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Austrália se torna o primeiro país a banir redes sociais para menores de 16 anos
Contas de milhares de adolescentes do país deverá ser excluída pelas gigantes Google, TikTok e Meta a partir de quarta-feira
Oceania
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■   Bernardo Cahue, 07/12/2025

A partir de quarta-feira, 10 de dezembro, a Austrália implementa uma lei pioneira que proíbe o acesso de menores de 16 anos a plataformas de redes sociais. A medida, a primeira do tipo no mundo, obriga gigantes como Meta, TikTok e Google a excluírem milhões de contas de adolescentes. O governo alega que a ação visa proteger a saúde mental dos jovens de "algoritmos predatórios", mas a iniciativa enfrenta resistência judicial, críticas das empresas e dúvidas sobre sua aplicabilidade.

Contexto e Motivação: Uma Resposta a Dados Alarmantes

A decisão do governo australiano foi motivada por estatísticas consideradas alarmantes. Um estudo encomendado pelo próprio governo revelou que 96% das crianças entre 10 e 15 anos no país usam redes sociais. Dados oficiais mostram que sete em cada dez jovens dessa faixa etária já foram expostos a conteúdos nocivos, como material que promove distúrbios alimentares, automutilação ou suicídio. Além disso, mais da metade relatou sofrer cyberbullying, e uma em cada sete disse ter sido alvo de assédio por adultos ou crianças mais velhas.

Para a ministra das Comunicações, Anika Wells, as redes sociais funcionam como uma "cocaína comportamental" para os jovens. O primeiro-ministro Anthony Albanese reforçou que as plataformas se tornaram "uma fonte de ansiedade, uma ferramenta para burlões e, pior ainda, para predadores online".

Como a Lei Funciona na Prática

A responsabilidade pelo cumprimento da lei recai inteiramente sobre as empresas de tecnologia, sob ameaça de multas pesadas. Pais e adolescentes não serão penalizados. As plataformas são obrigadas a tomar "medidas razoáveis" para:

  1. Identificar e remover todas as contas existentes de usuários com menos de 16 anos.
  2. Impedir a criação de novas contas por pessoas nessa faixa etária.

O método de verificação de idade é um ponto central. A simples autodeclaração não é mais aceita. As empresas devem implementar sistemas que podem incluir:

  • Verificação por documentos de identidade oficiais.
  • Reconhecimento facial ou de voz.
  • Técnicas de "inferência de idade", que analisam o comportamento online do usuário para estimar sua idade.

A lei prevê multas de até 49,5 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 179 milhões) por violações graves ou repetidas.

Quais Redes Sociais Estão Proibidas?

A lista inicial divulgada pelo governo inclui dez grandes plataformas, baseando-se no critério de que seu propósito principal é facilitar a interação social e a publicação de conteúdo entre usuários.

  • Facebook, Instagram e Threads (Meta)
  • TikTok
  • Snapchat
  • YouTube (da Alphabet/Google)
  • X (antigo Twitter)
  • Reddit
  • Kick e Twitch (plataformas de streaming)

Ficam de fora, por enquanto, serviços considerados de mensageria (como WhatsApp), educacionais (Google Classroom) ou de jogos (Roblox, Discord). A lista, no entanto, é revisável e já há pressão para incluir outras plataformas, como sites de relacionamento e chatbots de inteligência artificial.

Reações e Críticas: Um Debate Acirrado

A medida gerou fortes reações. As empresas criticam a lei, mas anunciaram conformidade. A Meta começou a excluir contas a partir de 4 de dezembro, permitindo que os usuários baixem seus dados, mas argumentou que a proibição "afasta os adolescentes dos amigos e das comunidades" e defendeu um modelo de aprovação parental para downloads de aplicativos.

O YouTube afirmou que a lei "não cumprirá a promessa de tornar as crianças mais seguras online" e, na prática, as deixará menos seguras na plataforma, pois poderão acessar conteúdo sem uma conta e, portanto, sem os filtros de segurança ativados.

Críticos apontam várias fragilidades:

  • Desafios técnicos: A precisão dos sistemas de verificação de idade, especialmente para adolescentes, é questionada.
  • Risco de bloqueio de adultos: Há receio de que métodos como reconhecimento facial bloqueiem usuários maiores de idade por engano.
  • Fugas e brechas: Adolescentes podem usar VPNs, documentos falsos ou migrar para plataformas menores não fiscalizadas para burlar a proibição.
  • Proteção de dados: A coleta massiva de documentos oficiais e biometria preocupa especialistas em privacidade.

Um grupo de defesa de direitos digitais, o Digital Freedom Project, entrou com uma ação na Suprema Corte do país argumentando que a lei "rouba dos jovens a liberdade de comunicação política".

O Impacto nos Adolescentes e Famílias

A medida afetará centenas de milhares de jovens. Só no Instagram, estima-se que haja cerca de 350 mil usuários australianos entre 13 e 15 anos. A Meta afirmou que notificou os usuários com antecedência, dando a opção de fazer download de suas fotos e contatos, e que os dados serão restaurados quando a pessoa completar 16 anos.

Enquanto alguns pais comemoram a medida como um alívio, especialistas em educação e ética expressam cautela. A presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida de Portugal, por exemplo, considerou a via proibitiva "empobrecedora", defendendo que a solução deve passar por educação e literacia digital, e não apenas por restrição.

Um Efeito Dominó Global?

A experiência australiana está sendo acompanhada de perto por outros governos. A comissária de segurança online da Austrália, Julie Inman Grant, declarou que esta pode ser "a primeira peça de um efeito dominó global".

  • Europa: O Parlamento Europeu aprovou um relatório que recomenda estabelecer a idade mínima de 16 anos para acesso sem consentimento parental em toda a União Europeia.
  • França e Dinamarca: Estudam proibir o acesso para menores de 15 anos.
  • Brasil: Aprovou o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), que exige a vinculação de contas de menores de 16 anos a um responsável legal, com previsão de vigorar a partir de março de 2026.

Um Novo Capítulo na Regulação Digital

A implementação da lei australiana marca um capítulo inédito e controverso na relação entre estados, empresas de tecnologia e usuários. O governo reconhece que a transição não será perfeita e que brechas existirão. O sucesso ou fracasso desta política radical de proteção à infância no ambiente digital, diante de desafios técnicos, jurídicos e comportamentais, certamente influenciará as discussões regulatórias ao redor do mundo nos próximos anos.

Com informações de: BBC, Correio Braziliense, Diário de Notícias (DN), Deutsche Welle (DW), Euronews, Expresso, G1, Público, SIC Notícias, UOL■

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