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Família Bolsonaro e aliados entram em rota de colisão por candidaturas estaduais
Enquanto Michelle Bolsonaro pede que discussões presidenciais sejam adiadas e atua em bastidores, aliados pressionam por definições e divergem sobre estratégia eleitoral nos estados. O caso do Ceará, com a aproximação de Ciro Gomes, ilustra a complexidade dos arranjos
Politica
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■   Bernardo Cahue, 01/12/2025

A insistência do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) em figurar como candidato em 2026, mesmo com inelegibilidade consolidada, e as movimentações de sua família para controlar palanques estaduais estão gerando atritos com lideranças da direita e do chamado Centrão. Enquanto parlamentares e dirigentes partidários pressionam por uma definição rápida de um nome viável para disputar a Presidência, o núcleo familiar bolsonarista age para manter o protagonismo político e influenciar decisões locais, criando um cenário de tensão e “falas desencontradas”.

O desconforto da direita e a pressão por um plano B

Em conversas reservadas, lideranças da direita e do Centrão manifestam resistência aos planos de Bolsonaro. O temor é que a demora em admitir outra candidatura possa custar a eleição de 2026, numa repetição do que ocorreu com o PT em 2018, quando Lula manteve sua pré-candidatura até ser barrado pelo TSE. A denúncia da Procuradoria-Geral da República, que coloca Bolsonaro no centro de uma tentativa de golpe, aumentou o desconforto entre aliados.

Por isso, há uma cobrança crescente para que um nome substituto seja definido ainda em 2025. Presidentes de partidos como PP e Republicanos publicamente defenderam um prazo até o fim deste ano para essa decisão. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é o principal nome apontado por essas lideranças para aglutinar a direita, seguido por outros governadores como Ratinho Jr (PSD-PR) e Romeu Zema (Novo-MG).

  • Resistência de Bolsonaro: O ex-presidente se mostra irritado e reativo a conversas sobre sucessão, acusando aliados de traição. Seu entorno familiar reforça essa postura.
  • Preocupação estratégica: Aliados temem que, ao seguir adiando a definição, Bolsonaro repita a estratégia de 2018 e, na última hora, lance um familiar, como a ex-primeira-dama Michelle ou o deputado Eduardo Bolsonaro, opção rejeitada pelos partidos de centro-direita.
  • Cenário frágil: Cientistas políticos avaliam que a investigação da trama golpista fragiliza Bolsonaro, mas que construir uma candidatura competitiva sem seu apoio também é um caminho difícil para a direita.

Michelle Bolsonaro no centro das tensões

Recentemente, Michelle Bolsonaro tem assumido um papel de maior destaque político, atuando como uma das vozes autorizadas do entorno familiar e interferindo em debates sobre a estratégia eleitoral. Em uma reunião fechada com a bancada do PL, ela se emocionou, chorou e fez um apelo para que não fossem antecipadas as discussões sobre a escolha do candidato presidencial de 2026.

Sua atuação, no entanto, não se limita a apelos. Michelle também tem pressionado por espaço para candidaturas femininas dentro do partido. Em Santa Catarina, por exemplo, ela defende a candidatura da deputada Carol De Toni ao Senado, enquanto a cúpula do PL prioriza o vereador carioca Carlos Bolsonaro, filho do ex-presidente, para a vaga. A defesa de Michelle coloca-a em desacordo direto com o enteado.

Internamente, sua posição como presidente do PL Mulher e a preferência do ex-presidente lhe dão influência. Aliados chegaram a ser orientados a submeter declarações públicas sensíveis à sua anuência, num esforço de organizar uma reação unificada após a prisão de Bolsonaro.

A montagem dos palanques estaduais e o caso do Ceará

O núcleo bolsonarista tem justificado suas escolhas para o Senado com base em uma agenda nacional, priorizando estados considerados-chave para formar uma maioria que possa, por exemplo, aprovar impeachment de ministros do STF. Essa lógica, porém, frequentemente ignora interesses e acordos locais, gerando atritos.

O cenário no Ceará é um exemplo emblemático dessa dinâmica e da abertura da direita a alianças inusitadas. O ex-ministro e ex-candidato presidencial Ciro Gomes, após sua sétima mudança de partido – agora para o PSDB –, vem se aproximando abertamente do bolsonarismo estadual.

  1. Aproximação com figuras bolsonaristas: Em seu evento de filiação, Ciro fez elogios efusivos ao deputado federal André Fernandes (PL), uma estrela do bolsonarismo no Nordeste, e compartilhou o palco com outros nomes da direita local.
  2. Discurso antagônico ao PT: Em suas falas, Ciro atacou o governador petista Elmano de Freitas e o ex-governador Camilo Santana, sinalizando uma disposição de ser o nome forte para enfrentar o PT no estado em 2026.
  3. Aval de Bolsonaro: Segundo o deputado André Fernandes, a ideia de uma aliança com Ciro Gomes no Ceará foi levada ao ex-presidente Jair Bolsonaro, que teria autorizado as movimentações.

Ciro, que se declarou “soldado do partido”, deixou em aberto se terá uma missão de abrangência estadual ou nacional em 2026, mantendo uma aura de mistério sobre seus planos. Essa movimentação atende a um interesse mútuo: Ciro busca uma base partidária e aliados fortes no estado, enquanto a direita vê nele um candidato viável para desbancar o petismo e puxar votos para suas candidaturas ao Senado, como a do pastor Alcides Fernandes (PL).

Os riscos da estratégia e os caminhos para 2026

A interferência direta na montagem das chapas estaduais, contudo, traz riscos eleitorais concretos para o próprio campo bolsonarista:

  • Descontentamento local: A imposição de nomes de fora dos estados, como Carlos Bolsonaro em Santa Catarina, gera insatisfação em bases locais e pode levar a candidaturas dissidentes que dividam a votação.
  • Fragilização de acordos: A prioridade a uma agenda nacional pode romper acordos pragmáticos com o Centrão, essenciais para eleger um grande número de parlamentares.
  • Falta de unidade: A existência de várias lideranças competitivas, como Tarcísio, Ratinho Jr., Zema e até Ciro Gomes, é sinal de força eleitoral, mas também de fragmentação, exigindo uma articulação complexa para 2026.

Enquanto isso, a pressão do Centrão por uma chapa competitiva continua. Pesquisas e avaliações técnicas indicam que a chapa mais forte para a centro-direita teria Tarcísio de Freitas como candidato a presidente e Michelle Bolsonaro como vice, combinando capacidade de agregação partidária e apelo ao núcleo duro bolsonarista. A resistência do entorno de Bolsonaro a esse cenário, no entanto, mantém o impasse e as tensões que devem definir os rumos da oposição nos próximos meses.

Com informações de: Folha, Gazeta do Povo, CNN Brasil, Diário do Nordeste, O Globo, Estadão, Veja■

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