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A partir de quarta-feira, 10 de dezembro, a Austrália implementa uma lei pioneira que proíbe o acesso de menores de 16 anos a plataformas de redes sociais. A medida, a primeira do tipo no mundo, obriga gigantes como Meta, TikTok e Google a excluírem milhões de contas de adolescentes. O governo alega que a ação visa proteger a saúde mental dos jovens de "algoritmos predatórios", mas a iniciativa enfrenta resistência judicial, críticas das empresas e dúvidas sobre sua aplicabilidade.
A decisão do governo australiano foi motivada por estatísticas consideradas alarmantes. Um estudo encomendado pelo próprio governo revelou que 96% das crianças entre 10 e 15 anos no país usam redes sociais. Dados oficiais mostram que sete em cada dez jovens dessa faixa etária já foram expostos a conteúdos nocivos, como material que promove distúrbios alimentares, automutilação ou suicídio. Além disso, mais da metade relatou sofrer cyberbullying, e uma em cada sete disse ter sido alvo de assédio por adultos ou crianças mais velhas.
Para a ministra das Comunicações, Anika Wells, as redes sociais funcionam como uma "cocaína comportamental" para os jovens. O primeiro-ministro Anthony Albanese reforçou que as plataformas se tornaram "uma fonte de ansiedade, uma ferramenta para burlões e, pior ainda, para predadores online".
A responsabilidade pelo cumprimento da lei recai inteiramente sobre as empresas de tecnologia, sob ameaça de multas pesadas. Pais e adolescentes não serão penalizados. As plataformas são obrigadas a tomar "medidas razoáveis" para:
O método de verificação de idade é um ponto central. A simples autodeclaração não é mais aceita. As empresas devem implementar sistemas que podem incluir:
A lei prevê multas de até 49,5 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 179 milhões) por violações graves ou repetidas.
A lista inicial divulgada pelo governo inclui dez grandes plataformas, baseando-se no critério de que seu propósito principal é facilitar a interação social e a publicação de conteúdo entre usuários.
Ficam de fora, por enquanto, serviços considerados de mensageria (como WhatsApp), educacionais (Google Classroom) ou de jogos (Roblox, Discord). A lista, no entanto, é revisável e já há pressão para incluir outras plataformas, como sites de relacionamento e chatbots de inteligência artificial.
A medida gerou fortes reações. As empresas criticam a lei, mas anunciaram conformidade. A Meta começou a excluir contas a partir de 4 de dezembro, permitindo que os usuários baixem seus dados, mas argumentou que a proibição "afasta os adolescentes dos amigos e das comunidades" e defendeu um modelo de aprovação parental para downloads de aplicativos.
O YouTube afirmou que a lei "não cumprirá a promessa de tornar as crianças mais seguras online" e, na prática, as deixará menos seguras na plataforma, pois poderão acessar conteúdo sem uma conta e, portanto, sem os filtros de segurança ativados.
Críticos apontam várias fragilidades:
Um grupo de defesa de direitos digitais, o Digital Freedom Project, entrou com uma ação na Suprema Corte do país argumentando que a lei "rouba dos jovens a liberdade de comunicação política".
A medida afetará centenas de milhares de jovens. Só no Instagram, estima-se que haja cerca de 350 mil usuários australianos entre 13 e 15 anos. A Meta afirmou que notificou os usuários com antecedência, dando a opção de fazer download de suas fotos e contatos, e que os dados serão restaurados quando a pessoa completar 16 anos.
Enquanto alguns pais comemoram a medida como um alívio, especialistas em educação e ética expressam cautela. A presidente do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida de Portugal, por exemplo, considerou a via proibitiva "empobrecedora", defendendo que a solução deve passar por educação e literacia digital, e não apenas por restrição.
A experiência australiana está sendo acompanhada de perto por outros governos. A comissária de segurança online da Austrália, Julie Inman Grant, declarou que esta pode ser "a primeira peça de um efeito dominó global".
A implementação da lei australiana marca um capítulo inédito e controverso na relação entre estados, empresas de tecnologia e usuários. O governo reconhece que a transição não será perfeita e que brechas existirão. O sucesso ou fracasso desta política radical de proteção à infância no ambiente digital, diante de desafios técnicos, jurídicos e comportamentais, certamente influenciará as discussões regulatórias ao redor do mundo nos próximos anos.
Com informações de: BBC, Correio Braziliense, Diário de Notícias (DN), Deutsche Welle (DW), Euronews, Expresso, G1, Público, SIC Notícias, UOL■