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DOJ retém memorandos do FBI com acusação de abuso sexual contra Trump
Mais de 50 páginas de entrevistas e anotações sobre alegação de abuso de menor contra o atual presidente estão ausentes da base de dados pública, gerando acusações de obstrução e uma investigação do Congresso
America do Norte
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcQhFJJYh0kaDIxYMn6jkIJpkhA0VB5Z-9uukw&s
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■   Bernardo Cahue, 06/03/2026

Uma nova controvérsia envolve a divulgação dos arquivos referentes ao bilionário Jeffrey Epstein pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos (DOJ). Reportagens apuradas por veículos como NPR, CNN e The Guardian revelaram que dezenas de páginas de documentos, incluindo memorandos de entrevistas do FBI com uma mulher que acusou o Presidente Donald Trump de abuso sexual quando ela era menor de idade, não foram incluídas na base de dados pública ou foram removidas.

A mulher em questão entrou em contato com o FBI em julho de 2019, poucos dias após a prisão de Epstein, para relatar os abusos que sofreu. De acordo com os registros internos da agência, ela participou de pelo menos quatro entrevistas ao longo do verão e outono daquele ano. As alegações contra Trump teriam ocorrido entre 1983 e 1985, quando ela tinha entre 13 e 14 anos, e incluem a acusação de que o empresário a forçou a um ato sexual e, após ela reagir mordendo-o, ele a teria agredido fisicamente.

O cerne da questão está na discrepância entre o que foi investigado e o que foi tornado público. De acordo com a lei Epstein Files Transparency Act, sancionada pelo próprio Trump em novembro, o DOJ era obrigado a divulgar os documentos federais ligados à investigação de Epstein. No entanto, jornalistas e investigadores identificaram que:

  • Dos quatro memorandos de entrevistas (conhecidos como formulários "302") com a acusadora de Trump, apenas um está disponível no site do DOJ.
  • Este único documento disponível é justamente a primeira entrevista, na qual a mulher não menciona Trump.
  • Mais de 50 páginas de anotações manuscritas e relatos detalhados das sessões seguintes, que continham as acusações contra o presidente, estão ausentes, apesar de constarem em registros internos de evidências fornecidos a advogados no caso de Ghislaine Maxwell.
  • Documentos relacionados a uma segunda mulher, identificada como "Jane", que também alegou ter sido apresentada a Trump por Epstein quando menor, foram removidos do ar e parcialmente restaurados, mas outros itens permanecem inacessíveis.

As reações políticas foram imediatas. O Deputado Robert Garcia (D-CA), membro graduado do Comitê de Supervisão da Câmara, afirmou ter revisado os logs de evidências não editados e declarou que o DOJ "parece ter retido ilegalmente entrevistas do FBI" com a sobrevivente que acusou Trump de "crimes hediondos". Como resultado, os democratas no comitê anunciaram a abertura de uma investigação paralela sobre a conduta do DOJ.

Do lado do governo, a resposta tem sido dupla. A Casa Branca reiterou que Trump foi "totalmente exonerado" em relação a Epstein e classificou as alegações como "falsas e sensacionalistas". O DOJ, por meio de sua porta-voz, negou que qualquer documento tenha sido deletado, afirmando que os arquivos removidos temporariamente passam por revisão para redação de informações sensíveis ou identificação de vítimas, e que todos os documentos responsivos foram produzidos, com exceção de materiais que são "duplicados, privilegiados ou parte de uma investigação federal em andamento". Um funcionário do governo complementou ao The Guardian que as acusações foram consideradas "não críveis" e os arquivos listados como duplicados, não sendo obrigatórios para divulgação.

Apesar das justificativas, a situação levanta sérias questões sobre transparência. A análise da CNN aponta que mais de 90 registros de entrevistas listados nos logs de evidências de Maxwell não aparecem no site do DOJ. Especialistas consultados pela imprensa destacam a importância dos formulários 302, considerados a espinha dorsal de qualquer investigação, e alertam que a falta deles impede a compreensão completa do trabalho do FBI.

Para aumentar a complexidade, o The Guardian, que obteve os memorandos ausentes, observa que as alegações da mulher, embora detalhadas, não foram verificadas e, em alguns pontos, contradizem fatos conhecidos sobre a vida de Epstein na época, além de a acusadora ter um histórico de acusações de fraude em outros estados.

Este episódio expõe uma contradição fundamental: a administração Trump sancionou uma lei de transparência, mas o processo de divulgação, liderado por nomes de sua confiança como a Procuradora-Geral Pam Bondi, resultou em um arquivo público confuso, com falhas e documentos faltantes, o que, na prática, produz o mesmo efeito de uma obstrução, minando a confiança no processo. A investigação dos democratas, ainda que sem poder de intimação por serem minoria, promete manter a pressão por respostas.

Com informações de CNN, The Guardian, NPR, MSN, Mediaite, Talking Points Memo, Roya News, The Kenya Times ■

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