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O noticiário dos últimos dias trouxe uma imagem que condensa o paradoxo de qualquer conflito armado. De um lado, a notícia de que os Estados Unidos realizaram uma das operações de resgate mais ousadas de sua história, mobilizando dezenas de aeronaves, centenas de militares e até uma campanha de desinformação orquestrada pela CIA para trazer de volta um piloto de caça abatido sobre o sul do Irã. Do outro, a declaração do comando militar iraniano de que um “novo sistema de defesa aérea” não apenas derrubou o F-15E americano, mas também abateu outras quatro aeronaves — incluindo dois C-130, dois Black Hawk, drones e um A-10 — durante a própria operação de resgate. Entre uma versão e outra, entre o resgate celebrado por Donald Trump e o “fracasso” proclamado por Teerã, há uma pergunta que a imprensa tradicional raramente formula: para quem torcemos nessa guerra?
A resposta mais honesta, ainda que desconfortável, é: torcemos pela segurança, tanto da população civil quanto dos próprios soldados. Torcemos para que nenhum jovem — americano, iraniano, israelense, libanês ou palestino — precise passar pela experiência tortuosa de ser abatido, ferido, escondido em uma fenda na montanha por mais de 24 horas com apenas uma pistola, enquanto forças inimigas se aproximam com recompensas pela sua captura. Torcemos para que ninguém tenha de suportar o horror de ser feito prisioneiro de guerra do lado inimigo, submetido a interrogatórios, isolamento e à incerteza sobre o próprio destino. A Convenção de Genebra, que estabelece direitos mínimos aos prisioneiros de guerra, é frequentemente desrespeitada em conflitos assimétricos como este — e o risco de um piloto americano ser exibido como troféu pelas câmeras da TV estatal iraniana era, segundo analistas, um trunfo político sem precedentes que Teerã não desperdiçaria. Ainda que discordemos da postura de invasão dos EUA e de Israel, ainda que critiquemos os interesses geopolíticos que movem essas potências, não podemos desejar que um ser humano — que ali está cumprindo ordens de seu mandatário nacional — seja torturado ou morto em cativeiro. A humanidade do soldado não se dissolve no uniforme que veste.
Torcemos, igualmente, pelo retorno da dignidade e da soberania dos países envolvidos, em respeito a todas as culturas e às normalidades a que as populações estão acostumadas — por mais que, como observadores externos, possamos discordar de tais realidades aprisionadas. O Irã, por exemplo, opera sob um regime descrito pela ONU como responsável por detenções arbitrárias, execuções sumárias e a repressão violenta de protestos, tendo prendido mais de 2.300 pessoas desde o início da guerra sob acusações nebulosas de “dissidência” e “cooperação com o inimigo”. Trata-se de uma democracia travestida que ainda mantém formato monárquico na figura de um líder supremo inacessível ao voto popular. Já os Estados Unidos, que se apresentam ao mundo como a maior democracia do Ocidente, elegem seus presidentes por meio de um Colégio Eleitoral indireto que já permitiu que candidatos derrotados no voto popular assumissem a Casa Branca — uma “falsa democracia de eleições indiretas” que concentra poder nos chamados “estados-pêndulo” e desconsidera a vontade da maioria. Nenhum dos dois sistemas é exemplar. Nenhum dos dois merece nossa torcida acrítica. Mas os povos — iranianos que sonham com liberdade, americanos que votam e são governados por um sistema imperfeito — merecem respeito e o direito de construir seu próprio futuro, sem bombas estrangeiras decidindo por eles.
Torcemos, sobretudo, pelo respeito mútuo entre os seres humanos contra as políticas de colonização de EUA e Israel. O editorial do jornal francês Le Monde classificou a atual guerra como uma “war of choice” — uma guerra de escolha, não de necessidade — e alertou que o caminho da diplomacia foi efetivamente “enterrado sob as bombas americanas e israelenses”. Enquanto isso, as políticas de colonização na Cisjordânia seguem avançando com a aprovação de 3.400 novos assentamentos, um plano que divide o território palestino ocupado em dois e inviabiliza a criação de um Estado palestino contínuo. Especialistas da ONU e da União Europeia classificaram a medida como um “golpe fatal” à solução de dois Estados. No plano mais extremo, o governo israelense anunciou um projeto para confinar 600 mil palestinos em uma área cercada militarmente no sul de Gaza — um plano que o presidente da Federação Árabe Palestina do Brasil comparou a um “campo de concentração”. Gaza e a Cisjordânia, aos olhos de muitos observadores, já funcionam como enormes campos de concentração ao ar livre, onde a população é sitiada, bombardeada e deslocada à força, enquanto colonos armados invadem aldeias e atiram para matar. Desde o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, seis palestinos foram mortos a tiros em ataques de colonos na Cisjordânia, de acordo com dados do Ministério da Saúde local. A violência dos colonos, como relatam moradores, tornou-se mais brutal e letal: “Eles vêm para matar”.
Torcemos também pela vida das populações que são vítimas da caça ao Hezbollah conduzida por Israel. No último domingo de Páscoa, bombardeios israelenses no Líbano mataram ao menos 11 pessoas, incluindo uma criança de 4 anos, em ataques que atingiram áreas residenciais sem qualquer prova ou indício de que ali houvesse integrantes do Hezbollah. Em Beirute, um prédio residencial foi destruído, matando quatro pessoas e ferindo 39. Mais de um milhão de pessoas já foram deslocadas no Líbano. As forças israelenses anunciaram que “não vão parar” até desarmar o Hezbollah, mas os bombardeios — como mostram os relatos — têm sido feitos sem critérios claros de distinção entre alvos militares e civis. O argumento da “ameaça terrorista” não pode servir de carta branca para bombardear bairros inteiros no Domingo de Páscoa, matando crianças que brincavam em suas casas.
A guerra que vemos hoje no Oriente Médio não é um duelo de mocinhos e bandidos. É uma teia de violências sobrepostas: a violência da invasão americana, que o jornal The Philadelphia Inquirer descreveu como uma “guerra desnecessária que custa aos contribuintes mais de US$ 1 bilhão por dia”; a violência do regime iraniano contra seu próprio povo; a violência da colonização israelense na Cisjordânia; a violência dos bombardeios indiscriminados no Líbano; e a violência silenciosa do cerco a Gaza. O presidente Donald Trump afirmou, em seu pronunciamento à nação, que os EUA fariam o Irã “voltar à Idade da Pedra”. A retórica da aniquilação total, no entanto, raramente produz o que promete. O editorial do jornal Le Monde lembrou que “Teerã transformou o que Trump descreveu como um ‘pequeno desvio’ no início de um lamaçal”. A força bruta, como argumenta um artigo da Folha de S.Paulo, está em crise — e a fantasia de que é possível eliminar o mal pela destruição do outro é “quase infantil, arcaica”.
Diante de tudo isso, nossa torcida é clara e firme:
Esta torcida não é ingênua. Ela reconhece a dureza da realidade: os interesses geopolíticos, as ambições imperiais, as máquinas de propaganda, os crimes de guerra cometidos por todos os lados. O Estado de Israel já foi acusado por relatórios da Human Rights Watch de cometer “crimes de guerra, crimes contra a humanidade, atos de genocídio e limpeza étnica” na Palestina. O regime iraniano foi condenado pela ONU por executar prisioneiros sem devido processo legal. Os Estados Unidos, sob a administração Trump, foram acusados por especialistas jurídicos de colecionar “ameaças de cometer crimes de guerra”. Não há pureza moral em nenhum dos lados. Mas a alternativa à torcida pela vida é a torcida pela morte — e essa, como jornalistas, recusamos.
A guerra, escreveu um editorial do PÚBLICO, “não é de confiança”. E não é mesmo. Por isso, encerramos não com uma previsão de quem vencerá, mas com um desejo: que o piloto resgatado, os soldados que ainda lutam, os civis que se escondem em abrigos improvisados e as crianças que nascerão amanhã em meio ao fogo cruzado possam um dia ler este editorial e se perguntar: “O que foi aquilo tudo? Por que fizeram aquilo conosco?” — e que a resposta seja um espanto genuíno, não uma nova justificativa para mais violência.
Com informações de BBC Brasil, BBC News, G1, O Globo, Folha de S.Paulo, CNN Brasil, Reuters, Associated Press, Agência Brasil, PÚBLICO (Portugal), Estadão, Brasil de Fato, DW Brasil, O Povo, R7, Termômetro da Política, Anadolu Ajans?, The Philadelphia Inquirer, Le Monde, Human Rights Watch, The New York Times, CBS News, The Intercept, Al Jazeera, Agência Lupa, UOL, Desinformante, China.com.cn, Jxnews.com.cn, ocacnews.net, ctDSB, The Paper, QQ News ■