela está intrinsecamente ligada a uma política externa mais agressiva da administração Trump na América Latina, especificamente contra a Venezuela:
- Captura de Nicolás Maduro: A campanha de ataques marítimos foi o prelúdio da operação militar de 3 de janeiro de 2026, quando forças especiais dos EUA capturaram o presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas para julgamento nos Estados Unidos por acusações de narcoterrorismo.
- Expansão das Operações Navais: Paralelamente aos ataques a embarcações menores, a Marinha dos EUA tem interceptado e apreendido navios-tanque vinculados ao transporte de petróleo venezuelano ou russo sancionado, em uma operação global de "quarentena". O secretário Hegseth declarou publicamente a intenção de perseguir esses navios "ao redor do globo".
- Mudança no Comando: O novo ataque foi o primeiro ordenado pelo general Francis L. Donovan, que assumiu o comando do SOUTHCOM após a aposentadoria do almirante Alvin Holsey, que, de acordo com relatos, discordava da política de ataques a embarcações.
A Operação Southern Spear representa uma militarização inédita e controversa da guerra às drogas pelos Estados Unidos. Enquanto o governo alega sucesso em interromper atividades de cartéis, a falta de transparência, as baixas civis e os sérios questionamentos jurídicos lançam uma sombra de ilegitimidade sobre a campanha. O desfecho do processo judicial em andamento e a pressão do Congresso americano podem ser decisivos para o futuro dessas operações.
Com informações de: CNN, Folha de S.Paulo, InfoMoney, The Guardian, UOL, WSMV, SIC Notícias, G1, CNN Brasil, RTP
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