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Investigação aponta excessos da força policial contra manifestantes na Tanzânia
Eleições no país foram marcadas pelo impedimento da candidatura de opositores, protestos com pelo menos 700 mortos e apagão da internet
Africa
Foto: https://conteudo.imguol.com.br/c/noticias/f7/2025/10/31/apoiadores-da-candidata-presidencial-do-partido-governista-da-tanzania-chama-cha-mapinduzi-e-da-atual-presidente-samia-suluhu-hassan-opositores-foram-presos-ou-impedidos-de-concorrer-1761925627003_v2_900x506.jpg
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■   Bernardo Cahue, 21/11/2025

Uma investigação aprofundada da CNN encontrou evidências de que a polícia da Tanzânia usou fogo real e letal contra manifestantes desarmados durante os protestos que seguiram a disputada eleição presidencial de 29 de outubro. A apuração, que incluiu análise forense de vídeos, geolocalização e imagens de satélite, também encontrou indícios de valas comuns, sugerindo um esforço das autoridades para ocultar o número real de mortos.

Os protestos eclodiram após uma eleição em que a presidente interina, Samia Suluhu Hassan, foi declarada vencedora com cerca de 98% dos votos, em um pleito onde seus principais rivais da oposição foram barrados de concorrer. A oposição e observadores internacionais denunciaram que o processo eleitoral "ficou aquém" dos requisitos democráticos.

Análise Forense Expõe Execuções

A investigação verificou vídeos que mostram dois episódios fatais na cidade de Arusha no dia da eleição:

  • Uma mulher grávida de três meses foi baleada nas costas por policiais enquanto corria, segurando apenas um pedaço de pau e uma pedra. A análise forense de áudio confirmou que o tiro foi disparado a aproximadamente 112 metros de distância da posição onde os policiais estavam. A mulher morreu no local.
  • Poucos minutos depois, um homem que estava a pelo menos 95 metros da polícia foi baleado na cabeça e morto. No momento do disparo, ele não parecia estar segurando nada em suas mãos.

Vídeos de outras regiões, como a área de Segerea, em Dar es Salaam, mostram homens armados à paisana, supostamente policiais, descendo de picapes brancas e abrindo fogo repetidamente em áreas civis, enquanto manifestantes fugiam para se abrigar.

Morgues Superlotadas e Indícios de Valas Comuns

Opositores e grupos de direitos humanos acusam a polícia de desaparecer com centenas de corpos para esconder a verdadeira dimensão da repressão [citation:1]. Vídeos geolocalizados pela CNN em hospitais de Dar es Salaam e Mwanza mostram dezenas de corpos amontoados no chão de morgues e empilhados em macas, com um médico descrevendo que as vítimas, em sua maioria jovens, tinham ferimentos de bala na cabeça, tórax e abdômen.

Além disso, imagens de satélite do Cemitério Kondo, ao norte de Dar es Salaam, mostram solo recentemente revolvido em um terreno baldio entre os dias 2 e 5 de novembro, consistente com relatos de grupos de direitos humanos sobre a existência de valas comuns no local. Um vídeo obtido no local mostra a terra recém-virada entre a vegetação.

Números Discrepantes de Vítimas e Reação Internacional

O número exato de mortos permanece incerto, com diferentes fontes apresentando estimativas:

  • Partido de oposição (Chadema): Alegou ter documentado cerca de 2.000 mortes, acusando a polícia de ter feito desaparecer centenas de corpos.
  • Fontes hospitalares: Um enfermeiro do Hospital Nacional Muhimbili confirmou a recepção de 150 corpos apenas em Dar es Salaam.
  • Governo Tanzaniano: Descartou as alegações da oposição como "exageradas" e, por meio de seu chanceler, afirmou inicialmente não ter números oficiais de vítimas.

A comunidade internacional reagiu com forte preocupação. O alto-comissário da ONU para Direitos Humanos, Volker Türk, instou as autoridades a investigarem de forma completa e transparente os assassinatos e violações, e pediu a libertação de todas as figuras da oposição detidas arbitrariamente, incluindo o líder do Chadema, Tundu Lissu. A União Africana e os governos do Canadá, Noruega e Reino Unido também emitiram declarações conjuntas expressando alarme com os relatos de um grande número de fatalidades.

Contexto de Cerceamento Democrático

O ambiente que antecedeu as eleições já era marcado por tensão. O principal partido de oposição, Chadema, foi impedido de participar das eleições, e seu líder, Tundu Lissu, está detido desde abril, acusado de traição. Durante os protestos, o governo impôs um toque de recolher e um blecaute da internet, o que dificultou a verificação independente de informações e a confirmação do número real de vítimas.

A presidente Hassan, que foi empossada para um segundo mandato, anunciou a criação de uma comissão para investigar a agitação, mas também sugeriu que os manifestantes estavam sendo pagos para protestar.

Com informações de: CNN, Al Jazeera, UN News, DW, Euronews ■

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