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Empresas condenadas por coação eleitoral ofereciam pernil, ameaças e voto de cabresto
Levantamento inédito revela 30 condenações na Justiça do Trabalho por assédio sistêmico; práticas remontam ao coronelismo e atacaram liberdade democrática em favor de Jair Bolsonaro
Politica
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■   Bernardo Cahue, 18/08/2025

Um esquema de pressão empresarial para manipular votos em favor de Jair Bolsonaro (PL) nas eleições de 2022 resultou em ao menos 30 condenações judiciais, conforme revela levantamento da Justiça do Trabalho. Empresas de diversos estados brasileiros utilizaram táticas que incluíam ameaças de demissão, promessas de folga remunerada e até distribuição de peças de pernil como moeda de troca por votos no então presidente – prática ilegal conhecida como assédio eleitoral.

As condenações, em primeira ou segunda instância, expõem um padrão de intimidação hierárquica que ecoa o voto de cabresto da República Velha (1889-1930), quando "coronéis" controlavam o eleitorado. Para a professora de direito Eneida Desiree Salgado (UFPR), tais práticas "colocam em risco a lisura de todo o sistema democrático".

Casos emblemáticos de barganha e coerção:

  • Pernil como propina: O Frigorífico Serradão (MG) distribuiu camisetas amarelas com slogans de Bolsonaro e prometeu uma peça de pernil a quem comprovasse o voto no candidato. Juízes constataram vídeos com "uniformização amarela imposta" nas dependências da empresa;
  • Demissão por posicionamento: Na Sada Bioenergia (MG), um motorista de 64 anos foi demitido após 12 anos de serviço por recusar-se a usar adesivo de Bolsonaro. Ele declarou ser eleitor de Lula ao encarregado que distribuía material;
  • Ameaças coletivas: A Transben Transportes (PR) enviou vídeo aos funcionários alertando: "Se Lula ganhar, vai ter desemprego. Nossa empresa vai sofrer". Ofereceu "auxílio" para motoristas que votassem em Bolsonaro;
  • Guerra espiritual: No Espírito Santo, a Febracis coagiu uma auxiliar administrativa afirmando que a eleição era uma "guerra espiritual" onde Bolsonaro era "enviado de Deus" e Lula, "o Diabo".

Dados alarmantes do Ministério Público do Trabalho (MPT) mostram que as denúncias (3.145) são só a "ponta do iceberg", já que vítimas temem represálias. Uma pesquisa Datafolha de 2022 indicou que 4% dos eleitores sofreram assédio – o equivalente a 6,4 milhões de pessoas.

As táticas extrapolaram as relações trabalhistas. No Rio Grande do Sul, empresas como a Stara e a Extrusor enviaram cartas a fornecedores ameaçando cortar até 30% dos investimentos ou fechar unidades físicas caso Lula vencesse. No Pará, um empresário de cerâmica filmou-se oferecendo R$ 200 por funcionário se Bolsonaro vencesse – depois firmou TAC com multa de R$ 150 mil.

O MPT assinou 560 termos de ajuste de conduta e moveu 105 ações civis. Entre as penalizadas está a SLC Agrícola (PI), condenada a pagar R$ 100 mil por escalar 34 funcionários para trabalhar longe de zonas eleitorais no 2º turno – onde Lula teve 74% dos votos.

As empresas condenadas negam irregularidades. A Agronelli (MG), que colava adesivos de Bolsonaro em computadores e anunciava demissões se o PT vencesse, declarou à Justiça: "Nunca coagimos o voto". Já Bolsonaro, inelegível até 2030 e em prisão domiciliar, aguarda julgamento no STF por tentativa de golpe.

Contexto de desestabilização: Essas práticas ocorreram num cenário onde o próprio Bolsonaro ameaçou repetidas vezes não aceitar resultados eleitorais. Entre julho e agosto de 2022, ele declarou sete vezes que "não haverá eleição" sem voto impresso – sistema que especialistas consideram desnecessário pela segurança das urnas eletrônicas.

Com informações de: Folha UOL, CNN Brasil, Veja, Piauí, EM.com, Correio do Povo, Agência Pública, G1

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