Uma análise crítica que compara as falências no setor de jogos com as políticas econômicas atuais e seus potenciais impactos de larga escala
A narrativa de Donald Trump como um magnata de negócios infalível, frequentemente promovida por ele mesmo, é fundamental para sua imagem política. No entanto, um exame detalhado de seu passado empresarial, particularmente em Atlantic City, revela um padrão de gestão de alto risco, alavancagem extrema e uso estratégico de falências corporativas. Agora, na presidência, críticos argumentam que essas mesmas táticas estão sendo aplicadas em escala nacional, através de políticas comerciais agressivas, pressão sobre a autoridade monetária e confrontos sobre o teto da dívida, levantando questões sobre os riscos para a economia dos EUA.
O Legado de Atlantic City: Quatro Falências e um "Sucesso" Narrativo
A história de Trump em Atlantic City é um estudo de contradições. Enquanto ele retrata esse período como um grande triunfo, a realidade documentada por processos judiciais e regulatórios mostra um império casino em declínio constante. Suas empresas entraram com pedido de proteção contra falência (Chapter 11) quatro vezes - em 1991, 1992, 2004 e 2009. Algumas análises, considerando entidades específicas, listam até seis ocorrências. Os motivos foram consistentes:
- Alavancagem Extrema: O Trump Taj Mahal, por exemplo, foi inaugurado em 1990 com US$ 675 milhões em dívidas de junk bonds com juros de 14%, um fardo financeiro insustentável desde o início.
- Má leitura de Mercado: Trump expandiu agressivamente em Atlantic City quando o mercado já dava sinais de saturação, ignorando a crescente competição de outros estados.
- Estrutura que Protege o Indivíduo: É crucial notar que Trump nunca declarou falência pessoal. As falências foram de suas empresas. Ele utilizou a estrutura corporativa para proteger seu patrimônio pessoal, enquanto as empresas e seus credores arcavam com os prejuízos. Ele mesmo descreveu o processo como um "ótimo negócio" e "só negócios", usando as leis para "reduzir dívidas".
O resultado final foi a destruição de valor e empregos. O Trump Plaza hoje está fechado, com janelas opacas pela maresia; o Taj Mahal, sob nova propriedade, mostra anos de negligência. Enquanto isso, Trump afirma ter retirado "uma quantia incrível de dinheiro" da cidade.
Transpondo a Tática: Do Mundo Corporativo para a Política Econômica Nacional
Analistas observam paralelos preocupantes entre a abordagem empresarial de Trump e suas políticas econômicas como presidente, onde os stakeholders agora são a população americana e a economia global.
- Pressão sobre a Reserva Federal: Assim como pressionou credores, Trump agora pressiona publicamente o banco central. Ele declarou que seu futuro presidente do Fed deve "baixar as taxas de juros se o mercado vai bem" e ameaçou que quem discordasse "nunca será presidente do Fed". Isso ameaça a independência técnica da instituição, criando riscos de decisões motivadas por política de curto prazo em vez de fundamentos econômicos.
- Confronto com o Teto da Dívida: O país se aproxima de outro embate sobre o limite de endividamento federal. Trump afirmou que "não quer ver um 'default'". No entanto, seu histórico de usar a dívida como ferramenta de negociação e a pressão de republicanos por cortes de gastos como moeda de troca cria um cenário perigoso de brincadeira de roleta com a solvência do Tesouro Americano. A agência de classificação Fitch já alertou sobre os "desafios significativos de política fiscal" e a instabilidade política em 2025.
- Guerras Comerciais e o "Custo Trump": As tarifas pesadas impostas por Trump, com o objetivo declarado de proteger a indústria nacional, estão tendo um efeito contrário para muitos setores. Dados de 2025 mostram um aumento de 14% nas falências de grandes empresas em relação ao ano anterior, o maior número desde 2010. Empresas citam o aumento de custos com insumos importados e a desarticulação das cadeias de suprimentos como causas diretas. Varejistas como Carter's e especializadas como Orvis anunciaram fechamentos de lojas atribuídos em parte às tarifas.
Avaliação de Riscos: Falência Corporativa vs. Risco Nacional
Há uma diferença abissal entre uma empresa falir e um país enfrentar uma crise. No entanto, a lógica operacional pode ser similar. O uso do Chapter 11 permitia que as empresas de Trump se reorganizassem - uma ferramenta não disponível para um país que perde sua credibilidade fiscal.
- Concentração de Risco: Em Atlantic City, Trump apostou tudo em um único setor (casinos) em uma única cidade. Na presidência, políticas como as tarifas generalizadas concentram o risco em certos setores (como indústria e varejo) e em consumidores, sem uma diversificação clara da base econômica.
- Narrativa vs. Realidade: Assim como insistia no sucesso de seus cassinos enquanto eles falhavam, a administração pode estar minimizando os sinais de estresse econômico, como o aumento das falências, focando em indicadores agregados como o PIB.
- Socialização de Perdas: Nos negócios, as perdas foram arcadas por investidores e credores. Na economia nacional, políticas que levam a desaceleração, perda de empregos e inflação de custos impactam desproporcionalmente pequenas empresas e famílias de baixa renda, enquanto o próprio governo enfrenta custos de resgate potencialmente maiores.
A questão central levantada por críticos é: a presidência está sendo gerida com a mentalidade de um promotor de cassino, onde o risco extremo é uma ferramenta aceitável e a falência (ou seu equivalente nacional) é apenas uma opção estratégica no repertório? O legado de Atlantic City serve como um alerta: as apostas são feitas com capital alheio, e quando a mesa dá errado, a casa nem sempre é a primeira a perder.
Com informações de: The New York Times, Yahoo Finanzas, O Globo, ABC News, USA Today, DebtFreeOhio, Fregolaw, Univision, Brazil Journal, The Guardian