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Após denúncia, TikTok remove conteúdo que romantiza casamento infantil
Reportagem do G1 destacou hashtags e vídeos publicados por menores de idade e suas rotinas; medida da plataforma, no entanto, é considerada insuficiente
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 02/12/2025

Após uma reportagem do site G1 revelar a viralização de vídeos de adolescentes usando hashtags como #casadaaos14, a plataforma TikTok removeu parte desses conteúdos. Especialistas, no entanto, alertam que a medida é insuficiente e que a romantização do casamento infantil, prática ilegal no Brasil, permanece como um desafio complexo nas redes sociais .

O Fenômeno Virtual e a Realidade Invisível

A reportagem original identificou vídeos com milhões de visualizações nos quais meninas, algumas aparentando menos de 16 anos, exibiam rotinas conjugais domésticas, marcando hashtags específicas. Frases como "montando a marmita do marido" ou "mini rotina, casada e grávida aos 14 anos" ilustravam o conteúdo, que se enquadra no estilo "lifestyle" . Para Mariana Zan, do Instituto Alana, esse material romantiza e naturaliza uma grave violação de direitos, apresentando-a como aceitável ou desejável .

Essa exposição virtual reflete uma realidade brasileira alarmante. Dados do Censo 2022 do IBGE indicam que 34 mil crianças e adolescentes entre 10 e 14 anos viviam em união conjugal, sendo 77% meninas . Apesar de o casamento civil ser ilegal antes dos 16 anos, essas uniões informais estão frequentemente associadas a um ciclo de vulnerabilidade, evasão escolar, gravidez precoce e violência .

A Reação Tardia da Plataforma e suas Lacunas

Após a publicação da reportagem, o TikTok agiu, mas de forma parcial:

  • Remoção Seletiva: As hashtags específicas citadas (#casadaaos13, #casadaaos14, #casadaos15) foram bloqueadas em buscas, e alguns vídeos e perfis foram derrubados .
  • Conteúdo Residual: Variações como #casadaaos14anos continuaram ativas, e vídeos originalmente marcados com as hashtag retiradas permaneceram no ar, apenas sem a tag de identificação .
  • Resposta Automatizada: Especialistas apontam que a ação se limitou a uma "desindexação", removendo o conteúdo dos mecanismos de busca, mas sem uma varredura proativa mais ampla .

Raquel Saraiva, presidente do IP.rec, critica a falta de proatividade: "A medida é importante, mas continua sendo uma medida falha" . A limitação dos sistemas de moderação, eficazes contra conteúdo explícito (como nudez), mas cegos a nuances culturais e contextos danosos, é apontada como uma falha crítica .

O Quadro Legal e a Responsabilidade das Plataformas

O caso ocorre em um momento de maior pressão regulatória sobre as redes sociais no Brasil:

  1. ECA Digital: Sancionado em setembro de 2025, estabelece obrigações para provedores de serviços digitais na proteção de crianças e adolescentes .
  2. Ação da ANPD: Em novembro de 2024, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados instaurou um processo contra o TikTok por tratamento irregular de dados de menores, ordenando a desativação do "feed sem cadastro" e um plano de conformidade .
  3. Responsabilidade Compartilhada: A Constituição Federal estabelece o dever da família, do Estado e da sociedade em garantir os direitos de crianças e adolescentes, um princípio que, segundo especialistas, se estende às plataformas digitais .

Além do Engajamento: A Busca por Afirmação em um Contexto de Vulnerabilidade

Analistas explicam que a motivação por trás dos vídeos vai além da simples busca por likes. Para Raquel Saraiva, há uma necessidade de afirmação e validação social por parte das jovens, que apresentam a união precoce como uma escolha própria . No entanto, essa narrativa individual mascara um fenômeno social complexo. Viviana Santiago, da Oxfam Brasil, destaca que o casamento infantil muitas vezes é visto como uma "solução moral" para problemas como gravidez na adolescência, pobreza ou violência intrafamiliar, tornando-o um fenômeno "invisível" .

Conclusão: Uma Batalha que vai Além das Hashtags

A remoção pontual de hashtags pelo TikTok após a exposição jornalística é um passo, mas está longe de resolver o problema. Ele evidencia o descompasso entre a moderação automatizada e a complexidade de conteúdos que perpetuam violações de direitos de forma sutil. A solução exigiria um esforço conjunto mais robusto, que inclui:

  • Mecanismos de moderação proativos e contextualizados pelas plataformas.
  • Aplicação efetiva das novas leis digitais.
  • Políticas públicas que ataquem as causas profundas do casamento infantil, como a vulnerabilidade social e a desigualdade de gênero.

Enquanto isso, a romantização do casamento infantil segue encontrando brechas para se espalhar nas redes, desafiando a sociedade a enxergar a violência por trás da fachada de uma rotina doméstica viral .

Com informações de: G1, Agência Brasil ■

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