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Minnesota vive sob tensão com operação de imigração em massa
Operação federal que mobilizou milhares de agentes gera medo generalizado, paralisa comunidades e leva igrejas e voluntários a organizarem rede de ajuda para que famílias não precisem sair de casa
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 05/02/2026

Minneapolis, Minnesota, tornou-se o epicentro de uma crise de imigração e um confronto político aberto entre o governo federal dos EUA e autoridades estaduais. A "Operação Metro Surge", uma iniciativa maciça do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) ordenada pelo presidente Donald Trump, mobilizou mais de 2 mil agentes federais na região desde dezembro de 2025, com o objetivo declarado de deter e deportar imigrantes em situação irregular considerados "os piores dos piores" . No entanto, os métodos adotados — descritos por comunidades e líderes locais como batidas "porta a porta" e abordagens agressivas — geraram um clima de terror que afeta até cidadãos americanos, paralisou bairros inteiros e provocou mortes, protestos e uma batalha judicial sem precedentes.

O pastor Sergio Amezcua, da igreja evangélica Dios Habla Hoy, tornou-se uma das vozes mais proeminentes a descrever o medo nas ruas. Ele relata receber ligações diárias sobre pessoas desesperadas, como a de um jovem imigrante que, ao ouvir agentes no corredor de seu prédio, pulou da janela do terceiro andar e caminhou um quilômetro, descalço e sem camisa sob temperatura negativa, para escapar . "Os agentes estão caçando pessoas comuns quando elas saem de seus apartamentos para tirar o lixo. É terrível o que está acontecendo em Minnesota", desabafa o pastor, ele próprio um imigrante naturalizado mexicano.

O impacto comunitário é profundo. Amezcua estima que 80% de sua congregação, incluindo cidadãos e residentes legais, deixou de frequentar os cultos por medo. O trauma se estende às crianças: suas filhas adolescentes ficam assustadas quando vêem um entregador da Amazon com o rosto coberto pelo frio, pensando ser um agente do ICE. Líderes comunitários relatam que famílias pararam de mandar os filhos para a escola e evitam hospitais, mesmo quando doentes.

Uma Resposta Humanitária Nascida do Medo

Em resposta a essa paralisia, a igreja do pastor Amezcua coordenou uma das maiores operações de ajuda mútua na cidade. Diante do pânico que impede as pessoas de irem ao supermercado, ele e mais de 4 mil voluntários organizaram a distribuição de alimentos para que as famílias possam permanecer em casa.

  • Escala da Ajuda: A iniciativa, que começou com um simples chamado nas redes sociais, rapidamente atingiu mais de 26 mil famílias registradas, distribuindo entre 175 e 200 toneladas de comida por semana. O pastor afirma estar apoiando, direta ou indiretamente, cerca de 100 mil pessoas.
  • Diversidade de Apoio: A rede de voluntários transcende divisões religiosas e políticas, incluindo membros da comunidade LGBTQ+, muçulmanos, cristãos e ateus. "Estamos aqui para ajudar, não para confrontar o governo. Não perguntamos quem tem documentos. Quem pede ajuda, nós ajudamos", afirma Amezcua.
  • Logística do Medo: Os voluntários são treinados para abortar a entrega se identificarem a presença de agentes de imigração nas redondezas. "Não posso dar mais detalhes, mas se eles virem que a imigração está os perseguindo, eles voltam e não entregam a comida", explica o pastor.

Por Que Minnesota? Fraude, Política e um Alvo Específico

A escolha de Minnesota, um estado com uma população relativamente pequena de imigrantes sem documentos (cerca de 0,7% do total nacional), para a maior operação do ICE na história americana, é amplamente vista como política . Analistas e autoridades locais apontam dois motivos principais:

  1. O Escândalo de Fraude nas Creches: No final de 2025, um vídeo viral de um ativista pró-Trump mostrou creches administradas por somalis que, supostamente, estavam inativas mas recebiam verbas públicas. O escândalo, que remonta anos e já levou dezenas de pessoas à condenação, foi usado como justificativa para a investigação "porta a porta". O presidente Trump chegou a se referir a membros da comunidade somali como "lixo". Especialistas, no entanto, notam que a fraude foi cometida por um número ínfimo de indivíduos e que a maioria dos mais de 80 mil somalis de Minnesota são cidadãos americanos .
  2. Retaliação Política: Minnesota é um estado tradicionalmente democrata, com um governador, Tim Walz, que foi vice na chapa opositora de Trump em 2024. O processo judicial movido pelo estado alega que a operação é uma "violação da Primeira Emenda" por retaliar politicamente o estado devido a seus posicionamentos e resultados eleitorais. O governador Walz já afirmou que "o único que está causando danos a este Estado é o próprio Donald Trump".

Consequências Graves: Mortes, uma Criança Detida e um Processo Judicial

A operação teve desdobramentos trágicos e controversos que alimentaram a indignação nacional:

  • Mortes de Civis: Em janeiro de 2026, dois cidadãos americanos, Renee Nicole Good e Alex Pretti, foram mortos a tiros por agentes do ICE em incidentes separados. As autoridades federais alegaram legítima defesa, mas vídeos e testemunhas contradizem essa versão, mostrando que as vítimas eram observadores comunitários ou manifestantes pacíficos.
  • Detenção de uma Criança: A prisão de Liam Conejo Ramos, de 5 anos, junto com seu pai, gerou ampla condenação. Uma foto de um agente segurando o menino pela mochila viralizou. Após pressão, ambos foram liberados de um centro de detenção no Texas.
  • Batalha nos Tribunais: O estado de Minnesota, juntamente com as cidades de Minneapolis e Saint Paul, moveu um processo federal exigindo o fim da operação, alegando que ela é inconstitucional e causa danos irreparáveis. A ação acusa o ICE de perfilamento racial, uso excessivo da força e violação de locais sensíveis como escolas e igrejas.

Desescalada Parcial e um Futuro Incerto

No início de fevereiro, após reuniões tensas com o governador Walz e o prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, a Casa Branca anunciou a retirada de cerca de 700 agentes do estado. No entanto, um contingente de aproximadamente 2 mil homens permanece no local — número ainda considerado exorbitante pelas autoridades locais.

O prefeito Frey classificou a redução como "um passo na direção certa", mas insuficiente, reforçando que a operação é "catastrófica para nossas empresas e nossos moradores". Enquanto a batalha legal e política segue, a vida na comunidade imigrante de Minneapolis permanece dominada pelo medo. Como resumiu Grecia Lozano, da Latino Voices Minnesota, a sensação é de estar vivendo um cenário extremo: "É como a Alemanha na Segunda Guerra Mundial". O pastor Amezcua e seus milhares de voluntários seguem sua missão, distribuindo alimentos e um pouco de esperança em meio ao que chamam de "trauma coletivo".

Com informações de: Terra, BBC, CBC News, CBS News Minnesota, Euronews, Valor Econômico, City of Minneapolis News ■

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