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Bolsonaro solicita upgrade tecnológico e espiritual na PF
Mais um capítulo da saga dos Bolsonaro expõe as mesmas tentativas frustradas de vitimismo de Coiote e Dick Vigarista: "A cela que virou suíte" ou "Torturado por um ar condicionado"
Artigo
Foto: https://f.i.uol.com.br/fotografia/2025/02/18/173993321567b5461f71e2d_1739933215_3x2_md.jpg
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■   Bernardo Cahue, 12/01/2026

Em um movimento que redefine o conceito de “cumprir pena”, a defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro protocolou uma série de pedidos ao STF que transformariam sua cela na Polícia Federal em um centro de mídia e contemplação. O catálogo de exigências inclui uma Smart TV para “fins estritamente informativos”, assistência religiosa personalizada e silêncio. Tudo isso enquanto aguarda o julgamento por condenação em trama golpista.

O pedido formal enviado ao ministro Alexandre de Moraes argumenta, com a solenidade típica de quem não percebe o tom cômico da situação, que o “direito à informação constitui expressão direta da dignidade da pessoa humana”. Os advogados garantem que o aparelho, a ser providenciado pela família, serviria apenas para acompanhar canais jornalísticos e vídeos no YouTube, prometendo que não haveria acesso a redes sociais ou comunicação com o mundo exterior. Como se a história da internet começasse e terminasse no feed de notícias, e como se um preso notório por suas lives não soubesse caminhar pelas frestas de uma plataforma.

Não contente em transformar a cela em uma sala de cinema, o pacote de pedidos inclui ainda a autorização para receber a visita do bispo Robson Rodovalho e do pastor (e deputado distrital) Thiago Manzoni para assistência religiosa. A defesa alega que essa prática já ocorria semanalmente durante a prisão domiciliar e precisa ser retomada. Completa o comboio de solicitações um apelo para que o ex-presidente possa participar do programa de remição de pena pela leitura, que reduz quatro dias de pena por obra literária consumida. Resta saber se as biografias de seus ídolos e os relatórios de inteligência contariam para a cota.

O Capítulo Anterior: A Queda, o Barulho e a Sequência de Pedidos

A súplica por entretenimento digital de alta definição não chegou isolada. Ela é o ponto alto de uma série de reclamações sobre as condições da custódia. Dias antes, a defesa já havia solicitado providências sobre o “ruído contínuo e permanente” do ar-condicionado central do prédio da PF, que atrapalharia o sossego do ex-presidente. A polícia, em resposta, reconheceu o barulho, mas alegou que não é possível eliminá-lo com medidas simples, tampouco transferi-lo de sala.

O episódio mais grave ocorreu na madrugada do dia 6, quando Bolsonaro passou mal, caiu e sofreu um traumatismo craniano leve ao bater a cabeça em um móvel. O incidente gerou um pedido de remoção hospitalar e acendeu um debate legítimo sobre sua saúde. No entanto, a rápida transição de “traumatismo craniano” para “Smart TV para ver YouTube” é um salto retórico digno de roteirista de Hollywood.

Análise: O Discurso da Dignidade vs. A Realidade Carcerária

A defesa joga no campo da alta retórica: dignidade humana, direito à informação, vínculo com a realidade social. São princípios nobres e inquestionáveis em uma democracia. A ironia fica por conta do contraste abissal entre a defesa intransigente desses direitos para um único preso e a realidade do sistema carcerário brasileiro, onde centenas de milhares sequer têm acesso a ventilação decente, muito menos a um frigobar privativo.

  • Privilégio ou Direito? A cela de 12m² na Superintendência da PF já conta com cama, armários, mesa, frigobar, ar-condicionado, janela e banheiro privativo. Um vídeo divulgado anteriormente chegou a mostrar uma televisão no local. O novo pedido, portanto, não é por um aparelho qualquer, mas por um upgrade tecnológico: uma TV inteligente com acesso à internet.
  • A Cortina de Fumaça do YouTube: A justificativa de que o uso seria restrito a conteúdo jornalístico é ingênua ou mal-intencionada. A plataforma YouTube é um ecossistema completo, onde algoritmos sugerem conteúdo de forma imprevisível. Separar “conteúdo jornalístico” de opinião, entretenimento ou mesmo desinformação é uma tarefa hercúlea, especialmente para uma figura que sempre soube usar as nuances da comunicação digital a seu favor.
  • A Saga do Herói Perseguido: Não é por acaso que, paralelamente a esses pedidos, correm as notícias sobre o filme “Dark Horse”, produção estrangeira que pretenderia retratar Bolsonaro como um “herói” e “improvável vencedor”. A narrativa de vítima perseguida e herói incompreendido precisa ser alimentada. E nada melhor do que uma Smart TV, possivelmente com acesso a streaming, para assistir à própria cinebiografia estrelada por Jim Caviezel (o Jesus de “A Paixão de Cristo”) quando ela for lançada.

O Veredito da Corte da Opinião Pública

Enquanto aguarda a decisão de Alexandre de Moraes, que solicitou a manifestação da PGR em cinco dias, o caso já recebeu seu primeiro julgamento: o da opinião pública. O pedido é um presente satírico para comentaristas e memes, que não perdoarão a imagem de um ex-presidente condenado por crimes contra a democracia solicitando um pacote de conforto que inclui desde a bênção de um bispo até a Netflix (implícita no acesso a streaming).

No fim, a cela da PF se torna um palco perfeito para o Brasil contemporâneo: um lugar onde questões sérias de justiça, saúde e direito se misturam com o surrealismo político, o culto à personalidade e uma boa dose de esperteza processual. A defesa, é claro, só está fazendo seu trabalho. Mas é um trabalho que, sem querer, escreve a mais precisa e sarcástica crítica sobre os privilégios de uma casta que nunca realmente aterrisou no país real.

Com informações de: noticias.uol.com.br, oglobo.globo.com, cnnbrasil.com.br, g1.globo.com, cartacapital.com.br, gazetadopovo.com.br ■

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