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Médico britânico Andrew Wakefield é a origem das teorias que influenciam Trump sobre autismo
Ideias descreditadas pela ciência há anos voltam ao debate por meio do secretário de Saúde Robert F. Kennedy Jr. e ganham novo foco com alegações sobre paracetamol
America do Norte
Foto: https://encrypted-tbn0.gstatic.com/images?q=tbn:ANd9GcStvOx6wlKqsj7hhaRZlKvd9sVOCeHRp6mwvXm8vbCLoA&s=10
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■   Bernardo Cahue, 26/09/2025

O médico britânico Andrew Wakefield é a figura central por trás das teorias infundadas que influenciaram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e seu secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., a associarem fatores como vacinas e, mais recentemente, o uso de paracetamol na gravidez ao transtorno do espectro autista (TEA).

A recente polêmica foi iniciada quando Trump e Kennedy Jr. anunciaram que o governo americano orientaria médicos a não recomendarem paracetamol para gestantes, alegando uma suposta ligação com o autismo — uma afirmação contestada veementemente por agências reguladoras e especialistas em saúde em todo o mundo.

Essa não é a primeira vez que a administração Trump aborda o tema. A visão de que existiria uma "epidemia" de autismo com causas ambientais evitáveis é um ponto frequentemente levantado por Kennedy Jr., que há anos divulga falsas teorias, inicialmente propagadas por Wakefield, que culpam as vacinas pelo transtorno.

O estudo fraudulento de 1998

A origem do movimento moderno contra as vacinas remonta a 1998, quando Wakefield foi o primeiro autor de um artigo publicado na renomada revista The Lancet que sugeria uma possível ligação entre a vacina tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola) e o autismo.

Posteriormente, descobriu-se que o estudo era uma fraude. Investigações revelaram que Wakefield havia falsificado resultados e possuía graves conflitos de interesse, incluindo vínculos com ações judiciais contra fabricantes de vacinas . Em 2010, o Conselho Médico Geral do Reino Unido o considerou culpado de má conduta profissional, cassando seu registro médico. A revista The Lancet se retratou publicamente e retirou o artigo do ar.

A ciência contra as alegações

Desde então, diversos estudos rigorosos foram realizados para examinar a possível associação, sem encontrar qualquer evidência que a sustente.

  • Um grande estudo dinamarquês de 2019, que acompanhou 657.461 crianças, concluiu que os dados não sustentam que a vacina tríplice viral cause autismo.
  • Especialistas e agências de saúde, como os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA e a Organização Mundial da Saúde (OMS), são unânimes em afirmar que não há ligação entre vacinas e autismo.

No caso específico do paracetamol, a posição das autoridades de saúde também é clara:

  • A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que não há registros no Brasil que relacionem o medicamento ao autismo e reafirmou que seu uso é seguro .
  • A OMS e a Agência de Medicamentos da União Europeia emitiram notas destacando que não existem evidências científicas conclusivas que confirmem essa ligação.
  • O Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia e o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido mantêm o paracetamol como analgésico de primeira escolha para gestantes.

Repercussão e críticas

Especialistas e entidades representativas têm classificado as declarações de Trump e Kennedy como "perigosas, contra a ciência e irresponsáveis". A Autistas Brasil emitiu uma nota de repúdio, classificando o discurso como "eugenista" e que busca culpar as mães e tratar a neurodivergência como uma tragédia a ser combatida, em vez de focar em políticas de inclusão.

Os especialistas explicam que o aumento significativo nos diagnósticos de autismo nas últimas décadas se deve principalmente a uma maior conscientização, à expansão dos critérios diagnósticos para incluir casos mais leves e a melhores sistemas de triagem, e não a uma epidemia real . A ciência atual reconhece o autismo como resultado de uma complexa combinação de fatores genéticos e ambientais, sem uma causa única.

Com informações de: BBC News Brasil, G1, VEJA, Agência Brasil. ■

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