Operação, a primeira desde a captura de Nicolás Maduro, eleva para 117 o número de mortos na campanha militar iniciada em setembro, alvo de críticas por supostas execuções extrajudiciais
O Comando Sul das Forças Armadas dos Estados Unidos (SOUTHCOM) anunciou, na sexta-feira (23), um novo ataque a uma embarcação no Oceano Pacífico Oriental, resultando na morte de duas pessoas e na busca por um sobrevivente. A ação é a primeira do tipo divulgada desde a operação que capturou o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, em Caracas, no início de janeiro.
Em publicação nas redes sociais, o comando militar afirmou que a embarcação atacada navegava por rotas conhecidas do narcotráfico e estava "envolvida em operações de narcotráfico". Um vídeo divulgado mostra uma lancha em movimento sendo destruída por uma explosão. Após o ataque, a Guarda Costeira dos EUA foi acionada para iniciar operações de busca e resgate para localizar o terceiro indivíduo a bordo, que sobreviveu.
Histórico de uma campanha letal
Este ataque marca a retomada de uma série ofensiva que começou em setembro de 2025. Desde então, os Estados Unidos realizaram dezenas de ações similares:
- Número total de ataques: Pelo menos 35 a 36 operações contra embarcações em águas internacionais do Caribe e do Pacífico.
- Balanço de vítimas: No mínimo 117 pessoas mortas nos ataques. Somente em uma série de ataques no final de dezembro, oito pessoas foram mortas.
- Padrão de ação: As forças americanas geralmente alegam que as embarcações são utilizadas por "narcoterroristas" e divulgam vídeos das explosões, mas frequentemente não apresentam provas públicas concretas sobre a carga ou o envolvimento específico das vítimas antes dos ataques.
Controvérsias e questionamentos internacionais
A campanha militar americana tem sido alvo de duras críticas de especialistas em direito internacional e organizações de direitos humanos. Os principais pontos de questionamento são:
- Legalidade: Especialistas argumentam que os ataques podem configurar "execuções extrajudiciais", uma vez que têm como alvo civis suspeitos de crimes que não representam uma ameaça imediata às forças ou ao território dos EUA.
- Falta de transparência: Em dezembro, o Secretário de Defesa, Pete Hegseth, se recusou a divulgar publicamente o vídeo completo de um ataque ocorrido em 2 de setembro, que, segundo fontes e legisladores, mostrou sobreviventes acenando antes de serem mortos em um segundo bombardeio. Hegseth alegou que a divulgação revelaria práticas de inteligência militar.
- Pressão política: Legisladores americanos, inclusive de ambos os partidos, criticaram a falta de clareza sobre os objetivos estratégicos da campanha e demonstraram preocupação com a autorização para o uso da força.
O foco estratégico na Venezuela
Apesar de ocorrerem em águas internacionais, as operações estão intimamente ligadas à pressão máxima dos EUA sobre a Venezuela. A escalada inclui:
- Ações militares diretas: A captura de Nicolás Maduro em 3 de janeiro foi o ápice de uma série de medidas, que também incluiu o envio do porta-aviões USS Gerald R. Ford para a região e a realização de um ataque com drones a uma instalação portuária no país.
- Bloqueio econômico: Os EUA têm imposto um bloqueio "total e completo" a petroleiros sancionados e já apreenderam pelo menos sete navios-tanque ligados ao petróleo venezuelano, buscando controlar o principal recurso econômico do país.
- Retórica oficial: O governo Trump designou organizações criminosas venezuelanas como grupos terroristas e ofereceu uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à prisão de Maduro, a quem acusa de ser um dos maiores narcotraficantes do mundo.
Justificativa americana e o futuro
A administração do presidente Donald Trump defende veementemente a campanha. O argumento central é o combate ao fluxo de drogas para os Estados Unidos. Em declaração no Fórum Econômico Mundial de Davos, na semana passada, Trump afirmou: "Nós paramos — virtualmente paramos quase 100% de todas as drogas que entram por água".
No entanto, com a captura de Maduro já realizada, a persistência dos ataques a embarcações e o controle sobre o petróleo venezuelano indicam que a estratégia na região permanece ativa e agressiva. A continuidade dessas operações, cercadas de questionamentos legais e com um alto custo em vidas, deve manter a tensão no cenário internacional e gerar mais debates sobre os limites do uso da força militar no combate ao narcotráfico.
Com informações de: G1, O Globo, WFSB, BBC, Agência Brasil, Atlanta News First, ADN, SBT News, CBS News ■