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Argentina: povo Mapuche denuncia campanha do Governo para arrebatar seus territórios
Comunidades indígenas enfrentam despejos violentos, criminalização e uma retórica estatal que os classifica como "terroristas", enquanto avançam projetos extrativistas em suas terras ancestrais
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 21/10/2025

O povo Mapuche na Argentina está sob severa pressão do governo do presidente Javier Milei, que iniciou uma ofensiva envolvendo a revogação de proteções territoriais, despejos forçados e uma campanha de criminalização que classifica comunidades e membros indígenas como "terroristas". Organizações de direitos humanos denunciam que essas ações violam garantias internacionais e visam abrir caminho para projetos de mineração e outros empreendimentos extrativistas em territórios ancestrais.

Despejos e Violência em Nome da "Liberdade"

Desde que assumiu o poder, o governo Milei desmantelou estruturas estatais e legais que ofereciam alguma proteção aos povos indígenas. Uma das primeiras medidas foi o fechamento do Ministério de Assuntos Indígenas. Em seguida, derrogou a Lei 26.160, uma normativa fundamental que suspendia os despejos de comunidades indígenas reconhecidas e estabelecia um programa para regularizar seus territórios. Com essa proteção removida, uma onda de despejos foi iniciada.

Em janeiro de 2025, a comunidade Mapuche-Tehuelche Lof Pailako, em Chubut, foi notificada para deixar suas terras "pela força" se não o fizesse voluntariamente. A ministra da Segurança, Patricia Bullrich, celebrou uma dessas ações em um vídeo nas redes sociais, declarando: "Esta é a primeira desocupação de uma série que marcará o fim de uma etapa na qual na Argentina reinava a falta de respeito pela propriedade privada".

Em 11 de fevereiro de 2025, forças de segurança realizaram uma série de operações violentas e simultâneas contra comunidades Mapuche na província de Chubut. Mónica Caño, uma das mulheres da comunidade que sofreu a invasão, descreve a ação: "Eles sentem a liberdade de entrar em nossas casas, de nos maltratar. Quero dizer, que liberdade é essa?". Durante essas incursões, pertences foram apreendidos, famílias foram revistadas à força e uma pessoa, Victoria Fernández Núñez, foi detida.

A Estratégia da Criminalização e o "Terrorismo"

Paralelamente aos despejos, o governo nacional iniciou uma campanha pública para estigmatizar o povo Mapuche. A principal acusação é a de que um grupo denominado Resistência Ancestral Mapuche (RAM) é responsável por incêndios florestais na Patagonia. Com base nessa alegação, o governo incluiu formalmente a RAM no Registro Público de Pessoas e Entidades vinculadas a Atos de Terrorismo e seu Financiamento (RePET).

Essa retórica não se limitou a um grupo específico. A comunidade Mapuche Pillañ Mawiza denunciou que o governo está utilizando o aparato do Ministério da Segurança para difundir a "mentira" de que o povo Mapuche é uma ameaça terrorista, em uma campanha qualificada como "perversa e criminal". Essa estratégia tem consequências concretas: membros da comunidade Lafken Winkul Mapu foram incluídos no RePET, o que resultou no bloqueio de suas contas bancárias, cortes de programas sociais e uma vigilância constante.

Organizações de defesa dos direitos indígenas alertam que o Estado está diagramando um "apartheid na Patagonia", onde o projeto não busca apenas o despejo, mas o extermínio do povo indígena.

Os Interesses por Trás da Ofensiva: O Extrativismo

Especialistas e líderes Mapuche afirmam que a ofensiva do governo não é aleatória, mas sim motivada pelos recursos naturais presentes em seus territórios. A região da Patagonia, habitada pelo povo Mapuche, é rica em minerais, água e petróleo, incluindo a vasta formação de Vaca Muerta.

Gabriel Jofré, werken (porta-voz) da Organização Malalweche, afirmou que o "avanço das empresas extrativas no território tradicional das comunidades Mapuche baseia-se na falta de reconhecimento estatal efetivo". O governo Milei aprovou a Lei de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), que oferece benefícios fiscais e cambiais para projetos superiores a 200 milhões de dólares, facilitando assim a implantação de megaempreendimentos mineiros em áreas cobiçadas. Um exemplo citado é o Projeto Suyai, uma operação de mineração de ouro que avançaria sobre territórios de comunidades Mapuche.

A Luta nos Territórios e nas Instâncias Internacionais

Diante da falta de respostas no âmbito nacional, as comunidades Mapuche têm recorrido a instâncias internacionais para proteger seus direitos. Em fevereiro de 2025, a comunidade Lof El Sosneado, em Mendoza, submeteu um pedido de medidas cautelares à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) para evitar seu despejo forçado, em um conflito com uma empresa mineradora.

Em julho de 2025, organizações Mapuche levaram seu caso a uma audiência pública na CIDH, denunciando a gravidade da situação. Lorena Bravo, da Confederação Mapuche de Neuquén, destacou que os despejos têm "consequências diretas, incluindo impedir o uso e acesso à terra, a sítios sagrados, impactos na saúde, acesso à água e na economia indígena". As comunidades urgentemente pediram à Comissão que investigue mais a fundo as violações de direitos humanos na interseção entre a indústria extrativa e o despojo territorial.

Com informações de: Earthjustice, TeleSUR, MercoPress, NACLA, Cultural Survival, La Izquierda Diario, AIDA-americas, Business & Human Rights Resource Centre, Facebook. ■

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