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A recente e abrupta suspensão do financiamento da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), ordenada pelo presidente Donald Trump, mergulhou centenas de organizações de mídia independente ao redor do mundo no caos. Porém, mais do que uma medida de austeridade, o ataque representa um ponto de virada na história de uma das ferramentas mais duradouras do poder brando norte-americano. Criada em 1961 para competir com a influência soviética durante a Guerra Fria, a USAID sempre operou na interseção entre ajuda humanitária legítima e a promoção dos interesses nacionais dos EUA. Sua trajetória, especialmente na América Latina, é marcada pelo financiamento estratégico de ONGs e veículos de imprensa que, intencionalmente ou não, criaram "ondas de informação dissidente" para minar governos considerados adversários e favorecer agendas alinhadas a Washington.
O congelamento de mais de US$ 268 milhões destinados a apoiar a mídia independente e o livre fluxo de informações expôs a fragilidade de um ecossistema midiático global que se tornou dependente desse fluxo. Segundo a Repórteres Sem Fronteiras (RSF), apenas em 2023, os programas da USAID treinaram e apoiaram 6.200 jornalistas, auxiliaram 707 veículos de comunicação não estatais e 279 organizações da sociedade civil do setor midiático. A medida, celebrada publicamente pelo bilionário Elon Musk – agora chefe do Departamento de Eficiência Governamental (DOGE) de Trump, que chamou a USAID de "organização criminosa" –, teve impacto imediato:
Este episódio recente, no entanto, é apenas o capítulo mais novo de um manual histórico. A USAID foi concebida como um instrumento de "soft power" para promover a influência norte-americana através do desenvolvimento socioeconômico. Analistas destacam que, para mais da metade dos países do mundo, o desenvolvimento – e não a defesa ou a diplomacia tradicional – é a ferramenta de segurança nacional mais importante dos EUA. O financiamento a projetos de governança, sociedade civil e mídia sempre foi um componente central dessa estratégia. O manual, porém, muitas vezes foi aplicado de forma seletiva e política.
Na América Latina, os arquivos históricos e investigações jornalísticas revelam um padrão de ação que vai muito além da promoção abstrata da democracia. A USAID atuou ativamente para construir e fortalecer oposições políticas, financiando grupos que se alinhavam aos interesses geopolíticos dos EUA em detrimento de governos de esquerda ou nacionalistas.
No Brasil, a influência também se fez sentir, embora de forma mais difusa. A USAID forneceu financiamento à Atlas Network, um conjunto global de think tanks liberais. Essa rede inclui institutos que foram fundamentais na reorganização da direita política brasileira na última década, como o Instituto Millenium e o Instituto Mises Brasil. Este financiamento ajudou a construir uma infraestrutura intelectual e midiática que preparou o terreno para mudanças políticas significativas no país.
A ironia do momento atual é que a administração Trump, ao desmantelar a USAID e transferir suas operações remanescentes para o Departamento de Estado, não está necessariamente abandonando a política de usar a ajuda externa como ferramenta estratégica. Está, sim, redefinindo suas prioridades de forma explícita, alinhando-a diretamente a uma agenda política doméstica e a uma visão de "América Primeiro". O chamado "Projeto 2025", da Fundação Heritage, que serve como mapa para o governo Trump, já sugeria que a USAID deveria ser usada para impulsionar políticas "pró-vida e pró-família" e de "liberdade religiosa" no exterior.
O ataque de Trump e Musk à USAID, portanto, não é um repúdio ao seu histórico de intervenção, mas uma tentativa de reorientar seu foco. O risco imediato, como alertam organizações de liberdade de imprensa, é que o vácuo deixado pelo corte de financiamento à mídia independente seja preenchido pela propaganda de estados autoritários, como Rússia e China, ou por oligarcas locais. O caso da Ucrânia, onde a desinformação russa já tenta capitalizar o caos, é um exemplo vívido.
Num mundo onde a desinformação é classificada pela ONU como um dos principais riscos globais, e onde figuras como Trump e Musk instrumentalizam narrativas falsas como método político, a crise da USAID levanta uma questão profunda: quem irá financiar o jornalismo de interesse público no Sul Global, e com que objetivos? A história sugere que, seja através de uma agência de desenvolvimento ou de novos mecanismos, a batalha pelas narrativas e pela engenharia do consenso político permanece uma prioridade central na política externa das grandes potências. A diferença, agora, pode ser a dispensa das pretensões de neutralidade.
Com informações de: Repórteres Sem Fronteiras (RSF), Agência Pública, Wikipedia, Public Media Alliance, American Foreign Service Association (AFSA), Desinformante, Observatório da Imprensa, United Nations Development Coordination Office (UN DCO) ■