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Líder Guarani Kaiowá é assassinado durante ataque de pistoleiros no MS
Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, foi morto com um tiro na testa no último domingo (16). Comunidade sofre com a paralisação do processo de demarcação de suas terras há mais de uma década
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 16/11/2025

Um indígena da etnia Guarani Kaiowá foi assassinado com um tiro na testa durante um ataque atribuído a pistoleiros contra a retomada Pyelito Kue, no município de Iguatemi (MS), no último domingo (16). A vítima foi identificada como Vicente Fernandes Vilhalva, de 36 anos, descrito por sua comunidade como um guerreiro e porta-voz na luta pelos direitos dos povos indígenas. Pelo menos outros quatro indígenas ficaram feridos no ataque.

O ataque ocorreu entre 4h e 5h da manhã, realizado por aproximadamente 20 homens armados que, de acordo com relatos das lideranças, "já chegaram atirando". Os agressores também incendiaram e destruíram barracos de lona e pertences dos indígenas com um trator. Houve ainda uma tentativa de levar o corpo de Vicente, que foi impedida pelos próprios Guarani Kaiowá.

Além da violência, a comunidade enfrenta o isolamento. Indígenas denunciam que uma ponte que dá acesso à área foi interditada por fazendeiros da região, o que atrasou a chegada das autoridades ao local do crime. A Força Nacional de Segurança Pública (FNSP) só chegou a Pyelito Kue por volta das 9h, aproximadamente quatro horas após os tiros cessarem.

Contexto do Conflito: A Longa Espera pela Demarcação

O ataque não é um incidente isolado, mas sim o ápice de uma série de violências em um conflito fundiário arraigado. A Pyelito Kue está localizada na Terra Indígena Iguatemipeguá I, uma área de 41.714 hectares que foi delimitada pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) ainda em 2013. No entanto, o processo de demarcação está parado desde então, travado na burocracia e em disputas judiciais.

As cerca de 120 famílias de Pyelito Kue vivem atualmente confinadas em uma aldeia de apenas 97 hectares, estabelecida por um acordo judicial de 2014. De acordo com os indígenas, a área é insuficiente para plantar e garantir sua subsistência, o que os levou a retomar um pedaço de seu território tradicional, agora ocupado pela Fazenda Cachoeira.

Esta fazenda está arrendada por duas empresas de exportação de carne: a Agropecuária Santa Cruz e a Agropecuária Guaxuma. Um advogado de uma das empresas afirmou, em novembro, que a companhia "desconhece o conflito na região" e "não possui qualquer tipo de segurança na propriedade arrendada".

Histórico de Violência e Tensão Crescente

O assassinato de Vicente é o quarto ataque registrado contra a retomada de Pyelito Kue apenas no mês de novembro. Os ataques anteriores, ocorridos entre os dias 3 e 5 do mesmo mês, deixaram um saldo de quatro indígenas feridos por balas de borracha e duas crianças machucadas.

A tensão fundiária na região do Mato Grosso do Sul tem se agravado de forma constante. No final de outubro, um conflito na Terra Indígena Guyraroká, em Caarapó (MS), foi iniciado após o sequestro de uma jovem indígena de 17 anos, que teve fortes indícios de ter sofrido abuso sexual por um grupo de homens armados e encapuzados.

Falta de Segurança e Reação do Governo

Apesar da presença da Força Nacional na região desde o início de novembro, os agentes realizam patrulhas pontuais, sem uma presença fixa e contínua na área de conflito, o que deixa a comunidade vulnerável contra agromilicianos.

Em resposta à escalada de violência, o governo federal criou um Grupo de Trabalho Técnico (GTT) interministerial no dia 3 de novembro. Coordenado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, o grupo tem a finalidade de elaborar diagnósticos para mediar conflitos fundiários envolvendo povos indígenas no sul de Mato Grosso do Sul.

O juiz Leador Machado, coordenador do GTT, afirmou que está acompanhando a situação de Pyelito Kue e que incluirá o assassinato no relatório do grupo. "Acredito que nossa contribuição seja incluir também essa matança no relatório, como forma de destacar a gravidade e a necessidade de uma intervenção mais coordenada do governo federal a fim de evitar esse verdadeiro genocídio", destacou.

Um Povo em Luta pelo seu Tekoha

Os Guarani Kaiowá são um dos maiores grupos indígenas do Brasil, com uma população de mais de 30 mil pessoas apenas no Mato Grosso do Sul. Para este povo, o conceito de tekoha é fundamental, significando não apenas a terra física, mas o "lugar onde se é", onde se pratica seu modo de vida e sua espiritualidade.

A luta pela terra tem um custo humano devastador. Em 2012, a situação dos Guarani Kaiowá já era descrita como uma "catástrofe humanitária", com taxas de homicídio maiores do que as de algumas zonas de guerra, como o Iraque, além de problemas como desnutrição infantil e alcoolismo. Naquele mesmo ano, uma carta de outra comunidade Guarani Kaiowá chocou o Brasil ao declarar que estavam prontos para serem mortos e enterrados coletivamente em suas terras, caso fossem expulsos.

O luto em Pyelito Kue é acompanhado por um apelo desesperado. "A luta dos povos indígenas nunca foi fácil. A gente clama e grita pelos nossos direitos, mas sempre tem derramamento de sangue", disse Xe Ryvy Rendy'i, um indígena da comunidade. "Peço a todas as autoridades que venham demarcar nossa terra. Olha como estamos. Queremos nosso território".

Com informações de: Global Voices, Cimi, Repórter Brasil, Wikipedia, Instituto Socioambiental. ■

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