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Uma parede invisível de tensão se ergueu sobre o Caribe. Enquanto navios de guerra dos EUA realizam exercícios anfíbios e bombardeiros sobrevoam a costa, uma barreira eletrônica interrompe sinais de GPS, forçando voos comerciais a desviar da Venezuela. Esta é a face mais visível de uma campanha de pressão multifacetada ordenada pelo governo Trump contra o regime de Nicolás Maduro, uma estratégia que especialistas descrevem como uma guerra psicológica e "falsa guerra" que opera fora dos ritos diplomáticos tradicionais.
O governo Trump multiplicou a divulgação de imagens de exercícios militares no Caribe, mais que quadruplicando o material publicizado entre agosto e novembro de 2025, em comparação com o início do ano. Os vídeos e fotos, amplamente disseminados, mostram:
Para Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF e pesquisador de Harvard, essa divulgação "é notória e não deve passar despercebida". Ele argumenta que, no contexto atual, esses exercícios já são uma demonstração de força com efeitos políticos reais, servindo como um elemento central no jogo psicológico entre Trump e Maduro.
O cenário se complica com o aumento significativo da interferência de GPS no espaço aéreo venezuelano. Especialistas relacionam o fenômeno a atividades militares, observando que "altos níveis de interferência de GPS estão geralmente associados a zonas de conflito militar". Essa degradação do sinal, que impacta a navegação aérea comercial, atua como mais uma camada de pressão e instabilidade, tornando os céus da Venezuela uma zona cada vez mais proibida.
A abordagem de Trump vai além das manobras militares tradicionais. Surpreendentemente, ele confirmou publicamente a autorização para que a CIA realizasse missões secretas na Venezuela. Analistas veem nessa exposição uma tática calculada. "A intenção ao evidenciar operações de inteligência é estimular delação e traição. Eles buscam identificar e cooptar indivíduos dispostos a trair o grupo, seja em troca de proteção, dinheiro ou imunidade", explica o analista venezuelano Ricardo Salvador De Toma-García.
Maurício Santoro, cientista político da UERJ, complementa: "O cenário ideal para os EUA seria se houvesse ali uma dissidência no âmbito dos militares venezuelanos, e eles depusessem Maduro sem precisar ter qualquer tipo de operação militar para isso". A publicidade dada às operações secretas e aos movimentos militares é, portanto, um componente essencial da estratégia midiática para fraturar o regime chavista a partir de dentro.
Os Estados Unidos justificam sua ofensiva como uma guerra ao narcotráfico, alegando que a Venezuela, sob Maduro, é um Estado narcotraficante. Trump chegou a declarar que cada barco afundado "salva 25.000 vidas americanas". No entanto, essa narrativa é posta em xeque por investigações jornalísticas e especialistas.
Uma reportagem da Associated Press, ao investigar a identidade das vítimas dos ataques a embarcações, descobriu que entre os mais de 60 mortos havia um pescador que lutava para sobreviver com US$ 100 por mês, um motorista de ônibus e outros moradores de vilarejos pobres da costa venezuelana. Familiares e conhecidos relataram que esses homens, embora de fato transportassem drogas em alguns casos, não eram "narcoterroristas" ou líderes de cartel, mas pessoas em situação de vulnerabilidade econômica que realizavam o trabalho por valores em torno de US$ 500 por viagem.
Phil Gunson, analista do International Crisis Group, foi categórico ao afirmar ao The New York Times que o "Cártel de los Soles" – citado pelos EUA como justificativa para a designação terrorista – "não existe" como organização formal. Trata-se, segundo ele, de um termo pejorativo cunhado há décadas por jornalistas para se referir a militares corruptos, e que permaneceu como uma "espécie de etiqueta de brincadeira". Michelle Goldberg, do mesmo jornal, caracteriza o conflito como uma "falsa guerra" que corre o risco de se tornar real.
A campanha americana opera em um espaço ambíguo, fora dos protocolos diplomáticos convencionais. Trump ameaçou explicitamente ações terrestres, afirmando que ações "por terra é mais fácil, e isso vai começar muito em breve". Enquanto isso, Maduro respondeu colocando a força aérea em estado de prontidão e realizando simulações para interceptar aviões e tropas invasoras.
Paralelamente às ameaças, canais de comunicação informais permanecem abertos. O jornal O Globo relata que, nos bastidores, Maduro chegou a oferecer aos EUA o monopólio sobre a exploração de recursos energéticos e minerais da Venezuela, além de pedir para permanecer no poder por até três anos antes de renunciar – proposta que foi rejeitada por Trump. Essa dupla face – a publicidade das ameaças e o sigilo das negociações – caracteriza uma pressão que não se limita aos ritos diplomáticos formais.
A estratégia dos EUA contra a Venezuela sob o governo Trump se configura como um complexo exercício de guerra híbrida. Ela funde elementos militares, psicológicos, midiáticos e diplomáticos em uma campanha de coerção que tem como objetivo final a mudança de regime em Caracas. Enquanto a demonstração de força naval e aérea visa minar a confiança das Forças Armadas venezuelanas, a guerra de informações e as operações secretas buscam semear a discórdia no interior do chavismo.
No entanto, esta abordagem carrega riscos enormes. Os ataques a embarcações, classificados por organizações de direitos humanos e pelo embaixador venezuelano na ONU como execuções extrajudiciais, mancham a legitimidade da operação. A escalada militar, mesmo que inicialmente circunscrita a uma "guerra psicológica", pode facilmente transcender para um conflito armado aberto por um erro de cálculo de qualquer uma das partes. O resultado é a instabilidade não apenas para a Venezuela, mas para toda a América do Sul, uma região que, como lembrou o presidente Lula, aspira ser uma "zona de paz".
Com informações de: DW, G1, The New York Times, DN, O Globo, UOL, BBC ■