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Caso BANERJ: o empréstimo privilegiado, a fraude e o rombo absorvido pelo Itaú
Investigações revelam como o banco estadual do Rio foi usado para beneficiar a Globo e depois repassado ao Itaú, deixando um rombo bilionário para os cofres públicos
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■   Bernardo Cahue, 21/01/2026

O Banco do Estado do Rio de Janeiro (BANERJ) foi, por décadas, uma das principais instituições financeiras controladas pelo governo fluminense. Sua história, porém, é marcada por operações questionáveis, fraudes e uma privatização que transferiu um patrimônio lucrativo ao setor privado enquanto o Estado assumia dívidas gigantescas. Este caso envolve desde empréstimos a juros irrisórios concedidos ao magnata das comunicações Roberto Marinho até a absorção do banco pelo Itaú, num processo que escancarou o que muitos especialistas chamam de “um dos maiores rombos do setor público brasileiro”.

O empréstimo “materno” a Roberto Marinho

Em 1980, as Organizações Globo, então presididas por Roberto Marinho, realizaram dois grandes empréstimos no BANERJ. Conforme documentado pelo jornal O Pasquim em 1983, os valores somavam 449,5 milhões de cruzeiros (cerca de US$ 613 mil na época) e foram contratados a juros de apenas 2% ao mês – uma taxa muito inferior à rentabilidade média da caderneta de poupança, que naquele período oscilava entre 0,5% e 1% ao mês. A reportagem do Pasquim calculou que, se o dinheiro fosse sacado e simplesmente aplicado no próprio BANERJ, a Globo obteria um lucro de US$ 3 milhões. Por isso, a publicação definiu Roberto Marinho como “o maior assaltante de bancos do Brasil”.

Fraudes e irregularidades no banco estadual

Além dos empréstimos privilegiados, o BANERJ foi alvo de múltiplas investigações por fraudes contábeis e operacionais. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) instaurou um inquérito administrativo (Processo Sancionador 05/1998) para apurar operações irregulares no mercado futuro de índices de ações (IBOVESPA) realizadas pela Banerj Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários (DTVM) em 1992. O relatório da CVM constatou que a instituição realizava negócios “day-trade” que geravam elevados prejuízos, com a intermediação da Itaú Corretora de Valores. Essas operações, que beneficiavam clientes específicos, evidenciaram um padrão de gestão fraudulenta que contribuiu para o enfraquecimento financeiro do banco.

A privatização e o rombo bilionário

Em 1996, sob o governo de Marcello Alencar (PFL - atual União Brasil), o BANERJ foi encaminhado para privatização. O modelo adotado foi o de separação do banco em duas partes: uma “boa” (com ativos lucrativos) e uma “podre” (com dívidas e créditos de difícil recuperação). A parte “boa” foi leiloada e arrematada pelo Itaú em junho de 1997 por R$ 311,1 milhões, com um ágio de apenas 0,35% sobre o preço mínimo. Já a parte “podre” ficou sob responsabilidade do Estado do Rio, que assumiu dívidas estimadas em R$ 9 bilhões – segundo o Tribunal de Contas do Rio, o valor efetivamente recebido pelo Estado foi de apenas R$ 100 milhões, pois o Itaú pagou com “moedas podres” (títulos descontados).

A absorção pelo Itaú e o legado de prejuízos

Com a compra, o Itaú incorporou a rede de agências, os correntistas e os ativos saudáveis do BANERJ, mantendo a marca por pelo menos dois anos. O banco privado não apenas ampliou sua presença no Rio como o fez a um custo baixíssimo: gastou cerca de R$ 160 milhões em títulos desvalorizados para fechar o negócio. Enquanto isso, o Estado do Rio – e, por consequência, o contribuinte – arcou com um rombo de bilhões de reais, que até hoje pesa nas contas públicas. A operação foi tão vantajosa para o Itaú que, anos depois, o próprio banco reconheceu que a aquisição do BANERJ foi um dos negócios mais rentáveis de sua história.

Conclusão: um caso emblemático de captura do patrimônio público

O caso BANERJ sintetiza várias das distorções que marcaram a privatização de bancos estaduais no Brasil: concessão de crédito privilegiado a grupos influentes, fraudes contábeis, divisão artificial do banco para transferir os ativos bons ao setor privado e a socialização dos prejuízos. Trinta anos depois, o Rio de Janeiro ainda sofre as consequências do rombo deixado pela “privatização” do BANERJ, enquanto o Itaú consolidou seu império financeiro com um investimento ínfimo. A história serve como alerta para a necessidade de transparência e controle social sobre os processos de desestatização.

Com informações de: Brasil 247, Diário do Centro do Mundo, Conversa Afiada, Folha de S.Paulo, Diário Popular (arquivo), Comissão de Valores Mobiliários (CVM) ■

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