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Pelo menos 80 presos políticos foram libertados somente neste domingo (25/01), de acordo com a organização não-governamental Foro Penal, que monitora a situação no país. O diretor da ONG, Alfredo Romero, afirmou que as libertações ocorreram durante a madrugada e que é provável que mais solturas aconteçam, com verificações de identidade sendo realizadas em prisões por todo o país.
Contudo, existe uma grande discrepância entre os números oficiais e os divulgados por entidades independentes. A presidente interina, Delcy Rodríguez, afirma que 626 pessoas já foram libertadas da prisão desde dezembro. Em contraste, o Foro Penal contabiliza aproximadamente metade desse número para o mesmo período, registrando cerca de 156 libertações até o último sábado (24/01). Anteriormente, em 12 de janeiro, o governo havia anunciado a libertação de 116 presos, enquanto o Foro Penal confirmava apenas 41 naquele momento.
O processo de libertação ganhou força após os eventos do início de janeiro. Uma operação militar dos Estados Unidos em 3 de janeiro resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram levados para Nova York para responder a acusações de narcotráfico. Com a saída de Maduro, assumiu a presidência interina a até então vice-presidente, Delcy Rodríguez.
O anúncio formal de um "número significativo" de libertações foi feito em 8 de janeiro por Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina e chefe do Parlamento. Este gesto foi apresentado como um movimento unilateral para "buscar a paz" e a "convivência pacífica" no país. Analistas apontam que as medidas do novo governo, incluindo as negociações para venda de petróleo aos EUA, ocorrem sob forte pressão de Washington.
A oposição e grupos de direitos humanos têm criticado a lentidão e a falta de transparência do processo. Familiares dos detidos têm realizado vigílias e acampado em frente a prisões, como o emblemático edifício do Helicoide em Caracas, na esperança de ver a libertação de seus entes queridos.
Valeria Somaza, irmã de um ativista político detido, descreveu o modelo de libertação "gota a gota" como parte da tortura infligida aos familiares. A principal coligação da oposição, a Plataforma Unitária Democrática (PUD), e a ONG Provea cobram do governo a publicação de uma lista detalhada com os nomes dos libertados e a revogação do decreto de emergência que consideram inconstitucional. Em resposta, Delcy Rodríguez afirmou que pedirá ao Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Turk, que verifique oficialmente a lista de libertações.
A situação atraiu a atenção de governos estrangeiros, especialmente pela presença de estrangeiros entre os detidos. O governo espanhol confirmou a libertação de cinco cidadãos seus, incluindo a jornalista e ativista Rocío San Miguel. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, anunciou a soltura de dois cidadãos italianos.
Jorge Rodríguez, ao anunciar as libertações, fez agradecimentos públicos ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ao ex-premiê espanhol José Luis Rodríguez Zapatero e ao Catar pelo apoio "ao povo da Venezuela". Fontes do Itamaraty, contudo, avaliaram que o gesto se referia ao apoio geral do Brasil na crise, não sendo específico à libertação dos presos.
As libertações ocorrem em um contexto de anos de denúncias contra o regime de Maduro. Organizações internacionais e locais acusavam o governo de prender ativistas, opositores, jornalistas e militares por motivos políticos, classificando-os como "presos políticos". O governo chavista, por sua vez, sempre negou essa classificação, argumentando que essas pessoas foram detidas por "cometerem crimes terríveis", como traição à pátria ou atos contra a segurança do Estado.
Segundo o último levantamento do Foro Penal, mais de 800 pessoas ainda eram consideradas presos políticos no país no início de janeiro. O caminho para uma reconciliação nacional parece longo, com a ONG Provea alertando que a persistência de decretos de emergência e a libertação parcial podem impedir um processo genuíno de redemocratização.
Com informações de: pt.euronews.com, noticias.uol.com.br, www.bbc.com, sicnoticias.pt, www.infomoney.com.br, www.swissinfo.ch, g1.globo.com, www.cartacapital.com.br, sapo.pt, www.dw.com ■