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Conselho de Paz de Trump: uma iniciativa que divide o mundo e desafia a ONU
Com 26 adesões e 6 recusas, proposta de Trump para Gaza é vista como tentativa de criar uma 'nova ONU' sob comando americano; Brasil, Rússia e China adiam resposta, enquanto Lula alerta para o 'rasgão' da Carta das Nações Unidas
America do Norte
Foto: https://ansabrasil.com.br/webimages/img_700/2026/1/22/3808abf4e3879264733f22a2b6679de6.jpg
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■   Bernardo Cahue, 24/01/2026

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, lançou oficialmente na quinta-feira (22) o chamado "Conselho da Paz", um organismo internacional que, sob sua presidência vitalícia, pretende gerir a reconstrução e a desmilitarização da Faixa de Gaza e atuar em outros conflitos globais. A iniciativa, formalizada durante o Fórum Econômico Mundial em Davos, já conta com a adesão de 26 países e a recusa de seis, mas deixou em suspense potências como Brasil, Rússia e China, que ainda analisam o convite sem dar uma resposta direta.

O que é o Conselho da Paz?

A criação do conselho está prevista em uma resolução do Conselho de Segurança da ONU endossada em novembro de 2025, que lhe atribui a supervisão da administração transitória de Gaza até que a Autoridade Palestina conclua um processo de reforma. No entanto, o estatuto do grupo não limita sua atuação ao território palestino, abrindo espaço para que atue em outras crises internacionais.

O desenho institucional do conselho concentra poder de forma inédita na figura de Trump: ele será o presidente vitalício e único detentor de poder de veto. Para obter um assento permanente, os países devem contribuir com US$ 1 bilhão, valor que será administrado pelo próprio Trump. O conselho executivo fundador é majoritariamente composto por aliados do ex-presidente americano, como o secretário de Estado Marco Rubio, o ex-premiê britânico Tony Blair e o genro Jared Kushner.

Reações internacionais: adesões, recusas e silêncios estratégicos

Até o momento, 26 países confirmaram participação, entre eles Argentina, Arábia Saudita, Israel, Turquia, Egito e Paquistão. Do outro lado, seis nações recusaram formalmente o convite: França, Noruega, Eslovênia, Suécia, Espanha e Alemanha. Alemanha e Itália, em particular, invocaram razões constitucionais para não integrar o grupo no formato atual, alegando que suas estruturas de governança entram em conflito com os ordenamentos jurídicos nacionais.

Um bloco significativo de potências permanece em "silêncio calculado": Brasil, Reino Unido, China, Croácia, Itália, Rússia, Singapura e Ucrânia receberam o convite mas ainda não deram uma resposta definitiva. A postura desses países reflete tanto a desconfiança sobre os reais objetivos do conselho quanto a cautela para não se alienar de Washington nem enfraquecer o sistema multilateral tradicional.

A posição do Brasil: entre a crítica e o dilema estratégico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem sido um dos críticos mais vocais da iniciativa. Em discurso no encontro do MST, em Salvador, Lula afirmou que "a carta da ONU está sendo rasgada" e acusou Trump de querer "criar uma nova ONU, em que ele sozinho é o dono". Para o líder brasileiro, a proposta é um sintoma do abandono do multilateralismo em favor da "lei do mais forte".

Internamente, o governo brasileiro estuda a proposta com extremo cuidado. Segundo apuração da CNN Brasil, não há pressa para definir uma posição, e avaliações ainda estão sendo feitas. Fontes diplomáticas indicam que o Brasil pretende usar o debate para defender uma reforma imediata do Conselho de Segurança da ONU, aproveitando a Assembleia Geral de setembro para pressionar por uma democratização do sistema multilateral.

Implicações para a ONU e o futuro do multilateralismo

A criação do Conselho da Paz é percebida por muitos analistas como um atestado da falência do atual sistema multilateral. Diplomatas ouvidos pela RDNews destacam que o novo órgão só ganha tração porque o Conselho de Segurança da ONU não consegue mais resolver crises como a de Gaza. Um argumento que circula nos círculos diplomáticos é particularmente contundente: "Se Trump parar o genocídio em Gaza, ele prova que a ONU não serve mais para nada no formato atual".

Trump, por sua vez, tem alternado declarações de que o conselho trabalhará "em conjunto com a ONU" com críticas à ineficiência da organização, chegando a afirmar que "quando o conselho estiver formado, nós podemos fazer, basicamente, qualquer coisa que queiramos". Essa ambiguidade reforça a percepção de que o conselho pode se tornar um instrumento de poder paralelo, minando a autoridade das Nações Unidas.

Análise crítica: autoritarismo, financiamento e concentração de poder

Um levantamento do Poder360 revela que, dos 26 países que aderiram ao conselho, 12 são governados por regimes considerados autoritários, e apenas 5 podem ser classificados como democracias livres. Essa composição levanta questões sobre a legitimidade democrática do grupo e seus possíveis double standards em matéria de direitos humanos.

O modelo de financiamento – que exige US$ 1 bilhão para um assento permanente – transforma a participação em um privilégio de países ricos ou dispostos a pagar por influência, criando uma hierarquia baseada em recursos financeiros e não em representatividade ou compromisso com a paz. Além disso, a concentração de poder decisório na figura de Trump, sem mecanismos de checks and balances, configura um risco de instrumentalização do conselho para interesses unilateralistas.

Conclusão

O Conselho da Paz de Trump emerge como um dos mais ousados experimentos de reordenação geopolítica dos últimos anos. Se, por um lado, capitaliza a frustração com a lentidão e a paralisia do sistema ONU, por outro, representa uma ameaça concreta ao multilateralismo baseado em regras. As adesões iniciais mostram um alinhamento de países que veem oportunidade de ganhar influência ou acessar recursos, enquanto as recusas e os silêncios revelam a desconfiança de potências que ainda apostam na reforma, e não na substituição, da ordem internacional. O desfecho dessa disputa definirá não apenas o futuro de Gaza, mas também o equilíbrio de poder global nas próximas décadas.

Com informações de: G1, CNN Brasil, RDNews, Poder360, CartaCapital, Observador, BBC ■

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