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Administração Trump gera polêmica ao vincular Tylenol ao autismo
Anúncio baseado em evidências não consolidadas é rejeitado por especialistas e fabricante do medicamento, que reforçam a segurança do paracetamol na gestação
America do Norte
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■   Bernardo Cahue, 23/09/2025

Em um anúncio realizado na Casa Branca nesta segunda-feira (22/09), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que o uso do analgésico Tylenol (cujo princípio ativo é o paracetamol) por gestantes está "possivelmente associado a um risco muito maior de autismo" e recomendou que as mulheres "evitem tomá-lo" durante a gravidez. A declaração, feita ao lado do secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., foi imediatamente contestada por grandes entidades médicas e especialistas, que a classificaram como irresponsável e não baseada no conjunto total de evidências científicas.

A posição de Trump foi divulgada como um "grande anúncio" sobre o autismo, condição cujos diagnósticos têm aumentado nos EUA. No entanto, especialistas atribuem esse aumento principalmente a uma maior conscientização, melhor acesso ao diagnóstico e a uma definição mais ampla do transtorno, e não a uma única causa.

Reação da comunidade médica

O Colégio Americano de Obstetrícia e Ginecologia (ACOG) emitiu um comunicado afirmando que a sugestão de que o paracetamol causa autismo é "irresponsável" e envia uma mensagem "prejudicial e confusa" para as gestantes. A entidade reiterou que o medicamento continua sendo o analgésico mais seguro para uso durante a gravidez, posição compartilhada por serviços de saúde de outros países, como o Reino Unido.

Os principais pontos de crítica incluem:

  • Falta de causalidade: Estudos mostram associação, mas não conseguem provar que o paracetamol cause autismo.
  • Riscos da febre não tratada: Desaconselhar o uso do medicamento para controlar a febre pode ser perigoso, já que a febre alta em si representa riscos para a mãe e para o feto.
  • Simplificação de causas complexas: O autismo é entendido pela ciência como resultado de uma complexa interação de fatores genéticos e ambientais, sem uma causa única.

O que diz a ciência

As evidências científicas sobre o tema são conflitantes:

  • Uma revisão de estudos publicada em agosto de 2025 apontou para uma possível associação entre a exposição pré-natal ao paracetamol e distúrbios do neurodesenvolvimento.
  • Por outro lado, um amplo estudo com 2,4 milhões de crianças, publicado em 2024 no JAMA, não encontrou nenhuma ligação entre o uso do medicamento na gravidez e autismo ou TDAH.
A própria nota da FDA (agência regulatória americana) enviada aos médicos foi mais moderada que as declarações de Trump, afirmando que "uma relação causal não foi estabelecida".

Posição do fabricante e contexto mais amplo

A Kenvue, fabricante do Tylenol, rejeitou veementemente a associação, declarando que "a ciência independente e sólida mostra claramente que tomar paracetamol não causa autismo". A empresa alertou para o risco que o anúncio representa, pois sem o paracetamol as gestantes ficariam entre a dor/febre não tratada e o uso de alternativas mais arriscadas, como ibuprofeno ou aspirina.

Durante a mesma coletiva, a administração Trump também anunciou a aprovação do medicamento leucovorina para o tratamento de alguns sintomas do autismo, uma decisão que, segundo pesquisadores, é baseada em evidências ainda preliminares.

Com informações de: BBC, VEJA, ABC News, The Guardian, Washington Post, CNN, Scientific American, NBC News, Público. ■

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