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Uma crise geopolítica de grandes proporções se intensifica no Caribe e na América do Sul. De um lado, o governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escalou sua ofensiva militar com uma série de bombardeios a embarcações e a ameaça de ações terrestres contra cartéis de drogas. Do outro, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, fez um apelo público por paz, enquanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em viagem à Ásia, criticou o protecionismo às vésperas de um crucial encontro com Trump. O cenário reacende tensões regionais e coloca o Brasil em uma posição diplomática delicada.
O presidente Donald Trump anunciou nesta quinta-feira (23) que deve realizar ações militares em terra contra cartéis de drogas "em breve". Em conversa com jornalistas, Trump foi contundente: "Bem, não acho que vamos necessariamente pedir uma declaração de guerra. Acho que vamos apenas matar as pessoas que estão trazendo drogas para o nosso país. Certo? Vamos matá-las". O anúncio foi feito um dia após o nono ataque do tipo na América do Sul, um bombardeio a uma embarcação no Oceano Pacífico que, segundo o Departamento de Guerra dos EUA, transportava drogas e resultou em três mortes.
Até o momento, os bombardeios americanos já mataram pelo menos 37 pessoas em nove ataques a embarcações em águas internacionais do Caribe e do Pacífico. A justificativa de Trump é combater o tráfico internacional de drogas, alegando que o problema causa 300 mil mortes por ano nos EUA. No entanto, dados oficiais de 2023 mostram que houve 105 mil mortes por overdose no país, sendo 69% desses casos relacionados ao fentanil, droga que praticamente não tem origem na Venezuela, mas sim no México.
Em resposta à crescente pressão militar, o presidente venezuelano Nicolás Maduro fez um apelo direto em inglês durante um ato público: "Peace, yes peace, forever, peace forever. No crazy war. Não à guerra louca. No crazy war". Maduro referia-se à presença de navios de guerra, caças F-35, um submarino nuclear e cerca de 6,5 mil militares americanos no Caribe, a pouca distância da costa venezuelana.
Enquanto apela pela paz, Maduro também se prepara para um possível conflito. O líder venezuelano abriu o registro na reserva militar e ordenou exercícios militares quase diários. Além disso, anunciou que o país dispõe de 5.000 mísseis antiaéreos portáteis de fabricação russa Igla-S, agradecendo ao presidente Vladimir Putin e à China pelo apoio. O ministro da Defesa da Venezuela, Vladimir Padrino, desafiou as operações dos EUA: "Podem enviar quantos agentes da CIA quiserem em operações secretas por qualquer lado da nação. Qualquer tentativa fracassará".
Enquanto a crise se desenvolve, o presidente Lula se encontra na Ásia, onde criticou o protecionismo às vésperas de um encontro marcado com Donald Trump para domingo (26), na Malásia. Sem mencionar Trump nominalmente, Lula defendeu em discurso na Indonésia: "Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo, nós queremos democracia comercial e não protecionismo".
O presidente brasileiro também propôs a comercialização entre Brasil e Indonésia usando suas respectivas moedas em vez do dólar, uma prática que já havia despertado ameaças de retaliação por parte de Trump. Analistas avaliam que o Brasil se vê em uma posição delicada, precisando equilibrar sua tradicional defesa da não-intervenção e da solução pacífica de crises com a necessidade de negociar com Washington a revogação de tarifas que atingem produtos brasileiros.
Os bombardeios americanos têm sido alvo de fortes críticas de especialistas internacionais. Um grupo independente de especialistas da ONU classificou os ataques como "execuções extrajudiciais" que violam o direito internacional. Eles argumentam que "o uso de força letal em águas internacionais sem base legal adequada viola o direito internacional do mar e equivale a execuções extrajudiciais".
Maurício Santoro, doutor em ciência política, explica que "os militares não são obrigados a cumprir ordens ilegais. Se um piloto lança um míssil contra uma embarcação civil, ele pode ser responsabilizado individualmente por essa conduta". O procedimento correto em casos de suspeita de tráfico, segundo ele, seria uma abordagem feita pela Guarda Costeira, e não ataques diretos da Marinha.
A tensão se estende além da Venezuela. Trump também atacou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, chamando-o de "traficante de drogas ilegal". Petro respondeu chamando Trump de "grosseiro e ignorante". Enquanto isso, Estados Unidos e Trinidad e Tobago anunciaram exercícios militares conjuntos perto das costas venezuelanas, aumentando ainda mais a pressão militar na região.
Com informações de: G1, UOL, Folha de S.Paulo, Agência Brasil, Estadão. ■