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Brasil se recusa a assinar declaração do Mercosul sobre Venezuela
Cúpula do bloco em Foz do Iguaçu expõe cisão entre Brasil e Argentina sobre política externa e presencia frustração com novo adiamento da parceria comercial com a União Europeia, agora prevista para janeiro
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 22/12/2025

Em uma cúpula marcada por desalinhamentos, o Brasil optou por não assinar um comunicado do Mercosul sobre a Venezuela durante a 67ª Reunião de Chefes de Estado, realizada neste sábado (20) em Foz do Iguaçu. A decisão ocorreu em um contexto de profunda divisão no bloco sobre como responder à crescente pressão militar dos Estados Unidos sobre o governo de Nicolás Maduro e à nova postura de Washington na região, que inclui um acordo militar com o Paraguai. Paralelamente, os líderes manifestaram desapontamento com o novo adiamento da assinatura do acordo de livre-comércio com a União Europeia, um dos principais objetivos do encontro.

O acordo com a Europa: um adiamento e muito desapontamento

A cúpula, cuja data e local foram escolhidos estrategicamente para a esperada celebração do pacto com os europeus, teve que se contentar com um comunicado de frustração. Após quase 25 anos de negociações, a assinatura foi adiada para janeiro de 2026, principalmente devido à resistência de França e Itália.

Os motivos do adiamento incluem:

  • Protecionismo agrícola europeu: França e Itália exigem mais salvaguardas para seus agricultores, que temem a concorrência de produtos sul-americanos.
  • Protestos e pressão interna: Milhares de agricultores europeus foram às ruas de Bruxelas para protestar contra o acordo.
  • Processo de aprovação complexo: Dentro da UE, o acordo precisa de uma maioria qualificada no Conselho Europeu e, posteriormente, do aval do Parlamento Europeu, onde também existe resistência.

Os presidentes do Mercosul descreveram o texto negociado como “um equilíbrio cuidadosamente alcançado” e afirmaram confiar que a UE concluirá seus trâmites internos. O presidente Lula expressou otimismo, acreditando que a Itália poderá resolver seus “constrangimentos políticos” internos em algumas semanas.

A Venezuela e a sombra da intervenção: uma cisão profunda

O tema que mais polarizou a cúpula foi a resposta à crise venezuelana e à escalada militar norte-americana na região. A falta de consenso levou à divulgação de dois posicionamentos públicos e contraditórios entre os principais líderes do bloco.

  1. Posição do Brasil (Lula): O presidente brasileiro foi direto ao alertar sobre os riscos de uma intervenção. “Uma intervenção armada na Venezuela seria uma catástrofe humanitária para o hemisfério e um precedente perigoso para o mundo”, declarou, condenando as ameaças dos EUA. Lula defendeu uma solução pacífica e se ofereceu como mediador.
  2. Posição da Argentina (Milei): Em discurso na sequência, o presidente argentino fez um elogio explícito à política de força. “A Argentina saúda a pressão dos Estados Unidos e de Donald Trump para libertar o povo venezuelano”, disse, referindo-se a Maduro como “narcoterrorista” e endossando a retórica de Washington.

Foi nesse clima que um grupo de países, liderado pela Argentina, elaborou um comunicado à parte, sem a menção às tensões com os EUA. O governo brasileiro avaliou que assinar o texto poderia ser interpretado como um aval a uma ação militar norte-americana, motivo pelo qual se recusou a subscrevê-lo, assim como o Uruguai. O comunicado foi assinado por Argentina, Paraguai, Panamá e por autoridades da Bolívia, Equador e Peru.

O pano de fundo estratégico: a nova presença dos EUA

A divisão no Mercosul reflete uma realidade geopolítica mais ampla. A tensão não é apenas retórica, mas parte de uma reorientação estratégica do governo Trump para a América Latina, que recupera elementos da Doutrina Monroe. A nova estratégia de segurança nacional dos EUA prevê:

  • Ampliar o monitoramento de rotas marítimas e conter a migração irregular.
  • Combater cartéis com uso de força letal, se necessário.
  • Estabelecer ou ampliar o acesso militar a locais estratégicos.

Nesse contexto, a assinatura de um Acordo de Estatuto de Forças entre EUA e Paraguai na semana anterior à cúpula ganhou importância crucial. O pacto estabelece as bases legais para a atuação de militares norte-americanos no território paraguaio, formalizando uma presença que preocupa principalmente o Brasil.

Consequências e caminhos futuros para o Mercosul

A cúpula deixou claro que, além da divergência política, o Mercosul enfrenta o risco concreto de perder uma oportunidade histórica de integração com a Europa. Especialistas avaliam as possibilidades:

  • Impacto do fracasso do acordo com a UE: Enquanto o agronegócio brasileiro, alvo dos temores europeus, tem mercados alternativos como a China, a indústria nacional seria a mais prejudicada, perdendo chance de se integrar a cadeias globais de valor.
  • Busca por novos mercados: Caso o acordo com a UE naufrague, o bloco já mira alternativas como Emirados Árabes Unidos, Canadá e a expansão de acordos com países asiáticos.
  • Futuro da integração: Apesar das divergências, a busca por novos acordos comerciais é um interesse comum que pode manter o bloco coeso, ainda que uma integração política mais profunda pareça distante.

A presidência temporária do Mercosul agora passa do Brasil para o Paraguai, que herdará não apenas a agenda comercial pendente, mas também a complexa tarefa de administrar as profundas fissuras expostas em Foz do Iguaçu.

Com informações de: noticias.r7.com, g1.globo.com, poder360.com.br, terra.com.br, cartacapital.com.br, dnoticias.pt, pt.euronews.com, dw.com ■

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