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Falha técnica em documentos de Epstein revela redações como simples "tarjas pretas removíveis"
Prometida como marco de transparência, a liberação em massa de arquivos resultou em nova violação contra vítimas e levanta questões sobre a competência ou a intenção por trás do processo
America do Norte
Foto: https://f.i.uol.com.br/fotografia/2025/12/20/17662373246946a48c6eee4_1766237324_3x2_md.jpg
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■   Bernardo Cahue, 06/02/2026

A maior liberação de documentos do caso Jeffrey Epstein, ordenada por lei pelo Congresso dos EUA, tornou-se um novo capítulo de descuido e violação. Sob o Epstein Files Transparency Act, o Departamento de Justiça (DOJ) disponibilizou ao público, em 30 de janeiro de 2026, um acervo de 3,5 milhões de páginas, mais de 2.000 vídeos e 180 mil imagens relacionadas ao financista condenado por tráfico sexual. No entanto, o que era para ser um exercício de transparência rapidamente se transformou em um escândalo de vazamentos: as redações destinadas a proteger a privacidade de vítimas e terceiros foram implementadas de forma tão amadora que podiam ser desfeitas com um simples copiar e colar do texto em um editor de documento em branco.

Especialistas em segurança da informação e jornalistas que analisaram os arquivos descobriram que as famosas "tarjas pretas" que cobriam nomes, endereços e informações pessoais nos PDFs eram apenas sobreposições visuais. O texto original permanecia intacto nos metadados do arquivo, completamente recuperável. Essa falha técnica elementar expôs informações de sobreviventes, incluindo:

  • Nomes e dados de contato de vítimas.
  • Fotografias de menores de idade e adultos em situações íntimas, com os rostos visíveis.
  • Informações financeiras pessoais, como números completos de cartão de crédito.

A gravidade do erro forçou o DOJ a reconhecer publicamente o problema. Em carta aos juízes que supervisionam o caso, o procurador-geral dos EUA, Jay Clayton, admitiu que milhares de documentos e arquivos de mídia foram retirados do ar após queixas de advogados que representam cerca de 200 sobreviventes. Os advogados Brittany Henderson e Brad Edwards foram contundentes: "Não há grau concebível de incompetência institucional suficiente para explicar a escala, consistência e persistência das falhas que ocorreram". Para uma das vítimas, cujas informações bancárias foram expostas em 51 entradas, a liberação foi classificada como "uma ameaça à vida".

O contexto político do escândalo é inescapável. A liberação ocorreu sob a administração do presidente Donald Trump, que, após prometer na campanha eleitoral trazer transparência total ao caso, passou a tratar o tema como uma "farsa democrata" depois de eleito. O Epstein Files Transparency Act foi aprovado por esmagadora maioria bipartidária no Congresso (427 a 1 na Câmara e unanimidade no Senado), e Trump acabou por sancioná-lo em novembro de 2025. No entanto, democratas no Congresso acusaram o DOJ, liderado pela Procuradora-Geral Pam Bondi, nomeada por Trump, de sabotar o espírito da lei liberando montanhas de páginas quase totalmente enegrecidas.

As falhas técnicas, portanto, não ocorreram no vácuo:

  1. O senador Dick Durbin alegou que a Procuradora-Geral Bondi direcionou agentes do FBI para "sinalizar" qualquer registro que mencionasse o presidente Trump durante a revisão.
  2. A liberação final foi massivamente redigida, com centenas de páginas completamente enegrecidas, o que o líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, chamou de violação do espírito da lei.
  3. Os e-mails de Epstein já divulgados anteriormente mostram que o financista alegava ter informações comprometedoras sobre Trump, referindo-se a ele como "o cachorro que não latiu" em um e-mail de 2011.

O resultado é uma crise que mistura incompetência técnica com suspeita política. A falha na redação, um erro básico de processamento de documentos, serviu tanto para retraumatizar vítimas quanto para alimentar teorias de que a administração Trump estaria mais interessada em controlar a narrativa do que em cumprir com a transparência prometida. O DOJ agora revisa seus protocolos, prometendo recolher e corrigir documentos em 24 a 36 horas após serem alertados. No entanto, para as vítimas cujas vidas foram novamente reviradas, a promessa de transparência soa como uma nova violação, tornada possível por um descuido editorial que beira a negligência — ou por uma manobra proposital de obscurantismo.

Com informações de PBS NewsHour, France 24, Associated Press via Live 5 News, Redactable, FlagCheck, NPR, The Conversation ■

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