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Após meses de troca de insultos e ameaças de intervenção militar, os presidentes Donald Trump, dos EUA, e Gustavo Petro, da Colômbia, realizam nesta terça-feira (3) uma reunião de alto risco na Casa Branca. O encontro, que acontece após um telefonema que arrefeceu a crise em janeiro, tem o combate ao narcotráfico como tema central, mas carrega o peso de uma relação diplomaticamente explosiva e visões opostas sobre segurança e cooperação internacional.
A reunião marca uma reviravolta dramática em uma relação que chegou ao ponto de ruptura. Em outubro de 2025, o governo Trump aplicou sanções contra o líder colombiano. Em janeiro, Trump sugeriu que uma operação militar contra a Colômbia "soava bem", ao que Petro respondeu chamando-o de "senil" e acusando-o de usar acusações de narcotráfico como retaliação por interesses econômicos não atendidos. A tensão foi tamanha que a Colômbia chegou a enviar uma nota formal de protesto aos EUA.
A trégua começou com uma ligação telefônica em 7 de janeiro, intermediada, segundo fontes, pelo senador americano Rand Paul. Desde então, Trump afirmou que Petro tem sido "muito cordial" e antecipou um encontro "bom". O governo colombiano, por sua vez, tenta vender a reunião como um ponto de virada, com a chanceler Rosa Villavicencio afirmando que ela pode trazer "avanços diplomáticos, sociais e econômicos para a região".
O encontro expõe um abismo estratégico no combate ao narcotráfico. A administração Trump pressiona por uma abordagem militarizada e de erradicação forçada de cultivos de coca. Trump já declarou que a Colômbia "falhou demonstravelmente" em controlar o tráfico e ameaçou expandir os ataques a alvos terrestres na região. O país é a fonte de quase 70% da cocaína mundial.
Em contraste, Petro, o primeiro presidente de esquerda da Colômbia e ex-guerrilheiro, promoveu uma mudança de paradigma. Seu governo afastou-se da erradicação forçada — criticada por prejudicar agricultores pobres — e priorizou a substituição voluntária de cultivos, além de focar na desarticulação de redes criminosas. Autoridades colombianas destacam que, sob Petro, foram apreendidas 2.840 toneladas de cocaína e mais de 30 mil hectares de cultivos ilícitos foram substituídos.
A reunião vai muito além do narcotráfico, envolvendo a instável situação na Venezuela e interesses estratégicos regionais dos EUA.
Para Petro, que termina seu mandato em agosto, o encontro é uma faca de dois gumes. Um bom resultado poderia desarmar a oposição, que critica sua capacidade de lidar com os EUA. Um encontro ruim, por outro lado, solidificaria sua imagem de defensor da soberania nacional perante sua base. Especialistas como Michael Shifter, de Georgetown, veem uma situação "quase ganha-ganha" para o colombiano.
Para os EUA, a cooperação colombiana é indispensável para seus interesses na Venezuela e no controle de drogas. "Não há luta contra o comércio de cocaína sem a Colômbia", afirmou Jeremy McDermott, da Insight Crime. No entanto, o risco de medidas punitivas de Trump, como cortes de ajuda ou aumento de tarifas, paira sobre a economia colombiana, onde cidadãos comuns já expressam frustração e preocupação com as consequências do feudo.
O resultado mais provável, segundo analistas, é uma declaração de vitória por ambos os lados, com poucas mudanças substantivas de política. "Acho que é provavelmente menos importante o que a Colômbia realmente faz do que o que Trump pode dizer que forçou Petro a fazer", avaliou Michael Weintraub. O encontro, portanto, é menos sobre encontrar soluções duradouras e mais sobre gerenciar uma relação perigosamente tóxica entre dois líderes que não confiam um no outro, mas que, por ora, precisam um do outro.
Com informações de: G1, BBC, Al Jazeera, CNN, Estadão/The New York Times, Congresso em Foco, CNN Brasil, GaúchaZH ■