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Não, eu não enlouqueci
Carta-aberta a colegas colaboradores sobre a inauguração do Imprensa Ética
Artigo
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■   Bernardo Cahue, 13/09/2025

Venho me explicar aqui em forma de artigo - ou crônica histórica, caso assim prefiram - com os colegas mais próximos que acompanharam meu trabalho nos últimos 25 anos. Sim, desde o ano 2000 envolvido direta ou indiretamente com as questões de informação do nosso país, sofrendo inclusive os reflexos da seletividade jornalística onipresente no conglomerado de imprensa - esse sim diretamente responsável pelos movimentos de polarização atualmente existentes e, principalmente, pelas manobras que promovem desinformação, manipulação e exclusão, por um motivo principal: grana.

Passaram-se 13 anos desde que mudei de ares para, por um acaso, constituir família. Essa mudança acabou me afastando da cidade de Niterói, lugar onde estava profundamente engajado em movimentos pela democratização da cultura e das comunicações. Estava próximo de conseguir a formação na faculdade de Jornalismo, já envolto pelas 131 fontes que serviram de base para o meu projeto final - que talvez por acaso discutiu o papel dos meios de comunicação no incidente que vitimou mais de uma dezena de pessoas em 2011 na escola Tasso da Silveira, em Realengo.

"Ele finalmente enlouqueceu".

Não que isso tenha servido de um estado de afastamento, mas a frustração principal chegou no momento crítico. Até cerca de sete anos atrás, o bairro onde vim morar não era coberto por nenhum provedor de internet: estava literalmente isolado, e com o fim de um programa de Governo tive meus proventos pessoais financeiros reduzidos a cerca de 30% do que costumava receber. Tentei retornar às salas de aula em um curso de informática que veio a falir menos de um mês depois de ingressar; 11 meses nas ruas fazendo Uber pelas madrugadas do Grande Rio - até sofrer um assalto que acabou com a minha carreira como motorista profissional.

Com o retorno da internet na minha vida, tentei a reativação de uma paixão: a rádio. Ela continua no ar, sim, e continuará por uma questão mais de gosto e engajamento musical do que de ganhos pessoais. Muitos de todos vocês sabem que eu costumava compor e produzir essas composições quase que imediatamente. Com a rotina, que vinha sufocantemente cobrir todos os espaços de forma abruptamente barulhenta dentro de uma casa cheia - e não somente cheia de gente, mas cheia de necessidades a prover - parei. E lá se vão mais de cinco anos sem produção musical. Mas a rádio permanece, permanecerá e será provida conforme o tempo.

Tempo. Algo que é difícil na rotina, algo que a gente não tem frente a tantas solicitações a serem providas. Chegou o momento em que era necessário ter outra solução mais viável a acessível para contornar o ímpeto na luta por desmistificações, principalmente desse falso caráter "oficial" de um verdadeiro monopólio quase que centenário do nosso país. Em suma, soluções rápidas e enfáticas.

Os últimos dois meses foram determinantes nessa luta. Tudo - acreditem - meio a uma mudança drástica que afetou e ainda afeta todo o núcleo familiar. Pensei: fabrico notícias escritas pela internet, mas estas estavam no lugar errado - publicadas no site da rádio. Precisava de outro ambiente para dar destaque, e principalmente abrir o leque com pessoas confiáveis. Nascia então, a partir de uma conversa por WhatsApp com companheiros de luta, o Imprensa Ética.

A motivação não é pela agressão, e sim pela regulação, por uma normalidade e, principalmente, pela ética que nunca existiu na comunicação de massa brasileira.

Jornalista formado fora do mercado e do conglomerado de imprensa, "vai agora bater no mercado e na imprensa". Opinião pessoal à parte (porque merecem com toda a patifaria fabricada há várias décadas), a motivação não é pela agressão, e sim pela regulação, por uma normalidade e, principalmente, pela ética que nunca existiu na comunicação de massa brasileira. E, diante da possibilidade de fazê-lo sem a necessidade de um capital de giro inicial, resolvi - com o perdão da ênfase - não enlouquecer.

Num momento crítico de enxurradas de estratégias de desinformação e conspirações capazes de minar o Estado Democrático de Direito, era preciso fazer alguma coisa. Nosso momento de polarização, inclusive atual porém mais arrefecido e numa perspectiva de evolução, necessita de ferramentas de resistência.

Não, eu não enlouqueci. Apenas me oportunizei a um posicionamento necessário.■

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