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Sheinbaum defende ajuda a Cuba sob ameaças de Trump
Presidenta mexicana afirma que decisão de enviar petróleo é soberana, enquanto pressão dos EUA vincula o tema à revisão do tratado comercial e à segurança
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 29/01/2026

A presidenta do México, Claudia Sheinbaum, reafirmou que a ajuda humanitária de seu país a Cuba "continua", em meio a crescentes pressões e ameaças do governo dos Estados Unidos, liderado por Donald Trump, que busca o colapso do regime cubano. A declaração foi feita durante sua conferência de imprensa diária, na qual evitou confirmar ou negar especificamente a suspensão de um carregamento de petróleo reportada pela imprensa.

Sheinbaum enfatizou o caráter soberano das decisões do México: "La ayuda humanitaria a Cuba, como a otros países, continúa porque es ayuda humanitaria y México siempre ha sido solidario con todo el mundo. Son decisiones soberanas". Ela esclareceu que os envios podem ocorrer por dois canais: contratos comerciais da estatal Pemex ou como assistência humanitária direta do governo, e que caberia ao México "determinará" se inclui o envio de petróleo nesta última modalidade.

O contexto imediato são os relatórios sobre a suspensão de um embarque de petróleo que estava programado para chegar a Cuba em meados de janeiro a bordo do navio Swift Galaxy. Questionada sobre o caso, Sheinbaum não deu detalhes concretos, afirmando que "en todo caso, se informará sobre la reanudación de los despachos". Analistas interpretam a cautela nas palavras da mandatária como um reflexo da enorme pressão diplomática e comercial que Washington exerce sobre a Cidade do México.

Do outro lado da fronteira, a retórica é de confronto direto. O presidente Donald Trump declarou recentemente que "Cuba está a punto de caer", argumentando que a interrupção do fornecimento de petróleo venezuelano após a queda de Nicolás Maduro deixaria a ilha à beira do colapso. Seu secretário de Estado, Marco Rubio, reforçou a mensagem, chamando o governo cubano de "seniles incompetentes". A ameaça implícita é que Cuba seria o próximo alvo após a intervenção na Venezuela.

Para Cuba, o petróleo mexicano tornou-se uma tábua de salvação crítica. Com a paralisação do envio venezuelano, o México se transformou no principal fornecedor de crudo da ilha, respondendo por 44% de suas importações em 2025. Especialistas calculam que Cuba precisa de entre 60 mil e 125 mil barris de petróleo por dia, e os envios mexicanos, que chegaram a uma média de 17.200 barris diários entre janeiro e setembro de 2025, representam a diferença entre uma crise severa e um colapso total dos serviços básicos. As consequências de um corte total seriam:

  • Paralisação energética: Apagões mais longos e frequentes, afetando hospitais, bombas de água e residências.
  • Crise de abastecimento: Interrupção do transporte e agravamento da escassez de alimentos e medicamentos.
  • Colapso econômico: Impossibilidade de operar a já combalida indústria e de gerar as divisas necessárias para importar combustível de outros mercados.

A pressão dos EUA sobre o México, no entanto, vai muito além das declarações. Legisladores republicanos da Flórida, como Carlos Giménez e María Elvira Salazar, têm liderado uma campanha para condicionar a relação comercial bilateral ao fim do apoio mexicano a Cuba. Giménez advertiu que a postura de Sheinbaum é uma "gran traición" e anunciou uma visita à Cidade do México para exigir pessoalmente a paralisação dos envios.

O calcanhar de Aquiles mexicano é a revisão do T-MEC (Tratado entre México, Estados Unidos e Canadá), prevista para este ano. Analistas consultados por veículos como El Universal e DW concordam que o governo Trump está disposto a usar a alavanca comercial para forçar concessões na área de segurança e em sua agenda política externa. Diego Marroquín, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), define o apoio a Cuba como um "gesto ideológico que nos puede salir muy caro", um flanco aberto que não traz benefícios em segurança ou economia para o México.

A complexidade para Sheinbaum é interna e externa:

  • Pressão doméstica: Seu partido, o Morena, tem uma forte tradição de solidariedade e esquerda que valoriza a autonomia em relação aos EUA e o apoio a Cuba.
  • Risco comercial: Ameaças concretas à estabilidade do T-MEC, tratado vital para a economia mexicana.
  • Agenda de segurança: Os EUA demandam cooperação mais agressiva contra cartéis de drogas, incluindo a possibilidade de operações conjuntas em solo mexicano, algo que Sheinbaum rejeita.

Internacionalmente, a postura de Washington gerou alarme. A chancelaria russa emitiu um comunicado expressando "profunda preocupación" com as ameaças à Cuba, comparando-as com a captura de Maduro e alertando para o risco de uma "crisis humanitaria" na ilha.

O desfecho deste impasse terá consequências diretas para a população cubana, para a economia mexicana e para o equilíbrio geopolítico na região. A presidenta Sheinbaum tenta navegar em um cenário onde um gesto de solidariedade histórica pode se tornar, nas palavras de um analista, o estopim de uma crise comercial com seu principal parceiro econômico.

Com informações de: DW, El País, Yahoo Noticias, El Universal, Telemundo, Cubadebate ■

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