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Letalidade policial em SP bate recorde em 2025 com terceiro aumento anual consecutivo
Dados oficiais mostram que 834 pessoas morreram em ações policiais no estado, maior número da série recente. Enquanto isso, homicídios dolosos caem no estado, mas sobem na capital
America do Sul
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcRa0svElLbQiYmBqE1ot9WL6CJfWrxd0M0NYQ&s
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■   Bernardo Cahue, 02/02/2026

O estado de São Paulo registrou 834 mortes em decorrência de ações policiais ao longo de 2025, conforme dados da Secretaria de Segurança Pública (SSP) . Este é o terceiro aumento anual consecutivo no indicador desde que o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) assumiu o cargo, e representa o maior patamar da série recente . O número inclui intervenções de policiais civis e militares, tanto em serviço quanto de folga, e significa um acréscimo de 21 mortes em relação a 2024 .

Do total de vítimas de 2025, a esmagadora maioria, 700 casos, envolveu agentes em serviço . O perfil das vítimas é majoritariamente masculino (823), com predominância de pessoas identificadas como pardas (419) e brancas (262) .

Evolução Anual e Contexto Histórico

A trajetória de crescimento da letalidade na gestão atual reverte uma tendência de queda observada anteriormente. A escalada foi contínua desde a posse de Tarcísio:

  • 2022 (último ano antes da gestão): 421 mortes
  • 2023: 504 mortes
  • 2024: 813 mortes
  • 2025: 834 mortes

Em 2024, o cenário foi marcado por operações de grande impacto, como a Operação Verão na Baixada Santista, que sozinha resultou em 56 mortes e foi considerada a ação mais letal da PM paulista desde o Massacre do Carandiru em 1992 . O aumento em 2025 chama a atenção por ter ocorrido mesmo na ausência de uma megaoperação com essas características . O último trimestre de 2025 (outubro a dezembro) foi o mais letal já registrado, com 276 mortes, uma média de três vítimas por dia .

Mudança no Modelo de Câmeras Corporais e Críticas

O ano de 2025 foi marcado por uma mudança significativa na política de uso de câmeras corporais pela Polícia Militar. A partir de junho, começou a implantação de um novo modelo de equipamentos que, diferentemente do sistema anterior, não realiza gravação ininterrupta . A alteração seguiu um acordo homologado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) após o governo ter determinado, no início do mandato, a retirada dos dispositivos .

O acordo no STF prevê diretrizes como a elaboração de normas operacionais, mecanismos de fiscalização e a publicação de relatórios periódicos . Entidades de controle, no entanto, manifestam preocupação. A Conectas, que participou do acordo, critica a falta de transparência e argumenta que o fim da gravação contínua pode ter reduzido o "efeito inibitório" que induz à prevenção da violência . O ouvidor das polícias de São Paulo, Mauro Caseri, também questiona a cobertura real, estimando que apenas 12,5% dos policiais em atividade por turno estão com câmeras, e defende mais investimento em armas não letais .

Os dados mostram que o aumento das mortes por PMs em serviço foi mais acentuado justamente no segundo semestre de 2025, após o início da nova política: 306 mortes no primeiro semestre contra 366 no segundo .

Análise de Especialistas sobre as Causas do Aumento

Especialistas apontam que o problema vai além do modelo técnico das câmeras. Para Rafael Alcadipani, professor da FGV e integrante do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o aumento reflete a ausência de uma política consistente de comando, supervisão e responsabilização . Ele afirma que discursos das autoridades no início da gestão, contrários às políticas de mitigação de força, podem ter passado à tropa a mensagem de que excessos seriam tolerados .

"Vários discursos do governador e do secretário batiam de frente com as políticas de mitigação do uso da força. Os policiais entenderam que houve uma mudança de postura institucional, e agiram em cima disso", analisa Leonardo Silva, pesquisador sênior do Fórum Brasileiro de Segurança Pública . Para ele, a alta letalidade indica a necessidade de uma repactuação das ações do Executivo e de medidas mais efetivas no controle externo da atividade policial .

Contexto Geral da Violência: Homicídios Caem, Feminicídios Disparam

O aumento da letalidade policial contrasta com a trajetória de outros indicadores de crimes contra a vida no estado. Pelo terceiro ano consecutivo, São Paulo registrou a menor taxa de homicídios dolosos da série histórica iniciada em 2001: 5,46 por 100 mil habitantes, com 2.527 vítimas no total (queda de 3,9% frente a 2024) . No interior do estado, a redução foi ainda mais expressiva, de quase 8% .

Entretanto, a cidade de São Paulo contrariou a tendência estadual e viu os homicídios aumentarem 6,4% em 2025, interrompendo uma sequência de quatro anos de quedas .

Outro dado que avança na contramão da queda geral dos assassinatos é o de feminicídios, que bateu recorde histórico. No estado, foram 270 vítimas em 2025 (alta de 6,7%), e na capital, 60 mortes (alta de 22,4%) .

A Posição do Governo do Estado

A Secretaria de Segurança Pública (SSP), em respostas oficiais, afirmou que todas as ocorrências com mortes decorrentes de intervenção policial são rigorosamente investigadas pelas polícias, com acompanhamento das corregedorias, Ministério Público e Poder Judiciário . A pasta também destacou que, desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos por desvios de conduta .

Em nota, a SSP buscou fazer uma comparação com a gestão anterior, afirmando que, somados os três primeiros anos do governo Tarcísio, houve uma redução de aproximadamente 5% nos números de mortes em confrontos com policiais na comparação com os três primeiros anos da administração passada . O secretário Osvaldo Nico Gonçalves atribuiu a queda nos roubos e outros crimes ao fortalecimento das ações de segurança pública e ao uso integrado de inteligência e tecnologia .

Com informações de: G1, Brasil de Fato, CNN Brasil, Agência SP, Brasil 247, Folha de S.Paulo ■

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