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Venezuela autoriza aumento no transporte público em meio a disparidade com salários mínimos
Estudo revela que nova tarifa proposta consumiria 1000% do salário mínimo base, destacando crise de acessibilidade mobilidade no país
America do Sul
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■   Bernardo Cahue, 25/09/2025

O gremio de transportistas da Venezuela propôs oficialmente um aumento na tarifa mínima do transporte público para 0,50 dólares, em uma tentativa de equilibrar os custos operacionais diante da hiperinflação e da escassez de peças. A proposta, apresentada ao Ministério do Transporte no final de agosto, ainda aguarda homologação do governo.

Atualmente, a tarifa oficial para rotas de até 10 km está fixada em 25 bolívares, valor que, na prática, já é ignorado pela maioria dos condutores, que cobram entre 30 e 35 bolívares. O último aumento linear, de 7 bolívares em todas as faixas, ocorreu em abril de 2025, representando uma alta média de 26,13%.

Impacto econômico: o abismo entre a tarifa e o salário

Um cálculo simples evidencia a gravidade do impacto sobre a população. Considerando o salário mínimo oficial de 130 bolívares, que equivale a aproximadamente 1 dólar mensal, o custo de uma única passagem com a nova tarifa proposta (0,50 USD) representaria metade do rendimento base de um trabalhador por dia.

  • Cálculo do impacto percentual: Se um trabalhador precisar usar o transporte duas vezes ao dia (ida e volta) por 20 dias úteis, gastaria 20 dólares por mês (40 viagens x 0,50 USD). Comparando esse custo (20 USD) com o salário mínimo base de 1 dólar, o gasto com transporte consumiria 2000% do salário mínimo base.
  • Para um assalariado com bônus: O governo complementa a renda com bonificações, formando um "ingresso mínimo integral" de 160 dólares. Mesmo nesta situação mais favorável, os 20 dólares mensais de transporte representariam 12,5% da renda total, um percentual considerado elevado para um serviço básico.

Esta disparidade explica por que, segundo denúncias do setor, entre 35% e 50% da frota de transporte público está parada, ameaçando levar a população a recorrer a meios de transporte "improvisados e inseguros".

Economia popular e medidas governamentais

Em resposta à crise, o governo anunciou medidas focadas na chamada "economia popular". A vice-presidente Delcy Rodríguez destacou iniciativas para eliminar intermediários em cadeias produtivas como a do café, permitindo que produtores recebam um preço mais justo e os consumidores paguem menos.

O presidente Nicolás Maduro, por sua vez, tem divulgado índices de crescimento econômico. Em pronunciamento, afirmou que a economia real venezuelana cresceu 7,71% do PIB no primeiro semestre de 2025, impulsionada pelos setores de hidrocarburetos (14,99%) e mineração (11,23%).

Perspectivas pós-embargo: um cenário ainda desafiador

Analistas apontam que as sanções econômicas dos Estados Unidos, particularmente o embargo ao setor petrolífero a partir de 2017, aprofundaram uma crise que já estava em curso desde a queda dos preços do petróleo em 2014.

O embargo impactou violentamente a principal fonte de divisas do país, causando:

  • Queda histórica na produção de petróleo, afetando o financiamento de programas sociais.
  • Colapso do sistema de saúde por falta de medicamentos e equipamentos.
  • Hiperinflação e escassez de produtos essenciais, fatores que motivaram um êxodo migratório em massa.

Apesar do tom otimista do governo, a recuperação econômica sustentável pós-embargo ainda é um grande desafio. A dolarização de fato da economia e a inflação galopante continuam pressionando o poder de compra dos venezuelanos, tornando o simples ato de pagar uma passagem de ônibus um cálculo doloroso para a maioria da população.

Com informações de: eldiario.com, Deutsche Welle (DW), Ministerio del Poder Popular para el Comercio Nacional de Venezuela, Reuters, Acceso a la Justicia, Ministerio del Poder Popular para la Comunicación y la Información de Venezuela. ■

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