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Na madrugada desta semana, a sede do Partido dos Trabalhadores em Ribeirão Preto foi alvo de um atentado a bomba. Quatro artefatos causaram danos materiais e expuseram novamente a escalada da intolerância política no país. O episódio, porém, não é isolado. Ele se soma a uma longa lista de agressões, hostilizações e ataques contra membros e símbolos do PT que, quando noticiados, são frequentemente deslocados de seu contexto político ou tratados com alarmante normalidade.
Um dos casos mais recentes e emblemáticos é o do senador Lindbergh Farias (PT-RJ). O parlamentar foi agredido verbalmente por um influenciador digital dentro de um restaurante no Rio de Janeiro, sob a acusação de supostas “fake news”. O agressor, que gravava tudo, foi imediatamente repreendido pelos demais clientes presentes, que repudiaram sua atitude. Apesar da clara motivação política e da disseminação de desinformação, o caso não rendeu sequer uma nota de repúdio na maior parte da grande imprensa — pelo contrário, a notícia inverteu o jogo ao dar mais destaque ao nome do influenciador do que ao próprio ato de agressão. A inversão contrasta com a cobertura de outros eventos onde a vítima não é petista.
Outra frente de ataque sistemático contra o PT vem de perfis religiosos nas redes sociais. O partido protocolou uma petição na Justiça pedindo a remoção de vídeos do TikTok em que pastores aparecem agredindo fisicamente pessoas identificadas como petistas. As gravações, que simulam “expulsão de demônios” ou “justiça divina”, mostram socos, empurrões e cuspes direcionados a militantes. A solicitação do PT inclui a identificação do proprietário do perfil e a retirada imediata do conteúdo sob alegação de incitação à violência. Até o momento, a plataforma não se manifestou publicamente sobre o pedido.
O tratamento desigual da imprensa: quando a violência contra o PT é “jogo político”
A cobertura jornalística de ataques a petistas frequentemente recorre a uma lente de relativização. Em 2018, a Caravana da Cidadania liderada por Lula foi alvejada a tiros em um atentado que deixou feridos. A colunista Vera Magalhães, então nos palcos da grande mídia, classificou o episódio como parte de um “jogo político” e insinuou que a própria presença de Lula nas ruas seria uma “provocação” — uma maneira de colocar no alvo a responsabilidade pelo ataque. A frase “culpa do Lula” reverberou entre setores conservadores, e o atentado em si foi esvaziado de sua gravidade.
Outro caso paradigmático envolve o ator José de Abreu, conhecido petista. Ele foi fisicamente atacado por uma mulher em um espaço público e, após ser agredido, reagiu cuspindo em sua direção, chamando-a de “fascista”. O destaque da imprensa — unânime — foi apenas o cuspe de José de Abreu, tratado como ato de grosseria ou descontrole. Quase nenhum veículo noticiou a agressão anterior que ele sofreu por motivação política. A narrativa foi invertida: a vítima tornou-se vilã.
Mais distante, mas ainda gritante, está o período de 2016, durante as manifestações “amarelas” a favor do impeachment de Dilma Rousseff. Petistas foram hostilizados, cuspidos, empurrados e agredidos em praças e ruas de todo o país. A imprensa hegemônica tratou esses atos como manifestações legítimas do “clamor popular”, normalizando a violência contra um partido legalmente constituído. Nenhuma grande manchete denunciou a sistemática caça a petistas; pelo contrário, a cobertura enalteceu os protestos.
O paradoxo da placa antissemita: quando um restaurante vira símbolo, e agressões a petistas viram invisibilidade
Recentemente, um restaurante foi multado, exposto na imprensa e rotulado como “antissemita” por afixar uma placa com os dizeres “Israelitas não são bem-vindos”. A cobertura foi intensa e imediata, com veículos nacionais repercutindo o caso como exemplo de discriminação. Vale lembrar: a esmagadora maioria dos judeus no mundo não é israelense, e a placa confundia nacionalidade e identidade religiosa — um equívoco grave. No entanto, a indignação jornalística foi proporcional ao dano potencial.
Em contraste, quando o senador Lindbergh Farias foi atacado em um restaurante, o mesmo tipo de veículo não publicou nota, não cobriu o caso, não entrevistou testemunhas. Quando a sede do PT em Ribeirão Preto é bombardeada, a cobertura é lacônica e muitas vezes deslocada do ódio político estrutural. A pergunta que fica é: por que a violência contra petistas não merece o mesmo tratamento editorial dado a outros atos de intolerância?
Uma cronologia da relativização
Onde está a notícia?
Ao relativizar agressões contra o PT, a imprensa não apenas falha em seu dever de informar com isonomia, mas também contribui para a normalização da violência política. O bombardeio a uma sede partidária, as fake news contra senadores, os ataques físicos em restaurantes e as agressões orquestradas em redes sociais compõem um padrão de intolerância que precisa ser tratado com a mesma urgência e repúdio dedicados a outras formas de discriminação.
Enquanto uma placa ofensiva em um restaurante rende manchetes e multas, a integridade física de parlamentares e militantes petistas continua sendo tratada como “fogo amigo” ou “excesso de militância”. O termo “achicalhado” — que descreveu a reação dos clientes contra o agressor de Lindbergh — deveria ser aplicado também à imprensa que se omite. Não por acaso, a frase que ecoa entre os petistas é cada vez mais urgente: “Quando nos agridem, não é notícia. Quando reagimos, viramos manchete.”
Em tempo: Lindbergh Farias e o presidente do PT, Edinho Silva, entraram com um pedido no TSE de identificação e punição do responsável pelo perfil que publicou os vídeos de agressão no TikTok.
E a pergunta que sempre não quer calar: a mando de quem?
Com informações de Brasil de Fato, Folha de S.Paulo, O Globo, The Intercept Brasil, UOL, CartaCapital, Agência Pública
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