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A comunidade internacional assistiu, nos primeiros meses de 2026, a uma escalada retórica sem precedentes por parte da administração Donald Trump. Embora a sigla MWRA (“Make the World a Rock Again”) não corresponda a um movimento político formalmente constituído, analistas e veículos de imprensa a utilizam para descrever um conjunto coerente de políticas externas que visam, simultaneamente, conter o avanço do BRICS, impor tarifas punitivas a nações em desenvolvimento e ameaçar adversários com a destruição total de suas infraestruturas. Trata-se de uma estratégia que, na prática, propõe um retrocesso civilizatório como instrumento de pressão geopolítica.
O termo ganhou contornos concretos a partir de abril de 2026, quando Trump declarou, em pronunciamento televisionado, que o Irã seria bombardeado “de volta à Idade da Pedra, onde pertence”. A ameaça não foi retórica vazia: o presidente norte-americano anunciou que atingiria “todas e cada uma das usinas geradoras de energia iranianas” se Teerã não concordasse com um acordo nos termos de Washington. A promessa de obliterar a infraestrutura civil de um país de mais de 80 milhões de habitantes foi classificada pelo presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, como um “crime de guerra massivo”. A declaração ecoa ameaças anteriores do general Curtis LeMay, da Força Aérea dos EUA, nos anos 1960, e explicita uma doutrina de destruição ampla e indiscriminada.
Mas a “pedrificação” do mundo, segundo a lógica MWRA, não se limita a bombardeios. Ela se manifesta também na política comercial e financeira dos EUA, especialmente em relação ao BRICS. Em uma série de declarações a partir de dezembro de 2024, Trump ameaçou impor tarifas de 100% sobre produtos de todos os países do bloco caso eles avancem na criação de uma moeda comum ou promovam a desdolarização do comércio internacional. Em julho de 2025, a ameaça foi ampliada: qualquer nação que se alinhe “às políticas anti-americanas do BRICS” será cobrada com uma tarifa adicional de 10%, “sem exceções”. “Eles podem encontrar outro ‘otário'”, escreveu Trump em sua rede Truth Social, em referência aos membros do bloco.
O BRICS reúne atualmente 11 nações, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Irã, Egito e Emirados Árabes Unidos, respondendo por cerca de metade da população mundial e 40% do produto global. Em resposta às tarifas, o bloco manifestou “sérias preocupações com o aumento de medidas tarifárias unilaterais” em uma declaração conjunta na cúpula do Rio de Janeiro, em julho de 2025. Ainda assim, analistas apontam que as ameaças de Trump já surtiram efeito: a expansão do BRICS perdeu ímpeto, com Turquia e Arábia Saudita recuando de suas candidaturas, e temas sensíveis como um sistema de pagamentos próprio ou uma moeda comum foram retirados da agenda para não provocar Washington.
O que está por trás dessa estratégia? Especialistas consultados pela imprensa internacional identificam um padrão de “nacionalismo condicional” que transcende a mera política comercial. Em um discurso na Conferência de Segurança de Munique, em fevereiro de 2026, o secretário de Estado Marco Rubio articulou uma visão de mundo que, segundo analistas, combina nostalgia colonial, extração neocolonial e protecionismo doméstico. O discurso enfatizou a necessidade de reindustrialização ocidental, aquisição de minerais críticos do Sul Global e subordinação das estruturas multilaterais de desenvolvimento. “Rubio lamentou a contração histórica dos impérios ocidentais após 1945 e atribuiu essa contração a revoluções comunistas e movimentos anticoloniais, posicionando o Sul Global como território perdido”, resume a análise publicada no Global Policy Journal.
Essa visão se traduz em políticas concretas. Em relação ao Brasil, por exemplo, o governo Trump abriu uma investigção comercial (Seção 301) que questiona até mesmo o sistema Pix, acusado de prejudicar empresas americanas de cartão de crédito. No âmbito do BRICS, a mensagem é clara: qualquer tentativa de autonomia econômica ou financeira será tratada como ameaça à supremacia americana. “O governo Trump traçou uma linha clara na areia: qualquer cooperação do BRICS considerada prejudicial aos interesses dos EUA enfrentará duras sanções americanas”, escreve o China US Focus.
As consequências dessa estratégia para o mundo em desenvolvimento são profundas. Países do Sul Global, que já enfrentam uma crise de dívida externa agravada pelas sucessivas elevações das taxas de juros americanas, veem agora suas perspectivas de desenvolvimento econômico sendo ativamente bloqueadas. Dados citados por especialistas indicam que 3,3 bilhões de pessoas no Sul Global gastam mais com pagamentos de dívida externa do que com educação ou saúde. A política americana, ao impor tarifas punitivas e condicionar o acesso a financiamentos, aprofunda esse ciclo de subdesenvolvimento.
Há, entretanto, reações. O Sul Global tem respondido à pressão americana com o fortalecimento de mecanismos de cooperação Sul-Sul. O comércio entre países em desenvolvimento já representa 55,6% do comércio mundial, ante 38,3% em 1995. A Nova Rota da Seda chinesa e o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS são exemplos de instituições que buscam oferecer alternativas à arquitetura financeira dominada por Washington. “Os países do Sul Global precisam criar seu próprio modelo, que funcione para eles”, defendeu o pesquisador Ntsikelelo Breakfast em artigo sobre o BRICS.
A retórica da “Idade da Pedra” revela, em última análise, uma profunda assimetria de poder e uma visão de mundo anacrônica. Ao ameaçar bombardear uma civilização de 7 mil anos de história e, simultaneamente, tentar impedir que nações emergentes desenvolvam suas próprias moedas e sistemas de pagamento, Washington demonstra menos força do que fragilidade. O Irã respondeu à ameaça lembrando que “alguém que sacrifica o bem-estar de seu próprio povo para ameaçar os outros ainda está preso na ‘Idade da Pedra’”. Resta saber se o resto do mundo aceitará ser empurrado para trás.
Com informações de India Today, The Sydney Morning Herald, Iran Front Page, China Daily, New Age Bangladesh, Ahram Online, WION News, The Hill, China US Focus, Global Policy Journal, Sputnik Brasil, Tehr?n Times, The New York Post, Hindustan Times, Asia Times, Water Journal, MyRacePass, MWRA Advisory Board, CE?D, Issues.fr, Pakistan Today, Russia in Global Affairs, Business Insider, CNBC TV18, e FrontPageAfrica ■