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Venezuela liberta presos políticos em meio a pressão internacional e disputa sobre números
Processo de soltura, iniciado após a captura de Nicolás Maduro, avança de forma lenta e com dados divergentes entre o governo e organizações de direitos humanos
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 25/01/2026

Libertações em andamento e a batalha dos números

Pelo menos 80 presos políticos foram libertados somente neste domingo (25/01), de acordo com a organização não-governamental Foro Penal, que monitora a situação no país. O diretor da ONG, Alfredo Romero, afirmou que as libertações ocorreram durante a madrugada e que é provável que mais solturas aconteçam, com verificações de identidade sendo realizadas em prisões por todo o país.

Contudo, existe uma grande discrepância entre os números oficiais e os divulgados por entidades independentes. A presidente interina, Delcy Rodríguez, afirma que 626 pessoas já foram libertadas da prisão desde dezembro. Em contraste, o Foro Penal contabiliza aproximadamente metade desse número para o mesmo período, registrando cerca de 156 libertações até o último sábado (24/01). Anteriormente, em 12 de janeiro, o governo havia anunciado a libertação de 116 presos, enquanto o Foro Penal confirmava apenas 41 naquele momento.

Contexto político: a queda de Maduro e a nova gestão

O processo de libertação ganhou força após os eventos do início de janeiro. Uma operação militar dos Estados Unidos em 3 de janeiro resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, que foram levados para Nova York para responder a acusações de narcotráfico. Com a saída de Maduro, assumiu a presidência interina a até então vice-presidente, Delcy Rodríguez.

O anúncio formal de um "número significativo" de libertações foi feito em 8 de janeiro por Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina e chefe do Parlamento. Este gesto foi apresentado como um movimento unilateral para "buscar a paz" e a "convivência pacífica" no país. Analistas apontam que as medidas do novo governo, incluindo as negociações para venda de petróleo aos EUA, ocorrem sob forte pressão de Washington.

Críticas, angústia das famílias e o pedido por transparência

A oposição e grupos de direitos humanos têm criticado a lentidão e a falta de transparência do processo. Familiares dos detidos têm realizado vigílias e acampado em frente a prisões, como o emblemático edifício do Helicoide em Caracas, na esperança de ver a libertação de seus entes queridos.

Valeria Somaza, irmã de um ativista político detido, descreveu o modelo de libertação "gota a gota" como parte da tortura infligida aos familiares. A principal coligação da oposição, a Plataforma Unitária Democrática (PUD), e a ONG Provea cobram do governo a publicação de uma lista detalhada com os nomes dos libertados e a revogação do decreto de emergência que consideram inconstitucional. Em resposta, Delcy Rodríguez afirmou que pedirá ao Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Turk, que verifique oficialmente a lista de libertações.

Envolvimento internacional e casos específicos

A situação atraiu a atenção de governos estrangeiros, especialmente pela presença de estrangeiros entre os detidos. O governo espanhol confirmou a libertação de cinco cidadãos seus, incluindo a jornalista e ativista Rocío San Miguel. A primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, anunciou a soltura de dois cidadãos italianos.

Jorge Rodríguez, ao anunciar as libertações, fez agradecimentos públicos ao presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, ao ex-premiê espanhol José Luis Rodríguez Zapatero e ao Catar pelo apoio "ao povo da Venezuela". Fontes do Itamaraty, contudo, avaliaram que o gesto se referia ao apoio geral do Brasil na crise, não sendo específico à libertação dos presos.

O cenário mais amplo dos direitos humanos

As libertações ocorrem em um contexto de anos de denúncias contra o regime de Maduro. Organizações internacionais e locais acusavam o governo de prender ativistas, opositores, jornalistas e militares por motivos políticos, classificando-os como "presos políticos". O governo chavista, por sua vez, sempre negou essa classificação, argumentando que essas pessoas foram detidas por "cometerem crimes terríveis", como traição à pátria ou atos contra a segurança do Estado.

Segundo o último levantamento do Foro Penal, mais de 800 pessoas ainda eram consideradas presos políticos no país no início de janeiro. O caminho para uma reconciliação nacional parece longo, com a ONG Provea alertando que a persistência de decretos de emergência e a libertação parcial podem impedir um processo genuíno de redemocratização.

Com informações de: pt.euronews.com, noticias.uol.com.br, www.bbc.com, sicnoticias.pt, www.infomoney.com.br, www.swissinfo.ch, g1.globo.com, www.cartacapital.com.br, sapo.pt, www.dw.com ■

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