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Prêmio Nobel da Paz reacende debate sobre passado golpista e inelegibilidade na Venezuela
A concessão do principal prêmio mundial da paz a uma figura que apoiou ações de força e é alvo de sanções jurídicas em seu país expõe as profundas fissuras e contradições do cenário político venezuelano
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 14/10/2025

A líder opositora venezulana María Corina Machado, reconhecida em 2025 com o Prêmio Nobel da Paz por sua luta por uma transição democrática, é uma figura cuja trajetória é marcada por controvérsias que a colocam no centro de um intenso debate político. Dois pontos, em especial, definem essa polarização: sua inelegibilidade para cargos públicos e sua participação no golpe de 2002 contra o então presidente Hugo Chávez.

Machado, que em 2023 venceu as primárias opositoras com mais de 90% dos votos, está oficialmente impedida de concorrer a cargos públicos. A justiça venezuelana, considerada alinhada ao governo Maduro, a inabilitou por 15 anos em 2021, acusando-a de ter sido partícipe de uma "trama de corrupção" orquestrada por Juan Guaidó e de solicitar sanções internacionais contra o país. A própria Machado rebate, classificando a decisão não como uma sentença, mas como "delinquência judicial". Para seus apoiadores, a inelegibilidade é uma manobra política para eliminar a principal adversária do chavismo. Para o governo, é uma consequência legal por suas ações.

Contudo, a crítica mais severa ao seu Nobel da Paz vem de um episódio mais distante. Em 2002, durante o golpe de Estado que removeu Hugo Chávez do poder por aproximadamente 48 horas, María Corina Machado esteve entre os 300 signatários do "Decreto Carmona". Este documento, que instalou o empresário Pedro Carmona como presidente interino, determinava a dissolução de instituições democráticas como a Assembleia Nacional e a Corte Suprema de Justiça. Este apoio a um movimento que fechou o Congresso é apontado por críticos como uma contradição direta com o espírito do Prêmio Nobel da Paz.

Além disso, sua atuação posterior continua a gerar polêmica. Machado já defendeu publicamente uma "intervenção militar estrangeira" na Venezuela como meio de remover Nicolás Maduro do poder. Em 2019, declarou à BBC que "um regime criminal só sairá do poder ante a ameaça crível, iminente e severa do uso da força". Mais recentemente, apoiou as operações militares ordenadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, no Caribe, classificando-as como uma ação para "salvar vidas".

A história de María Corina Machado é, portanto, um reflexo da complexidade e do antagonismo radical da política venezuelana. Se para o Comitê do Nobel e seus milhões de apoiadores ela é um símbolo de coragem e resistência democrática , para seus críticos, sua trajetória é indissociável de métodos que incluem o apoio a rupturas institucionais e a intervenções externas, manchando o conceito de uma lutadora pela paz. O prêmio, longe de encerrar o debate, joga uma luz ainda mais forte sobre essas contradições.

Com informações de: BBC.com, Brasil de Fato, CNN Brasil, El País, NDTV, Página|12, Veja. ■

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