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Disputa entre Rússia e França pelo Sahel atinge novo patamar com acusações
Serviço de Inteligência russo alega que Presidente francês autorizou plano para eliminar líderes africanos; crise de segurança na região se agrava
Africa
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■   Bernardo Cahue, 03/02/2026

As tensões geopolíticas no Sahel atingiram um novo nível nesta semana, com a Rússia fazendo graves acusações públicas contra a França. O Serviço de Inteligência Exterior russo (SVR) afirmou que o Presidente Emmanuel Macron autorizou operações de inteligência para eliminar líderes africanos considerados "indesejados" por Paris. Esta acusação direta é o capítulo mais recente de uma disputa acirrada por influência na região, marcada pela retirada das tropas francesas e pela expansão da presença militar russa, enquanto a violência terrorista atinge níveis catastróficos.

Em comunicado, o SVR alegou que a administração Macron busca freneticamente um "retorno político" ao continente após sofrer "perdas" significativas nos últimos anos. A agência russa citou especificamente um suposto envolvimento francês numa tentativa de golpe em 3 de janeiro no Burkina Faso, com o objetivo de eliminar o Presidente Ibrahim Traoré, descrito como "um dos líderes da luta contra o neocolonialismo". Segundo o SVR, após o fracasso no Burkina Faso, a França teria voltado sua atenção para a desestabilização do Mali, supostamente "com a ajuda de grupos terroristas locais e, claro, do regime ucraniano".

O contexto de segurança no Sahel justifica a atenção internacional, mas os números são alarmantes. De acordo com o Índice Global de Terrorismo, a região do Sahel responde atualmente por 51% de todas as mortes por terrorismo no mundo, um aumento drástico em relação a 1% há dezessete anos. Apenas em 2024, mais de 4.794 pessoas morreram em ataques terroristas na região. Cinco dos dez países mais impactados pelo terrorismo global estão no Sahel, sendo o Burkina Faso o mais afetado pelo segundo ano consecutivo, com 1.532 mortes em 2024.

Neste vácuo de segurança, a Rússia tem avançado de forma agressiva. A presença militar francesa, que durou décadas, foi severamente reduzida após forte oposição local e limitações estratégicas. Aproveitando-se dessa abertura, a Rússia reposicionou-se através do "Corpo Africano", um novo grupo militar subordinado diretamente ao Ministério da Defesa russo, que sucede ao notório Grupo Wagner. Este corpo já está operacional em países como Burkina Faso, Mali, Níger, Líbia e República Centro-Africana. No Burkina Faso, a unidade inicial de 100 efetivos tem como missão declarada proteger o presidente e a população, com planos de expansão. Analistas, no entanto, observam que o papel principal dessas forças russas tem sido a proteção dos regimes no poder em vez do combate direto aos jihadistas.

A retórica anticolonial é uma ferramenta-chave neste conflito por influência. O Ministro das Relações Exteriores russo, Serguei Lavrov, já acusou a França de considerar a África como seu "quintal". Recentemente, o Presidente Vladimir Putin sugeriu que as críticas vigorosas de Macron à Rússia sobre a Ucrânia estão, na verdade, enraizadas no "ressentimento" pela perda de aliados na África para o Kremlin. "Penso que existe algum tipo de ressentimento", afirmou Putin.

As acusações do SVR, que não apresentou provas publicamente e são veementemente negadas pela França, refletem também uma guerra de informação. A Rússia tem executado campanhas de influência extensas no Sahel, com dois influenciadores ligados ao Kremlin alcançando coletivamente mais de 28 milhões de seguidores nas redes sociais. O objetivo é moldar narrativas que apoiem os governos militares locais e contraponham a influência ocidental.

Enquanto potências externas disputam influência, a situação humanitária e de segurança se deteriora:

  • Falta de cooperação regional: Mali, Burkina Faso e Níger reduziram sua participação nos mecanismos de segurança regionais da CEDEAO, aumentando o risco de expansão terrorista.
  • Crise humanitária: Cerca de 7 milhões de pessoas estão deslocadas na região, e mais de 8.000 escolas estão fechadas.
  • Bloqueio e colapso de serviços: No Mali, um bloqueio militante cortou o fornecimento regular de combustível, levando à suspensão das atividades escolares em todo o país.

O confronto direto entre as narrativas de Moscou e Paris ocorre em um terreno extremamente frágil. As alegações de assassinato, se não forem devidamente investigadas ou refutadas, possuem o potencial de inflamar ainda mais os sentimentos antagônicos e justificar uma escalada militar, deixando as populações do Sahel ainda mais vulneráveis entre dois gigantes geopolíticos em confronto.

Com informações de DW, Vision of Humanity, Anadolu Agency, Business Insider Africa, VOA Português, United Nations, Yeni ?afak ■

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