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O presidente do Equador, Daniel Noboa, tornou-se o centro de uma crise política e social de proporções alarmantes. Nos últimos dois meses, o mandatário foi alvo de pelo menos dois tipos distintos de atentados: um ataque físico ao seu veículo durante protestos e uma sofisticada tentativa de envenenamento através de presentes. Esses eventos ocorrem em um contexto de intensos protestos liderados por organizações indígenas contra a eliminação de subsídios ao diesel, medida econômica do governo que inflamou os ânimos no país.
No dia 24 de outubro de 2025, o presidente Daniel Noboa revelou publicamente ter sido vítima de uma tentativa de envenenamento. De acordo com o relato do próprio mandatário, o ataque ocorreu através de um presente recebido durante um evento público na cidade de Babahoyo, no último 17 de outubro.
O presente em questão era uma cesta contendo produtos comestíveis artesanais. O Grupo de Segurança Técnica Presidencial, seguindo os protocolos de rotina, submeteu os itens a uma análise química antes de liberá-los para o consumo. Os exames laboratoriais detectaram a presença de três substâncias altamente tóxicas em concentrações elevadas:
Esses compostos químicos, considerados nocivos para a saúde humana, foram encontrados especificamente em um pote de geleia de tamarindo, uma geleia de chocolate e uma mistela de cacau. Em entrevista à rede CNN, Noboa foi enfático: “Três compostos em uma alta concentração. É impossível que não tenha sido intencional”. Diante da descoberta, a Casa Militar Presidencial formalizou uma denúncia perante o Ministério Público para que o caso seja investigado. Este foi o segundo atentado denunciado pelo governo em um curto espaço de tempo.
Antes do episódio de envenenamento, o presidente Noboa já havia escapado de um ataque violento no dia 7 de outubro. Enquanto se deslocava de carro para um evento na província de Cañar, seu comboio foi interceptado por cerca de 500 manifestantes.
Vídeos divulgados pela própria Presidência do Equador mostram uma cena caótica, com a população avançando em direção aos veículos e lançando uma chuva de pedras. Nas imagens, é possível ouvir os ocupantes dos carros gritando "abaixem a cabeça!" em meio ao barulho de objetos se chocando contra os vidros. As pedras causaram danos significativos, quebrando janelas e trincando para-brisas.
O episódio, no entanto, ganhou contornos mais sérios quando a ministra do Meio Ambiente e Energia, Inés Manzano, afirmou que “marcas de bala” foram encontradas posteriormente no carro do presidente. As autoridades equatoranas reagiram com rigor: cinco pessoas foram detidas e serão processadas pelos crimes de terrorismo e tentativa de homicídio.
Os atentados contra Noboa não são eventos isolados, mas sim o ápice de uma crise social que se arrasta há semanas. A faísca que incendiou os protestos foi a eliminação do subsídio ao diesel, decretada pelo governo em setembro.
A medida fez com que o preço do galão de diesel saltasse de US$ 1,80 para US$ 2,80, um aumento de mais de 50% que impactou diretamente setores essenciais da economia, como a agricultura e o transporte. O governo defende a política como necessária, argumentando que o subsídio antigo era economicamente insustentável e desviava recursos que, segundo eles, acabavam no contrabando de combustível e na mineração ilegal. A eliminação do subsídio permitiria uma economia de aproximadamente US$ 1,1 bilhão por ano, valor que Noboa promete realocar para pequenos agricultores e trabalhadores do setor de transporte.
Em resposta, a Confederação de Nacionalidades Indígenas do Equador (Conaie), a maior e mais influente organização indígena do país, convocou uma greve nacional. Eles organizaram marchas, bloquearam estradas e se envolveram em confrontos com as forças de segurança. A Conaie, que tem um histórico de protestos que levaram à queda de três presidentes entre 1997 e 2005, exige que o governo derrogue o decreto e também pede a redução do Imposto sobre Valor Agregado (IVA).
O conflito já teve um custo humano significativo. De acordo com dados oficiais e de ONGs, os protestos resultaram na morte de um civil, em cerca de 150 feridos e na detenção de aproximadamente 100 pessoas. A narrativa sobre quem é o agressor, porém, é profundamente contestada. Enquanto o governo classifica parte das ações dos manifestantes como “atos terroristas” e acusa grupos criminosos, como o venezuelano Tren de Aragua, de estarem infiltrados nos protestos, a Conaie contra-argumenta, denunciando detenções arbitrárias e uma “repressão violenta” por parte do Estado.
Alguns analistas políticos locais começam a questionar a postura do presidente Noboa diante da crise. Eles avaliam que suas incursões em áreas ocupadas por manifestantes, mesmo sabendo dos riscos, podem ter um objetivo político duplo.
Por um lado, essas ações reforçam a narrativa oficial de que o governo é vítima de uma violência irracional, uma imagem que pode ser usada para angariar apoio popular e justificar medidas de exceção. Por outro, a crise serve como pano de fundo para um objetivo político concreto: uma consulta popular marcada para 16 de novembro, com a qual Noboa espera abrir caminho para a convocação de uma Assembleia Constituinte. Em um de seus pronunciamentos, o próprio presidente resumiu a situação: “Ninguém quer que joguem um coquetel molotov, nem um rojão, nem que o envenenem com um chocolate, nem que atirem pedras”.
Para conter a escalada da violência, o governo decretou estado de exceção por 60 dias em 10 das 24 províncias do país, citando “grave comoção interna”. Esta medida, que implica na militarização desses territórios, foi criticada pela Conaie, que a vê como uma tentativa de sufocar a dissidência legítima.
A sequência de ataques contra Daniel Noboa pinta um retrato vívido da profunda instabilidade que assola o Equador. O país se vê dividido entre um governo que justifica suas reformas como um mal necessário para a saúde fiscal da nação e um movimento social massivo que luta contra o aumento do custo de vida e acredita estar sendo violentamente reprimido.
Seja por pedradas e supostos tiros em estradas andinas, seja por produtos químicos dissimulados em doces, a mensagem é clara: a presidência de Daniel Noboa está sob cerco. O desfecho desta crise, que mistura reivindicações sociais legítimas com atos de violência extrema, ainda é incerto. O que resta é uma pergunta que ecoa por todo o país: até que ponto a democracia equatoriana conseguirá resistir a tanta pressão?
Com informações de O Globo, BBC, CNN, G1, Al Jazeera, NTN24, Agência Brasil e DW. ■