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Como o burnout na pós-modernidade conduz jovens ao limite
No contexto de trabalho fluído e relações instáveis, a busca desesperada por significado profissional, somada à exaustão crônica, cria um terreno fértil para crises existenciais e condutas radicais
Artigo
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■   Bernardo Cahue, 03/02/2026

O esgotamento profissional, ou burnout, deixou de ser um simples risco ocupacional para se tornar um sintoma social amplo, especialmente entre os jovens. Caracterizado por exaustão extrema, cinismo e sensação de ineficácia, o fenômeno atinge cerca de 30% das pessoas ocupadas no Brasil, colocando o país em segundo lugar no ranking mundial de doenças ocupacionais . No entanto, para compreender seu impacto devastador nas novas gerações, é preciso analisá-lo além da clínica, inserido no cruzamento entre as demandas do capitalismo contemporâneo e a ressignificação pós-moderna do trabalho. Nesse cenário, o adoecimento não é apenas físico ou mental, mas também existencial, podendo catalisar atitudes de ruptura drástica com o sistema vigente.

A organização do trabalho sob a lógica capitalista sofreu uma transformação radical. Se, na modernidade industrial, o tempo era medido e controlado na fábrica, hoje, na chamada pós-modernidade, essa lógica se internalizou. O tempo deixou de ser apenas uma medida externa para se tornar um recurso subjetivo de produtividade constante, onde "tempo é dinheiro" se traduz em uma pressão por desempenho que invade a vida pessoal. A pós-modernidade é descrita por teóricos como um período de fluidez, instabilidade e descrença em grandes narrativas, onde verdades absolutas e identidades fixas se dissolvem. No mundo do trabalho, isso se reflete na quebra dos contratos tradicionais: a promessa de carreira linear e lealdade entre empresa e empregado deu lugar à precariedade, projetos temporários e à necessidade de o indivíduo se reinventar continuamente.

É nesse contexto que surge a busca angustiada pela "ressignificância". Em um mundo "líquido", onde as referências são fugidias, os jovens são pressionados a encontrar não apenas um emprego, mas um propósito identitário no trabalho . A atividade laboral deve ser, simultaneamente, fonte de renda, realização pessoal, arena para autoexpressão e projeto de vida. Esta carga simbólica é imensa. Quando o trabalho falha em oferecer esse sentido - seja por ser alienante, instável ou simplesmente um meio de subsistência - instala-se um vazio profundo. A frustração não é mais apenas com as condições de trabalho, mas com o fracasso de um projeto identitário pessoal, intensificando o sofrimento psíquico.

A convergência entre exaustão crônica (burnout) e vazio de sentido (crise de ressignificação) cria uma situação explosiva. O indivíduo não só está cansado; ele não vê motivo para continuar. A internalização da lógica capitalista, onde o valor pessoal é confundido com produtividade, agrava este quadro . A pessoa acredita que, se falha em ser produtiva e bem-sucedida num sistema competitivo, ela própria é uma falha. Este sentimento de ineficácia e desesperança, típico do burnout, mescla-se então à crise existencial pós-moderna.

Dessa combinação perigosa podem emergir atitudes extremas, que são tentativas radicais de romper com um sistema percebido como insustentável e opressor. Essas condutas não são homogêneas, mas manifestam-se em diferentes esferas:

  • Ruptura Profissional Radical: Abandonar subitamente carreiras promissoras, aderir a movimentos de anti-trabalho ("quiet quitting", grandes demissões), ou migrar para estilos de vida completamente alternativos, muitas vezes idealizados como fuga.
  • Crises de Saúde Mental Agudas: O sofrimento psíquico, quando não canalizado, pode levar a episódios depressivos severos, crises de ansiedade incapacitantes e, nos casos mais graves, ao risco de suicídio.
  • Politização e Revolta: A percepção clara da exploração e do vazio do sistema pode catalisar um engajamento político radical, seja em movimentos de esquerda que combatem o capitalismo, seja em discursos de ódio que buscam um culpado simples para a complexidade do mal-estar.

Confrontar esse cenário exige mais que pausas para descanso ou palestras de bem-estar. Requer questionar estruturas. Estudos indicam que intervenções eficazes contra o burnout - como demandas factíveis, senso de comunidade e justiça - estão em direto conflito com a cultura do capitalismo moderno, que promove demandas flutuantes, relações transacionais e deslealdade sistêmica. A saída pode passar por resgatar a autonomia e o ócio criativo como atos de resistência, e por estimular emoções ambivalentes - aceitar que sentimentos positivos e negativos podem coexistir, o que parece aumentar a resiliência . Para os jovens, talvez o caminho seja desvincular a busca por significado exclusivamente do trabalho, redistribuindo-a para outras esferas da vida, em um movimento consciente de descolonização da mente frente à lógica produtivista totalizante.

Com informações de: UGT - União Geral dos Trabalhadores, SciELO - Mental (Barbacena), Cambridge University Press - Australasian Journal of Organisational Psychology, SpunOut.ie ■

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