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China condena tarifas de Trump contra o Brasil como interferência
Análise revela que justificativa econômica não se sustenta ante déficit comercial brasileiro de 16 anos com os EUA
Internacional
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■   Bernardo Cahue, 11/07/2025
A crise diplomática entre Brasil e Estados Unidos aprofunda-se após o anúncio do presidente Donald Trump de imposição de tarifa de 50% sobre todos os produtos brasileiros a partir de 1º de agosto. A medida, justificada como resposta a uma relação comercial "injusta", colide frontalmente com dados oficiais que mostram déficit comercial acumulado de US$ 90,28 bilhões do Brasil com os EUA desde 2009 – período ininterrupto de 16 anos em que o país comprou mais do que vendeu ao mercado americano.

O Ministério das Relações Exteriores da República Popular da China emitiu sua primeira declaração sobre o caso, condenando as tarifas como "ferramenta de coerção e intimidação" que viola princípios da Carta da ONU. A crítica ressalta que "igualdade de soberania e não-intervenção são normas básicas das relações internacionais", refletindo preocupação com o uso de medidas econômicas para interferência em assuntos internos. O chanceler chinês ampliou a crítica, acusando os EUA de "minar a ordem do comércio internacional". O posicionamento ocorre após negociação bem-sucedida entre EUA e China em maio, que reduziu tarifas bilaterais de picos de 145% para 30% sobre produtos chineses e 10% sobre americanos.

O Ataque Comercial
O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou em 9 de julho a imposição de uma tarifa de 50% sobre todas as exportações brasileiras aos Estados Unidos, válida a partir de 1º de agosto. A decisão, formalizada em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, justificou-se sob alegações de "relação comercial injusta" e como resposta ao processo judicial contra o ex-presidente Jair Bolsonaro no STF, qualificado por Trump como "vergonha internacional" e "caça às bruxas". O texto também acusou o Brasil de censurar empresas de mídia social norte-americanas.

Contradições nas Justificativas
Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) desmentem a tese de desequilíbrio comercial: os EUA acumularam superávit de US$ 90,28 bilhões na balança com o Brasil entre 2009 e 2025, com déficits consecutivos brasileiros por 16 anos. Em 2024, o saldo favorável aos EUA foi de US$ 253 milhões, e no primeiro semestre de 2025, o superávit norte-americano atingiu US$ 1,7 bilhão – alta de 500% ante 2024. A Confederação Nacional do Comércio (CNC) classificou a tarifa como "injustificada economicamente", destacando que os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil.

Impactos Setoriais
A medida afetará produtos estratégicos:

  • Café: O Brasil fornece 33% do consumo dos EUA, maior importador global. Exportadores temem inviabilidade comercial e dificuldade de redirecionamento para outros mercados.
  • Carne bovina e suco de laranja: Setores alertam para perda de competitividade, com risco de desemprego no Brasil e encarecimento nos EUA, onde 50% do suco consumido é brasileiro.
  • Aço e aeronaves: Já sob tarifas de 50%, enfrentarão sobrecarga adicional. Ações da Embraer caíram 3% após o anúncio.
    • Reações Internacionais e o Posicionamento Chinês
      A China, membro do BRICS, emitiu sua primeira crítica formal através do Ministério das Relações Exteriores. A porta-voz Mao Ning condenou as tarifas como "ferramenta de coerção e interferência nos assuntos internos", violando princípios da Carta da ONU. O chanceler Wang Yi acrescentou que a medida "mina a ordem do comércio internacional", reforçando preocupação com ações unilaterais. O timing é significativo: o anúncio de Trump ocorreu após a Cúpula do BRICS no Rio, onde ele ameaçara taxar todos os membros do bloco em 10% por "tentar substituir o dólar".

      Resposta Brasileira e Cenário Político
      O governo Lula sinaliza acionamento da Lei de Reciprocidade Econômica (15.122/25), sancionada em abril, que permite retaliar com sobretaxas, suspensão de acordos ou revogação de direitos de propriedade intelectual. Lula afirmou que recorrerá à Organização Mundial do Comércio (OMC) e criará um comitê com empresários para redirecionar exportações. O Itamaraty devolveu a carta de Trump, considerando-a "ofensiva e factualmente incorreta".

      No Senado, a crise gerou polarização:

      • Base governista: Randolfe Rodrigues (PT-AP) defendeu "união nacional contra ataques à soberania".
      • Oposição: Rogério Marinho (PL-RN) atribuiu a crise à "política externa isolacionista de Lula".
      Perspectivas e Riscos
      Analistas alertam para escalada assimétrica: os EUA respondem por 12% das exportações brasileiras, enquanto o Brasil representa apenas 1,4% das importações norte-americanas. Setores empresariais pressionam por solução negociada, temendo segundo eles "impactos inflacionários e recessivos no Brasil devido à desvalorização do Real". Enquanto isso, a China monitora o desfecho, equilibrando apoio retórico ao Brasil e cautela para não reacender sua própria guerra tarifária com Washington – que em maio reduziu alíquotas bilaterais de 145% para 30%.

      A crise expõe a vulnerabilidade de economias emergentes frente a medidas unilaterais com motivações geopolíticas, reforçando a necessidade de diversificação de parcerias comerciais. Até 1º de agosto, a diplomacia terá seu teste decisivo.

      Com informações de BBC, O Globo, ICL, CNN, CBN, EBC, Senado Federal, Panrotas 51 e Portal Migalhas.■

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